Acho que foi o clima de natal que me
encorajou a escrever minha história. Poderia dizer que não passaria de uma
história comum se não tivesse passado por uma grande provação.
Eu tinha então
18 anos, e como toda moça tinha um namorado, meu primeiro amor. Talvez nem soubesse
o quanto nos amávamos, se algo não viesse ameaçar aquele sentimento tão sublime.
André era como chamava meu namorado, morava na minha cidade, onde morava com
uma irmã, pois seu pai era dono de uma pequena fazenda, que fazia divisa com as
terras de um tio meu, distante de nossa cidade.
E foi na fazenda que aconteceu a tragédia
que viria marcar nossas vidas para sempre.
Um dia chegou uma noticia que abalou as
nossas famílias, e foi terrível. Meu tio havia sido morto pelos capangas do pai
do André ,o crime foi causado por brigas de posses de terras. A revolta de minha
família foi geral, pois meu tio morreu inocente e atocaiado.
Dai para frente
começaram as pressões para que eu terminasse o namoro de imediato. Naquele momento todos estavam pensando em
ódio e vingança para dar ouvidos aos meus apelos, e pensar que eu e o André
nada tínhamos a ver com o ocorrido. É claro que eu também estava abalada, pois
além de ser um tio muito querido, ele era também meu padrinho.
Dali pra frente André também começou a sentir o drama, pois seu pai estava foragido e o ódio de
todos se voltava contra ele, ao ponto de ele ter que sair da cidade aonde
trabalhava e estudava. Todos o chamavam de filho do assassino. Ele foi
desprezado por todos, menos por mim que sofria junto com ele. E quando ele vinha apenas
para me ver, sempre tínhamos que nos encontrar as escondidas. Eu tornei a
suplicar ao meu pai que permitisse nosso namoro, mas ele foi duro e falou que
preferia me ver morta.
Senti
muito ódio em suas palavras e senti que ele não ia mudar de idéia. Apos alguns meses,
quando tudo se acalmou, o André voltou para cidade, e falou que nada ia nos, separar.
Aquela prova de amor me deu coragem, e jurei a ele que jamais ia deixar de
ama-lo e continuamos anos ver as escondidas, mas sempre que alguém nos via
juntos, contavam ao meu pai, que ficava muito bravo, minha vida em minha casa
se tornou em suportável, e um dia eu perdi a calma, e gritei ao meu pai, que
não adiantava me proibir de ver meu namorado, pois eu não iria obedece-lo, isto
me custou uma grande surra que deixou marcas profundas em meu corpo e também em
minha alma.
Meu pai ficou arrasado, e acho que estava
sofrendo mais que eu, pois ele nunca tinha me batido antes. Senti que a morte
violenta de meu tio, tinha acabado com nossa família, que se compunha de meu
pai, de mim e de minha avó paterna, que ficou no lugar de minha mãe que morreu
ao me dar a luz. E meus tios sempre que vinham nos visitar ficava falando do
ocorrido, o que deixava meu pai mais revoltado, por ver minha avó chorando a
morte do filho amado. Agora eu já nem falava com meu pai, e a situação ficou
pior, pois uma tarde eu estava falando com o André e a noite ele levou uma
surra, de três homens, e teve que ser internado, tal a violência sofrida eu
tinha certeza que foi a mando do meu pai e de meus tios. Fiquei arrasada e sem
saber o que fazer, eu estava sem saída. Pensei até em dar fim em minha vida.
Mas pensei melhor, e resolvi sumir. Sim eu teria que sumir daquele inferno que
se transformou minha vida. E já que eu não podia ser feliz, que ao menos o
André fosse, E comecei planejar minha fuga, para onde eu nem sabia. Naquele momento
eu pensei que meu pai me odiava, e que o único que ia sofrer era o André! Mas
viria o esquecimento, e a distancia seria o melhor remédio, para o nosso
sofrimento. Eu tinha uma soma em dinheiro, no banco e muitas jóias, com isso eu
podia partir para muito longe, sem ser achada continuei visitando o André que
estava se recuperando, e prestes a ter alta, não deixei que ele notasse minha angustia.
