sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Minha Caixinha de Recordação
[1]Enumeras
vezes somos tomados de surpresas, e não nos é fácil pronunciar palavras,
tamanha a emoção a que somos submetidos. Principalmente quando nos
transportamos a vivencias, de um passado incrivelmente próximo, ao contexto do
coração, ainda que a existência inexorável do tempo, o apresente remoto! Foi em
um dia triste de inverno, que Carina viu seus sonhos mais intensos desmoronar,
sentiu um misto de saudades e solidão, quando tomou entre as mãos, a pequena
caixa que guardava a muitos anos, já havia perdido a conta, Quinze, vinte anos,
talvez! Foi o dia que tinha terminado um grande amor. Um Sonho que não se
concretizou. Tornou a ler todas aquelas cartas de amor, bilhetes apresados, que
estavam guardados com flores amareladas. As lagrimas, correram pela face já
conhecida, como balsamo consolador! Recordou sua infância tão feliz. Mas sua juventude fora marcada por
preconceitos, sociais de sua época, no qual fora educada. Lembrou também do
imenso jardim de sua casa, coberto de flores, de enumeras cores, que exalavam
um perfume inebriante. Gostava de apreciar as borboletas de azas multicores,
adorava o canto das cigarras. Carina tinha um canto do jardim que era seu
preferido, pois ali as flores “da paixão” germinavam em abundancia. Sentada no
seu banco ela permanecia por horas. Foi nesta época que Carina, com apenas 12
anos, perdeu seus pais em um acidente de carro. A vida para ela perdeu o
encanto, passou muito tempo, triste, sentindo falta daqueles que tanto amara.
Ficou aos cuidados de uma tia, que a acolheu com todo o carinho. Vivia com uma
quantia, em dinheiro que seus pais lhe deixaram, o que lhe proporcionou uma boa
educação: Carina se transformou em uma linda jovem, um tanto solitária e
sonhadora. Sua tia, sempre presente, notava que ela era diferente das outras
moças. Enquanto elas já tinham namorados. Carina não se interessava por nem um.
Um dia ela a questionou! Carina você é tão linda, os rapazes vivem querendo se
aproximar de você, mas você nem nota. A tia, Carina respondeu! Meu ideal, esta
muito além desses frangotes! Sonho com um príncipe. Tenho outra noção sobre o
amor. É provável que eu nunca o encontre, ou venha a casar. Quero alguém que me
ame mais que a própria vida, alguém que me seja inteiramente devotado, que não
pense senão em mim, cujo coração, bata ao compasso do meu, cuja alma, seja a
outra metade da minha. Quero que o meu amor seja perfeito, não me conformarei
com outro. Carina! Mas certamente com os ideais que você tem sobre o amor, e
fazer deste amor a única razão de viver, você vai sofrer muito. Não sei quem
ele é, e quem poderá ser. Talvez nunca o encontre, mas estou certa que ele existe em
algum lugar. Tenho certeza que as almas foram feitas em duas metades, e que o
verdadeiro amor é a união das duas. Estou á procura do meu ideal, e creio que
ele também anda a minha procura, se nos encontrarmos, realizarei a única
ambição da minha vida. Tenho sua imagem em minha mente, e quando o ver meu
coração me dirá no mesmo instante. Assim encontra-lo, o reconhecerei, bastará
velo, para saber que é o amor que busco. Ai, disse a tia, esta é uma convicção
perigosíssima, você corre o risco de se apaixonar pela pessoa errada. Temo por
você minha querida, suas palavras me deixaram angustiada! Sempre notei que você
é diferente. Posso lhe garantir que uma paixão assim, traz mais sofrimento do
que prazer. Se você deseja ser feliz, deve evitar este sentimento que chamamos
amor. Era um belo dia de verão, Carina colheu algumas flores para colocar em um
vaso, depois ficou por algumas horas, no seu canto predileto entre as flores
perfumadas! Todos os dias, passava algumas horas no jardim, e ficava sonhando
com seu príncipe. Se fechasse os olhos, o veria na sua frente, tal qual sempre
sonhara. Foi despertada por uma das poucas amigas que tinha, e veio convida-la
para o aniversario (surpresa) de uma colega da escola, e seria realizado no
clube da cidade. Um pouco contra gosto Carina aceitou! Como não gostava de
dançar, ficou sentada apenas apreciando a turma se divertir. Estava meio
distraída, mas de repente teve um sobressalto, ali sentado a algumas mesas a
frente da sua; estava ele, o personagem constante dos seus sonhos. Sentiu uma
estranha impressão, que sonhava! o que via não parecia real. Durante alguns
segundos em volta dela se fazia silencio, e tudo se ofuscava, parecia que a
musica lhe enviava mensagens “celestiais” fez um esforço para dominar o êxtase,
que a punha num mundo fantástico, sentiu que sua hora chegou. Seu amor estava
ali muito perto, sim era ele! Tinha uma farta cabeleira preta, moreno, olhos
negros, já o conhecia! Sempre disse que o havia de conhecer imediatamente.
