sexta-feira, 12 de julho de 2013


Quinto mandamento    

     E dizer que quando o destino determina nada pode mudar o rumo dos acontecimentos....

Minha vida correu normal até os meus 22 anos, eu estava noivo, com a data do casamento marcada para o mês de maio. Tudo corria bem, pois amava e era amado.

      Minha família se compunha de meu pai, mãe e cinco filhos - três homens e duas mulheres.  Trabalhávamos todos em nossa alfaiataria montada em nossa casa. 

       Um imprevisto veio a mudar nossos planos. A mãe de minha noiva veio a falecer de um mal súbito e achamos por bem adiarmos o casamento, por aproximadamente três meses, fiquei muito chateado, pois estava tudo pronto, nossa casa que seria o nosso ninho de amor, o meu terno, o vestido de noiva, os móveis, e até o enxoval já estava no seu devido lugar, o jardim que juntos plantamos já estava cheio de flores, permanecíamos muito tempo juntos fazendo planos e aprimorando nosso lar.

       Todos os dias eu a esperava na saída do trabalho para levar até sua casa só que comecei notar que estava diferente,  quase não conversava comigo e nem contava as novidades do dia, a principio pensei que fosse pela falta da mãe  mas logo percebi que era só comigo que ela mudou.

        Um dia notei através da vidraça que ela conversava animadamente com um rapaz, perguntei a ela quem era e respondeu que era um funcionário novo. 

      Todos os dias era a mesma coisa, eu ficava esperando enquanto ela ficava conversando com o suposto amigo. Reclamei e ela me falou que não fosse mais buscá-la e respondeu que já nem podia mais conversar com amigos. Nosso relacionamento esfriou, pois eu sempre acabava falando sozinho.

        Fui até sua casa para falar com ela na frente do pai, mas ela pouco falou, me pediu um tempo dizendo que já não estava mais certa dos seus sentimentos. Fiquei aflito, pois a amava loucamente.

      Esperei três dias e telefonei, me falou que era melhor terminar pois estava gostando do amigo de trabalho e pediu ainda para que devolvesse tudo que era dela que ela faria o mesmo, inclusive a  aliança.

      Voltei para a casa onde seria nosso lar, estava arrasado, naquele momento a vida perdeu a graça, não fazia mais nada direito, tinha uma ideia fixa de reconquistá-la á qualquer preço. Fiz uma ultima tentativa, telefonei mais uma vez, mas ela estava inflexível, lhe pedi mais uma chance, ela desligou o telefone.

      Abri uma gaveta onde estava uma pequena caixinha, ali estava tudo que restou dos três anos de namoro e noivado, cartas cheias de promessas, bilhetes apreçados, e muitas fotos, peguei  aquela que eu mais gostava  onde ela sorria feliz, no verso ela escreveu uma dedicatória! “Para os olhos lembrarem quando o coração esquece” foi demais pra mim, abaixo da foto eu escrevi: “Hoje ainda te matarei querida”.

       Acho que quando um ser humano se encontra deprimido e fragilizado mil demônios tomam conta dele, foi o que aconteceu comigo, mandei um mensageiro entregar tudo que era dela, pedi que ele entregasse o envelope separado com a foto.

      Fui até a casa de meus pais e peguei escondido o revolver que era do meu pai, e fiquei a sua espera escondido.

      Já estava escurecendo ,era por volta das 18h30 quando ela deixou o serviço, notei que seu pai estava a sua espera, eles caminhavam uns três quilômetros a pé até sua casa, acho  que ela estava com medo de ir sozinha após ter recebido aquela mensagem macabra.                 

     Fui seguindo e me esgueirando, parecia que uma força maligna se apoderou de mim, mais ou menos no meio do caminho surgiu uma oportunidade, ela ficou sozinha por instantes, seu pai entrou em um bar talvez para comprar cigarros, me aproximei e  ali estava ela, uma presa fácil e indefesa,  acho que mais uma vez a força do mal me dominou, ergui a arma e dei três tiros a queima roupa, vi quando ela caiu, as pessoas correndo e gritando, guardei a arma e sai, a partir  daquele momento começou meu calvário, o arrependimento veio em seguida, e minha consciência começou a me atormentar.