Lhe dei muitos beijos, o abracei, e disse adeus. E como eu tinha me proposto
uma semana depois eu parti, não deixei nem um recado, e levei uma maleta com
apenas o indispensável, fui tomando um ônibus, após outro. Viajei por muitos
dias, e minha ultima parada foi, em (MATO GROSSO) escolhi uma pequena cidade
para me instalar aluguei um quarto, em uma casa de família, logo arrumei um
colégio para dar aulas, quando cheguei tive vontade de voltar correndo, me
sentia perdida entre desconhecidos mas ao lembrar o porque da minha partida,
desisti. EU Tinha que ser forte, e enfrentar minha nova vida e passei a viver
de lembranças, e quando chegava noite eu ficava pensando, o que teria se
passado dês da minha partida, pois eu parti em uma véspera de natal! E um ano
se passou, já era dezembro, e o clima de natal já se fazia anunciar, e a
saudades eram mais fortes.
Eu me recordava de tudo que deixei para
traz, e ficava me perguntando, será que o André já se esqueceu de mim? Por
muitas vezes eu escrevi longas cartas, para ele e meu pai, mas como tantas
outras acabavam no cesto do lixo, molhadas pelas minhas lagrimas. Eu queria
levar minha vida para outro rumo, até comecei alguns namoros, mas não conseguia
me apegar a ninguém, e minha vida era muito solitária. Cheguei há conclusão que
jamais poderia substituir o meu primeiro amor. Pois todas as noites eu dormia pensando
nele. E os anos passaram, um natal, outro natal, e a cada ano que passava! Mais
medo eu tinha de voltar. Eu ficava sentada no jardim de casa nas noites quentes
de MATO GROSSO e tudo fazia lembrar o meu passado, o canto das cigarras, os vaga-lumes,
e até uma estrela cadente que riscava o céu, e que por tantas vezes eu e meu
amor fizemos um pedido para que fossemos eternamente felizes. Eu agora já
estava com 25 anos sem os ter vivido, e já tinha esquecido o que era ser jovem.
E a sensação esmagadora, do que tudo que eu fiz foi em vão. Quando eu parti não
sabia se o que eu estava fazendo, era pra melhorar ou destruir minha vida. Só
sei que uma melancolia começou tomar conta de mim. Eu tinha que fazer algo para
provar que meu sacrifício não foi em
vão. Um dia abri um baú onde tinha jornais velhos e comecei a
ler, o que li me deixou pasma, era um anuncio em letras garrafais, na seção de
procura-se. Era do André, me pedindo que onde eu estivesse, para me comunicar
com ele, pois estava esperando por mim.
.
Uma
enorme alegria tomou conta de mim, e depois de muito tempo eu estava feliz. Mas
foi uma felicidade de momentos, pois o jornal era datado de cinco anos atrás.
Agora
eu me dava conta que o tempo passou, e o André já devia estar casado, e com filhos,
mas um raio de esperança brotou em meu coração. E se ele ainda estiver me
esperando? Tive vontade de voltar, mas um estranho medo minava minha alma. E
mais um ano passou. Até que eu criei coragem, eu sabia que muita coisa havia
mudado, mas eu também mudara, o sofrimento me fez amadurecer, e eu me achava
com coragem para ver de perto o que mudou na minha prolongada ausência, tinha
que ver de perto tudo que mudou na minha prolongada ausência. E mais uma vez
com uma maleta pequena com poucas coisas eu estava, voltando. Quando o ônibus
Parou
na minha cidade, eu senti a sensação que
desci na cidade errada, tudo estava diferente, as pessoas, nem um rosto
conhecido, tudo tinha mudado, a cidade tinha crescido. Criei coragem e fui, até
em frente da mercearia que era de meu pai, e onde também era minha casa, mas
ali estava um grande supermercado. Eu me senti perdida! Sentei em um banco do
jardim, o único que não mudou, o relógio da igreja marcava 11 horas da manha. Mais
uma vez o desespero tomou conta de mim, e tive vontade de partir desta vida,
pois ninguém sentiria minha falta. Fiquei ali por muito tempo, até que uma
senhora idosa sentou ao meu lado, trouxe os netos para brincar, E começamos
conversar, ela conhecia todos por ali, e foi me falando tudo que eu queria
ouvir. A primeira punhalada, meu pai havia falecido ha três anos. Minha avó
querida, também já se fora deste mundo, enquanto ela falava, eu chorava amargamente
a perda de meus entes queridos. A senhora me convidou para ir pra sua casa, para
me ajudar a encontrar algum, parente. Mas do André ela nada sabia, ha tarde fui
visitar o tumulo do meu pai, ali estava sua foto, seu rosto amado que ha tanto
tempo eu não via, mas era só uma foto, meu pai querido estava perdido para
sempre. Ao lado minha querida avó, que saudades. Quando parti, pensei que já
não amava mais meu pai, mas agora diante do seu tumulo, senti o quanto o amei.