      Sai para o hospital, sabia que ela seria levada para lá, com a esperança que os tiros não fossem fatais.

      Estava uma confusão, perguntei a uma enfermeira o que aconteceu e ela respondeu que uma moça tinha sido assassinada.           

     Senti um calafrio, eu um assassino e, justo da pessoa que eu mais amava no mundo, fiquei ali sentado em um banco do corredor, e vi quando suas irmãs e seu pai passaram chorando. Logo ouvi voz de prisão, pois a foto que enviei a tarde estava em sua bolsa, com aquela frase tétrica! HOJE AINDA TE MATAREI QUERIDA! Estava também com minha assinatura.

      Não ofereci resistência naquele momento eu queria estar no lugar dela e tive a certeza que ela também me matara.

      O remorso e a voz da consciência começaram a me atormentar, já não queria continuar vivo, como poderia viver sem ela, coloquei a mão no pescoço e segurei um crucifixo que estava pendurado em uma corrente e pedi a cristo que tivesse piedade e me mandasse a morte, mas eu tinha que continuar vivo para pagar minha grande culpa.

       No dia seguinte foi seu enterro, escrevi um longo depoimento, falando do meu amor por ela, da grande saudade que iria sentir pela vida afora, do meu arrependimento, e que ela levasse junto com ela para a eternidade o meu coração. Pedi a minha irmã que comprasse um buque de rosas brancas e colocasse a carta entre as flores e jogasse em cima de seu caixão quando estivesse baixando a sepultura, como ultima despedida.

        A cadeia ficava a uns 300metros da igreja aonde ela entraria pela ultima vez

       Minha irmã me falou que ela estava linda, com um rosto sereno e vestindo o seu vestido de noiva, o mesmo que ela usaria no dia do nosso casamento então desfeito.

       Os sinos soavam tristes, compassadas e cada badalada parecia uma acusação contra a mim  pois eu sabia que ela estava partindo por minha culpa, olhava minhas mãos e as odiava, as mesmas mãos que tantos carinhos lhe fizeram foram capazes de lhe tirar a vida.

       Dali para frente meus dias e minhas noites foram todos iguais, sem ela nada mais me importava, meus sentimentos foram de culpa e saudades veio o dia do julgamento, fui condenado a 20 anos de reclusão, não esbocei nem uma reação, para mim tanto fazia estar preso ou solto, pois ela já não estava junto a mim senti  também remorso  por ver o sofrimento de meus pais e irmãos chorando no portão da delegacia, no dia que fui transferido para a penitenciária da capital minha mãe abanando suas mãos num gesto de desespero.

       Na prisão conheci todos os tipos de delinquentes e marginais. Cumpri minha pena costurando uniformes para os presidiários e como por lá todos tem um apelido, o meu foi o moço triste.    

      Quando fui posto em liberdade sabia que ainda faltava a justiça divina, pois sei que um dia terei que me apresentar diante de Deus para ser julgado, não se pode esquecer o que ele deixou escrito no quinto mandamento. Não Matarás! E se tiver alguém que esteja lendo este meu depoimento e esteja pensando em tirar a vida de alguém mesmo que esteja cego de amor e de ciúme, pense duas vezes, e jamais cometa este ato extremo.

     Você jamais poderá fugir da própria consciência, ela será implacável, e até o fim dos seus dias você jamais terá paz, pois o pior castigo de um ser humano é carregar o nome de ASSASSINO!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Amor perdido


      
           Acho que foi o clima de natal que me encorajou a escrever minha história. Poderia dizer que não passaria de uma história comum se não tivesse passado por uma grande provação.
           Eu tinha então 18 anos, e como toda moça tinha um namorado, meu primeiro amor. Talvez nem soubesse o quanto nos amávamos, se algo não viesse ameaçar aquele sentimento tão sublime. André era como chamava meu namorado, morava na minha cidade, onde morava com uma irmã, pois seu pai era dono de uma pequena fazenda, que fazia divisa com as terras de um tio meu, distante de nossa cidade.
            E foi na fazenda que aconteceu a tragédia que viria marcar nossas vidas para sempre.
           Um dia chegou uma noticia que abalou as nossas famílias, e foi terrível. Meu tio havia sido morto pelos capangas do pai do André ,o crime foi causado por brigas de posses de terras. A revolta de minha família foi geral, pois meu tio morreu inocente e atocaiado.
           Dai para frente começaram as pressões para que eu terminasse o namoro de imediato.  Naquele momento todos estavam pensando em ódio e vingança para dar ouvidos aos meus apelos, e pensar que eu e o André nada tínhamos a ver com o ocorrido. É claro que eu também estava abalada, pois além de ser um tio muito querido, ele era também meu padrinho.
           Dali pra frente André também começou a sentir o drama, pois seu pai estava foragido e o ódio de todos se voltava contra ele, ao ponto de ele ter que sair da cidade aonde trabalhava e estudava. Todos o chamavam de filho do assassino. Ele foi desprezado por todos, menos por mim que sofria junto com ele. E quando ele vinha apenas para me ver, sempre tínhamos que nos encontrar as escondidas. Eu tornei a suplicar ao meu pai que permitisse nosso namoro, mas ele foi duro e falou que preferia me ver morta.

    Senti muito ódio em suas palavras e senti que ele não ia mudar de idéia. Apos alguns meses, quando tudo se acalmou, o André voltou para cidade, e falou que nada ia nos, separar. Aquela prova de amor me deu coragem, e jurei a ele que jamais ia deixar de ama-lo e continuamos anos ver as escondidas, mas sempre que alguém nos via juntos, contavam ao meu pai, que ficava muito bravo, minha vida em minha casa se tornou em suportável, e um dia eu perdi a calma, e gritei ao meu pai, que não adiantava me proibir de ver meu namorado, pois eu não iria obedece-lo, isto me custou uma grande surra que deixou marcas profundas em meu corpo e também em minha alma.

    Meu pai ficou arrasado, e acho que estava sofrendo mais que eu, pois ele nunca tinha me batido antes. Senti que a morte violenta de meu tio, tinha acabado com nossa família, que se compunha de meu pai, de mim e de minha avó paterna, que ficou no lugar de minha mãe que morreu ao me dar a luz. E meus tios sempre que vinham nos visitar ficava falando do ocorrido, o que deixava meu pai mais revoltado, por ver minha avó chorando a morte do filho amado. Agora eu já nem falava com meu pai, e a situação ficou pior, pois uma tarde eu estava falando com o André e a noite ele levou uma surra, de três homens, e teve que ser internado, tal a violência sofrida eu tinha certeza que foi a mando do meu pai e de meus tios. Fiquei arrasada e sem saber o que fazer, eu estava sem saída. Pensei até em dar fim em minha vida. Mas pensei melhor, e resolvi sumir. Sim eu teria que sumir daquele inferno que se transformou minha vida. E já que eu não podia ser feliz, que ao menos o André fosse, E comecei planejar minha fuga, para onde eu nem sabia. Naquele momento eu pensei que meu pai me odiava, e que o único que ia sofrer era o André! Mas viria o esquecimento, e a distancia seria o melhor remédio, para o nosso sofrimento. Eu tinha uma soma em dinheiro, no banco e muitas jóias, com isso eu podia partir para muito longe, sem ser achada continuei visitando o André que estava se recuperando, e prestes a ter alta, não deixei que ele notasse minha angustia. Lhe dei muitos beijos, o abracei, e disse adeus. E como eu tinha me proposto uma semana depois eu parti, não deixei nem um recado, e levei uma maleta com apenas o indispensável, fui tomando um ônibus, após outro. Viajei por muitos dias, e minha ultima parada foi, em (MATO GROSSO) escolhi uma pequena cidade para me instalar aluguei um quarto, em uma casa de família, logo arrumei um colégio para dar aulas, quando cheguei tive vontade de voltar correndo, me sentia perdida entre desconhecidos mas ao lembrar o porque da minha partida, desisti. EU Tinha que ser forte, e enfrentar minha nova vida e passei a viver de lembranças, e quando chegava noite eu ficava pensando, o que teria se passado dês da minha partida, pois eu parti em uma véspera de natal! E um ano se passou, já era dezembro, e o clima de natal já se fazia anunciar, e a saudades eram mais fortes.