Depois, fomos procurar uma tia, irmã de meu pai. Agradeci á senhora que me
ajudou e fiquei na casa dela, pois ela podia me contar detalhes sobre a morte
de meu pai. Eu ia ouvindo e ficando mais triste, pois me disse que meu pai
falou até a hora de sua morte, que ia viver para assistir a mina chegada. Mas
não viveu. E no seu ultimo suspiro dos seus olhos brotarão lagrimas, que ela tinha
certeza que foram por mim, pois ele morreu olhando para a porta na esperança de
me ver entrar. Ela me falou ainda que depois que parti, ele se uniu ao André, e
me procuraram durante anos em todos os meios de Comunicações possíveis, mas só
encontrarão pistas falsas, mas minha tia nunca mais tinha visto o André. Depois
fomos procurar a irmã dele, quando cheguei tive que me apresentar, pois ela não
me reconheceu. Mas quando ouviu meu nome, ficou pálida, parecia estar vendo um
fantasma. Depois me abraçou e começou a chorar. Ela repetiu tudo que minha tia
me falou, que meu pai e seu irmão se unirão para me procurar, até o dia que meu
pai descobriu que estava com câncer, mas seu irmão procurou. Até, de repente
ela parou de falar, Eu senti que era o pior, que ela tinha para me dizer, e com
voz tremula falou! Até o dia do acidente, que foi fatal e assim terminou sua
busca exaustiva. Meus olhos estavam esbugalhados. Para mim foi o tiro de
misericórdia. Senti minha ultima esperança morta, Já não tinha mais forças para
continuar vivendo, Soube também que ele largou o emprego, e saiu pelo mundo, apenas
com uma mochila nas costas. Virando quase em andarilho, me buscando dia e
noite. Ás vezes viajava de carona espalhando cartazes por todos os lugares que
passava. O acidente aconteceu no Paraná, não foi possível fazer o translado do
corpo para a nossa cidade natal, pois seu corpo ficou mutilado, e ele foi
sepultado em Curitiba, neste momento o que eu mais queria era visitar seu
tumulo, sua ultima morada. No dia seguinte viajei cedo para Curitiba, ao chegar!
Em frente ao cemitério, quase desmaiei, e ao chegar a sua ultima morada, senti
que ali era o término do caminho. Era uma tarde de domingo chuvosa, mas eu nem
sentia a chuva caindo no meu rosto, se misturando com as minhas lagrimas. Que
ironia quando parti foi querendo que ao menos ele fosse feliz. Fiquei ali, nem
vi as horas passar, até que o porteiro do cemitério disse que ia fechar o
portão. Sai dali tão pequenina, fraca e incapaz, tinha a impressão que matei a
todos, me senti! Julgada, e condenada por eu mesma. Hoje eu sei que só fugi
naquela época, por imaturidade, pois fui uma criança mimada demais, sem nunca
ter sofrido, se eu fosse mais madura, talvez tivesse capacidade para lutar por
aquilo que eu mais queria na minha juventude. Agora eu só, mergulhada neste
posso negro de tristeza, infelicidade, lagrimas, amargura e solidão. Aprendi que
tem coisas que não tem volta que existem situações irreversíveis. Quando voltei
não teve apelo, choros ou revoltas, que trouxessem meu mundo de volta. Só me
restou o sentimento de perda e frustração. Eu tinha que ter fé em alguma coisa
para continuar vivendo, e me apeguei com Deus este ser tão bondoso e superior
me trouxe um pouco de conforto. Pois quem está só precisa aprender a pedir
ajuda. E daqui para frente tenho que tentar esquecer sem lamentar, respirar
fundo e prosseguir. No final dessa deixo a seguinte mensagem ao meu amor. Querido
André cheguei muito tarde, houve um desencontro você partiu primeiro, como eu
queria que ao menos você pudesse ter sido feliz. Eu me sacrifiquei por você, e
você por mim. E nosso sacrifício foi em vão
Depois
de tudo que sofremos, acho que teremos a
paz, que tanto procuramos após a morte. O destino nos fez ficar separados na
vida! Sei que você continuará me amando como
eu enquanto viver não te esquecerei. Meu
único alento é saber que um dia nos reencontraremos com certeza. E ai será para
sempre, continue me esperando onde estiveres, pois o caminho que me levará até
você só Deus um dia poderá me mostrar. Que Deus proteja teu sono, e tenha pena
dos nossos corações que um dia voltarão a se encontrar na eternidade.
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