     Eu me recordava de tudo que deixei para traz, e ficava me perguntando, será que o André já se esqueceu de mim? Por muitas vezes eu escrevi longas cartas, para ele e meu pai, mas como tantas outras acabavam no cesto do lixo, molhadas pelas minhas lagrimas. Eu queria levar minha vida para outro rumo, até comecei alguns namoros, mas não conseguia me apegar a ninguém, e minha vida era muito solitária. Cheguei há conclusão que jamais poderia substituir o meu primeiro amor. Pois todas as noites eu dormia pensando nele. E os anos passaram, um natal, outro natal, e a cada ano que passava! Mais medo eu tinha de voltar. Eu ficava sentada no jardim de casa nas noites quentes de MATO GROSSO e tudo fazia lembrar o meu passado, o canto das cigarras, os vaga-lumes, e até uma estrela cadente que riscava o céu, e que por tantas vezes eu e meu amor fizemos um pedido para que fossemos eternamente felizes. Eu agora já estava com 25 anos sem os ter vivido, e já tinha esquecido o que era ser jovem. E a sensação esmagadora, do que tudo que eu fiz foi em vão. Quando eu parti não sabia se o que eu estava fazendo, era pra melhorar ou destruir minha vida. Só sei que uma melancolia começou tomar conta de mim. Eu tinha que fazer algo para provar que meu sacrifício não foi em vão. Um dia abri um baú onde tinha jornais velhos e comecei a ler, o que li me deixou pasma, era um anuncio em letras garrafais, na seção de procura-se. Era do André, me pedindo que onde eu estivesse, para me comunicar com ele, pois estava esperando por mim.

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Uma enorme alegria tomou conta de mim, e depois de muito tempo eu estava feliz. Mas foi uma felicidade de momentos, pois o jornal era datado de cinco anos atrás.

Agora eu me dava conta que o tempo passou, e o André já devia estar casado, e com filhos, mas um raio de esperança brotou em meu coração. E se ele ainda estiver me esperando? Tive vontade de voltar, mas um estranho medo minava minha alma. E mais um ano passou. Até que eu criei coragem, eu sabia que muita coisa havia mudado, mas eu também mudara, o sofrimento me fez amadurecer, e eu me achava com coragem para ver de perto o que mudou na minha prolongada ausência, tinha que ver de perto tudo que mudou na minha prolongada ausência. E mais uma vez com uma maleta pequena com poucas coisas eu estava, voltando. Quando o ônibus

Parou  na minha cidade, eu senti a sensação que desci na cidade errada, tudo estava diferente, as pessoas, nem um rosto conhecido, tudo tinha mudado, a cidade tinha crescido. Criei coragem e fui, até em frente da mercearia que era de meu pai, e onde também era minha casa, mas ali estava um grande supermercado. Eu me senti perdida! Sentei em um banco do jardim, o único que não mudou, o relógio da igreja marcava 11 horas da manha. Mais uma vez o desespero tomou conta de mim, e tive vontade de partir desta vida, pois ninguém sentiria minha falta. Fiquei ali por muito tempo, até que uma senhora idosa sentou ao meu lado, trouxe os netos para brincar, E começamos conversar, ela conhecia todos por ali, e foi me falando tudo que eu queria ouvir. A primeira punhalada, meu pai havia falecido ha três anos. Minha avó querida, também já se fora deste mundo, enquanto ela falava, eu chorava amargamente a perda de meus entes queridos. A senhora me convidou para ir pra sua casa, para me ajudar a encontrar algum, parente. Mas do André ela nada sabia, ha tarde fui visitar o tumulo do meu pai, ali estava sua foto, seu rosto amado que ha tanto tempo eu não via, mas era só uma foto, meu pai querido estava perdido para sempre. Ao lado minha querida avó, que saudades. Quando parti, pensei que já não amava mais meu pai, mas agora diante do seu tumulo, senti o quanto o amei. Depois, fomos procurar uma tia, irmã de meu pai. Agradeci á senhora que me ajudou e fiquei na casa dela, pois ela podia me contar detalhes sobre a morte de meu pai. Eu ia ouvindo e ficando mais triste, pois me disse que meu pai falou até a hora de sua morte, que ia viver para assistir a mina chegada. Mas não viveu. E no seu ultimo suspiro dos seus olhos brotarão lagrimas, que ela tinha certeza que foram por mim, pois ele morreu olhando para a porta na esperança de me ver entrar. Ela me falou ainda que depois que parti, ele se uniu ao André, e me procuraram durante anos em todos os meios de Comunicações possíveis, mas só encontrarão pistas falsas, mas minha tia nunca mais tinha visto o André. Depois fomos procurar a irmã dele, quando cheguei tive que me apresentar, pois ela não me reconheceu. Mas quando ouviu meu nome, ficou pálida, parecia estar vendo um fantasma. Depois me abraçou e começou a chorar. Ela repetiu tudo que minha tia me falou, que meu pai e seu irmão se unirão para me procurar, até o dia que meu pai descobriu que estava com câncer, mas seu irmão procurou. Até, de repente ela parou de falar, Eu senti que era o pior, que ela tinha para me dizer, e com voz tremula falou! Até o dia do acidente, que foi fatal e assim terminou sua busca exaustiva. Meus olhos estavam esbugalhados. Para mim foi o tiro de misericórdia. Senti minha ultima esperança morta, Já não tinha mais forças para continuar vivendo, Soube também que ele largou o emprego, e saiu pelo mundo, apenas com uma mochila nas costas. Virando quase em andarilho, me buscando dia e noite. Ás vezes viajava de carona espalhando cartazes por todos os lugares que passava. O acidente aconteceu no Paraná, não foi possível fazer o translado do corpo para a nossa cidade natal, pois seu corpo ficou mutilado, e ele foi sepultado em Curitiba, neste momento o que eu mais queria era visitar seu tumulo, sua ultima morada. No dia seguinte viajei cedo para Curitiba, ao chegar! Em frente ao cemitério, quase desmaiei, e ao chegar a sua ultima morada, senti que ali era o término do caminho. Era uma tarde de domingo chuvosa, mas eu nem sentia a chuva caindo no meu rosto, se misturando com as minhas lagrimas. Que ironia quando parti foi querendo que ao menos ele fosse feliz. Fiquei ali, nem vi as horas passar, até que o porteiro do cemitério disse que ia fechar o portão. Sai dali tão pequenina, fraca e incapaz, tinha a impressão que matei a todos, me senti! Julgada, e condenada por eu mesma. Hoje eu sei que só fugi naquela época, por imaturidade, pois fui uma criança mimada demais, sem nunca ter sofrido, se eu fosse mais madura, talvez tivesse capacidade para lutar por aquilo que eu mais queria na minha juventude. Agora eu só, mergulhada neste posso negro de tristeza, infelicidade, lagrimas, amargura e solidão. Aprendi que tem coisas que não tem volta que existem situações irreversíveis. Quando voltei não teve apelo, choros ou revoltas, que trouxessem meu mundo de volta. Só me restou o sentimento de perda e frustração. Eu tinha que ter fé em alguma coisa para continuar vivendo, e me apeguei com Deus este ser tão bondoso e superior me trouxe um pouco de conforto. Pois quem está só precisa aprender a pedir ajuda. E daqui para frente tenho que tentar esquecer sem lamentar, respirar fundo e prosseguir. No final dessa deixo a seguinte mensagem ao meu amor. Querido André cheguei muito tarde, houve um desencontro você partiu primeiro, como eu queria que ao menos você pudesse ter sido feliz. Eu me sacrifiquei por você, e você por mim. E nosso sacrifício foi em vão

Depois de tudo que sofremos, acho que  teremos a paz, que tanto procuramos após a morte. O destino nos fez ficar separados na vida!  Sei que você continuará me amando como eu enquanto viver não te esquecerei.  Meu único alento é saber que um dia nos reencontraremos com certeza. E ai será para sempre, continue me esperando onde estiveres, pois o caminho que me levará até você só Deus um dia poderá me mostrar. Que Deus proteja teu sono, e tenha pena dos nossos corações que um dia voltarão a se encontrar na eternidade.

      

Domingo no parque

  Era uma casa tão linda aonde eu vivi, e fui muito feliz, meus pais estavam sempre presentes. Lembro que tinha um pomar com muitas frutas, um jardim colorido de flores. Aos Domingos tinha missa, eu sabia as orações de cor, frequentávamos todas as festas religiosas. Mas nossa rotina foi quebrada, pela morte repentina de meu pai. Foi quando tudo mudou, minha casa ficou tão vazia e triste. Minha mãe não teve forças para levar aquele lar adiante, entrou em depressão, e jamais voltou ao seu estado normal. Estava longe de ser aquela mulher feliz de antes.
      A única renda que nos restou foi a que meu pai economizou a vida toda, e também a casa que era própria. Algum tempo depois ela teve que vender nossa casa, pois o dinheiro estava acabando, e logo teve muitos compradores. Ela vendeu pela melhor oferta, foi vendida para dona Anita que era conhecida de minha mãe, e pagou a vista. Mas fizeram um contrato em cartório que um quarto ficaria para nos morar ate que eu completasse 21 anos estando ela viva ou não.
      E assim fomos vivendo, com muita economia, eu comecei a ter problemas na escola, o tão famoso Bullying sempre existiu.     Eu estava muito magra, e alta para a minha idade, e me colocarão um monte de apelido. Acabei deixando a escola na quinta serie. Comecei a me achar horrível, e não tinha mais coragem de sair na rua, minha mãe falava que eu devia voltar para escola, pois estava na faze de crescimento, Mas eu não me conformava, com 14 anos eu já media um metro e sessenta e cinco. Meus cabelos também eu não gostava, Enfim agora eu já não gostava mais de sair na rua, tinha certeza que ia ser criticada por todos.   
    O parque ficava bem perto de onde eu morava minha maior alegria era ir brincar aos domingos, acompanhada pelos meus pais, foi lá que passei parte da minha infância e no parque não quis mais voltar.  
    Vi que minha mãe não se conformou com a morte de meu pai, e sua aparecia já era o de uma pessoa doente, eu fazia tudo para animá-la, mas eu também estava muito fragilizada pela falta de apoio dela, pois não tinha forças nem para ela. Mesmo assim se preocupava muito comigo, e com meu problema, mas não sobreviveu, a depressão a levou de mim para sempre.
     Agora eu estava realmente só, pois dona Anita nem me notava. Minha mãe antes de morrer deixou o dinheiro da venda da casa com ela para que cuidasse de mim e o dinheiro que deixou era para  suprir minhas necessidades, mas a única coisa que me dava, era o café da manha almoço e o jantar.
     Mas me avisou que minha mãe me deixou muito pouco, e falou que eu devia procurar um emprego.  Jamais vou sair para procurar emprego, pensei para todo mundo rir de mim fico aqui mesmo. Um dia olhei na janela e notei que o inverno já se fazia anunciar era um dia frio de garoa, não tinha quase ninguém na rua, os poucos transeuntes estavam com capas e guarda chuvas.
     Achei que eu podia ir até o parque sem ser notada. Fui até o guarda roupas, e tirei um casaco antigo que foi da minha mãe, era bem comprido era o que eu queria, puxei a gola e coloquei um gorro, e sai correndo para o parque, como estava feliz, não havia ninguém por lá o parque era só meu.
     Escolhi um banco que era coberto, e ali ficou sendo o meu lugar preferido todos os outros estavam vazios. Das arvores caiam pingos motivados pela garoa. Á como me sentia feliz, percorri todos os lugares me lembrei de meus pais! Dos verões onde fui tão feliz! Sabia que o tempo não volta, mas eu queria viver ser feliz de novo, e sentada no meu banco eu ficava olhando as pessoas encolhidas com seus agasalhos pesados. E assim eu podia ir todos os dias de inverno sem ser notada. Um dia ao chegar deparei com um desconhecido sentado no meu banco. Dei meia volta e fui procurar outro lugar para sentar, mas fiquei muito chateada, pois a garoa não dava trégua. No dia seguinte levei uma sombrinha, e lá estava o impostor sentado no meu lugar. Sentei num banco próximo, pois um dia antes ele nem me notou.
      Fiquei espiando do canto do olho, ele estava com um livro na Mao, olhar distante, notei que era bastante magro e muito pálido suas roupas eram um pouco surradas. De repente ele levantou, achei que ia embora, ele me olhou e perguntou! Você vive me olhando! Já lhe vi muitas vezes por aqui, e sempre me espiando.
      Sai correndo e só parei no portão para respirar, estava tão frio, tomei um banho quente e fui para debaixo dos cobertores.
      Deixei passar alguns dias e voltei, suspirei meu lugar, estava lá, sem ninguém para me atrapalhar. Passados alguns minutos, senti uma mão segurando meu braço, era o próprio, senti um calafrio, porque você sentou no meu lugar? Achei engraçado, agora o banco tinha dois donos. Quando olhei seu rosto, não foi um impostor que vi,
      Era apenas um jovem, com olheiras, e rosto triste. Pensei! Acho que ele se parece comigo, pois só vem aqui em dias nublados, para se esconder de olhares curiosos. Respirei fundo e perguntei você só vem aqui no inverno? Ele me olhou espantado e falou, a então você fala? É verdade como você adivinhou, não gosto de me expor sou apenas um farrapo humano, sei que sou muito feio, estou muito magro, e estou doente, mas logo vou ficar melhor, e ninguém vai mais zombar de mim.
      Você realmente está muito magro, mas não estou vendo nem um farrapo. Eu é que sou horrível, abri o casaco, olha sou um espantalho, sou chacota de todo mundo, não pude nem frequentar a escola todos riam de mim.
      Agora ele olhou meu corpo embaixo do vestido transparente, e falou, e você qual o apelido que vai me dar? Ele arregalou os olhos surpreso! Você já se olhou no espelho? Disse, não já quebrei meu espelho, faz muito tempo! E perguntou! Quantos anos você tem? 15 falei! Você é linda tem um corpo perfeito seus seios e pernas, é de dar inveja a muitas garotas de sua idade. Pode acreditar estou falando a verdade, seus cabelos assim cacheados e longos lhe caem muito bem, não se esconda mais embaixo deste casaco. Fiquei tão corada que parecia que ia morrer de tanta vergonha.
     Fechei o casaco tão rápido e sai correndo sem poder encara-lo, ele falou volte amanha. Quando entrei em casa tremia inteira, via diante de mim aqueles olhos tristes e fundos. No dia seguinte me enchi de coragem, e fui ao seu encontro, Ele estava no mesmo banco me esperando, ficamos conversando, me contou tudo sobre sua vida, disse que morava no fundo de uma fabrica aonde trabalhou por cinco anos, só que teve que se afastar por motivo de doença, pois fabricavam caixas de madeira para diversos fins, e o pó de madeira serrada lhe prejudicou, estava com problema pulmonar, mas logo ficarei bom estou me tratando me disse ainda, que o dono da fabrica o ajudava com remédios lhe deu a casa para morar, e lhe pagava um salário para se alimentar.     Comecei a contar minha vida, falei que era só no mundo, e disse que nossas vidas eram parecidas, eu só não estou doente.
     Fiquei feliz, pois agora eu tinha um amigo, de verdade. Ele perguntou se poderia me acompanhar até o portão falou que morava bastante perto do meu bairro. Ficamos conversando, durante alguns minutos no portão. De repente pente D. Anita apareceu gritando que já estava desconfiada, que eu saia todo dia atrás de homens, me perguntou se eu estava virando vadia, e falou!  Junte tudo que é seu e vá embora, você mesmo quebrou nosso contrato.
     O Davi quis reagir, mas lhe falei que era apenas mais uma das injustiças que por muitas vezes já havia sentido na pele. Ao ver minha aflição me falou! Vamos para minha casa. Ele me ajudou com as minhas malas e mais alguns pertences. No caminho me falou que sua casa era pequena, mas cabia mais um. Eu estava com muita vergonha, tinha medo que ele podia pensar mal de mim. Ao chegar ele providenciou uma sopa com legumes, e matei minha fome, logo depois ele me mostrou a casa, com apenas três peças, quarto, cozinha e banheiro, vi uma corda esticada com suas roupas penduradas, um fogão de lenha, uma pequena mesa, algumas panelas, pratos e talheres.
     A Cama era muito pequena feita por ele, era só o que ele tinha, vi que sua miséria era maior que a minha. Juntamos todas as coisas que eu trouxe e ficou um pouco melhor. Ele separou o pequeno quarto com um lençol em um arame, e cada um tinha o seu canto, para dormir.
     Depois começou a contar sua vida, falou que não gostava muito de sair em dias ensolarados, porque era alvo de brincadeiras de mau gosto, por ser tão magro, e o discriminavam porque tinha um surto de tuberculose na cidade e achavam que ele era portador desse mal. É você me falou que tem uma infecção do Pó de madeira, mas tomando todos os remédios logo vai ficar com saúde e engordar um pouco. Podemos todos os dias ir ao parque não importa a estação. Resolvi procurar dona Anita para que me devolvesse o dinheiro que minha mãe havia deixado, em troca eu daria o contrato que ela quebrou.
     E assim ela com medo me devolveu uma parte do que era meu. E dali para frente, fomos mais felizes, tínhamos sempre comida, e comecei a engordar um pouco, agora eu já gostava de minha aparência e minha alto estima voltou.
     O Davi estava mais alegre, já não tinha mais aquele olhar de moço triste, fazia muitos planos para quando ficasse bom, e em seus planos eu sempre estava incluída. Mas eu andava tão preocupada com sua aparência, notei que ele estava piorando dia a dia. Andava tão fraco e já nem queria sair de casa, mas tinha certeza que logo ficaria bom. Em dias de sol eu sempre o levava em uma praça em frente de casa, eu queria colocar, meu antigo casaco ele me dizia que não era mais para me esconder você e linda. Eu o agradecia por me devolver a alegria e a vontade de viver.
     Um dia lhe pedi para ir há outro medico, porque ele tinha febre com frequência. Mas mesmo assim ele continuava fazendo planos, queria voltar a estudar e trabalhar E falava que eu teria que terminar meus estudos com ele.
     Um dia ele me disse que me amava, perguntou se quando ele estivesse curado me casaria com ele. Para mim foi uma surpresa, eu não sabia nada sobre amor só de amizade, lhe falei que não sabia, mas disse que não queria perde-lo.
     Depois fiquei pensando, será que é amor que sinto por ele?  Pedi  a Deus para que nunca nos separasse. E continuávamos fazendo planos só que eles iam além dos considerados razoáveis.
     Um dia pela manha ele não levantou para o café matinal, fui acorda-lo ele estava, com muita febre e começou a tossir, e vi que do canto da boca escorria um filete de sangue, sai gritando por socorro e um vizinho veio em meu auxilio lhe transportando para o hospital, deitei sua cabeça e meu colo, fiquei ali sentada em um banco esperando por noticia, até que o medico apareceu, e falou, fique tranquila que amanhã ele estará bem não vai ter mais nada, para mim foi a melhor noticia, sai correndo, deixei a casa toda cheirosa, coloquei flores na jarra e por fim fui dormir, só acordando no dia seguinte, deixei a comida pronta, fui buscá-lo. Levei uma maçã vermelha que era a fruta que ele mais gostava, e fui direto para o quarto doze, que o medico falou que ele ficaria.   Mas o encontrei vazio, deixei a maçã sobre a mesa e fui a sua procura. Encontrei um rapaz vestido de branco, perguntei pelo Davi, ele pediu para acompanha-lo, o segui por diversos corredores e finalmente ele abriu uma porta, quando entramos ele puxou uma gaveta, e perguntou você veio reconhecer o corpo? Não entendi mais nada tive que, apoiar a cabeça começou a girar e fui parar no chão, quando acordei, senti um cheiro forte de clorofórmio. Desculpe moça pensei que você tinha vindo reconhecer o corpo! O que? O Davi morreu? Comecei a soluçar, mas o médico me falou que hoje estaria bom, não teria mais nada.
     O rapaz pediu para eu olhar só mais uma vez, e falei! Sim é ele. Ele estava muito mal se tratava aqui, o medico falou que não teria mais volta parou de sofrer. Olhei mais uma vez e reconheci seu rosto triste e imóvel, mas não era mais ele que estava ali. Só restou um invólucro vazio ele tinha partido para sempre. Fiquei aniquilada tinha perdido tudo de bom que tinha na vida, só eu sei o quanto senti sua falta, o quanto chorei a morte daquele que tinha representado tanto na minha vida, pai, irmão, amigo, e talvez um grande amor. E pensando em nossos sonhos, que os realizei sozinha, continuei morando na mesma casa! Voltei a estudar, trabalhar, até ser independente. Coloquei uma pequena foto, e seu tumulo estará sempre cheio de flores...