Quando foi apresentada, o primeiro olhar que lhe lançou, Carina sentiu o
coração palpitar com força, era extraordinário, que o ideal dos seus sonhos,
lhe fosse apresentado naquela linda tarde de primavera, em que o sol, os
pássaros e as flores pareciam desafiar a natureza, e dispensaria qualquer
apresentação. Teve vontade de lhe perguntar! Á muito tempo que esta a minha
procura? Mas a prudência a deteve. Carina o fitava e toda a sua alma lhe
brilhou nos olhos. Ficarão conversando sobre diversos assuntos, já era quase
noite, mas para ela era como tivesse passado apenas poucos minutos. Tudo mudou,
agora havia uma razão para viver. Pouco tempo antes sentia o coração cheio de
desanimo, esse estado de alma desapareceu como desaparecem as trevas. Para ela
foi como se não houvesse mais ninguém, somente os dois. Ele estava entusiasmado
com a beleza daquela jovem, Artur também se esqueceu do mundo ao seu redor,
queria que o tempo parasse naquela tarde. Daquele dia em diante, estavam sempre
juntos, em todas as suas horas de folga, corria para ficar junto da sua amada.
Se surgia algum imprevisto, ele lhe escrevia bilhetes, e mandava junto com uma
rosa, que ela lia muitas vezes, e guardava em sua pequena caixa. Ele estava a
pouco na Cidade, era um dos engenheiros responsável por uma grande ponte, sobre
o rio, que estava sendo construída na Cidade. E todas as noites Carina ficava
esperando a visita do seu amado. Artur era tudo que ela sonhou para si, doce,
meigo, carinhoso e educado. Quando ele voltava para o hotel, ela guardava em
sua memoria todos os gestos e palavras que ele pronunciava, quando estavam
juntos! Saia no jardim nos dias ensolarados, as flores lhe pareciam rostos
amigos a lhe sorrir. Já se passara seis
meses, daquele dia de setembro, em que haviam se conhecido, e as chuvas de
março já se faziam anunciar, Artur falou a Carina que talvez a obra tivesse que
ser interrompida, pois o rio estava muito acima do nível normal. Ele teria que
partir para dar continuidade a outros trabalhos interrompidos. Carina entrou em
pânica, ficar longe do seu amado? O que será de mim murmurou para si! E seria o
ultimo fim de semana que ficariam juntos, ele partiria na segunda pela manha,
ficaria com ela até a hora de sua partida. Chegou a sua casa, ficou no jardim
por algum tempo, onde era o lugar predileto dela. Quando entrou, ela já o
esperava com uma xicara de chocolate quente, o ar estava gelado e chovia muito.
A alegria de velo foi visível, lhe cobriu de beijos, e ficaram abraçados como
se nada mais houvesse ao seu redor. Ela não queria nem pensar na separação,
passaram juntos o ultimo fim da semana. Os três dias mais tristes de suas
vidas. Era Domingo, já anoitecera, se aproximava a hora da separação, ela foi
preparar o café da manha, para os dois, não queria que ele notasse que estava
chorando. Quando foi chama-lo notou que ele tinha um ar cansado, estava pálido,
havia desespero em seu olhar. Sombras ao redor dos olhos demostravam que ele
avia passado muitas noites sem dormir, dias a meditar! E realmente ele estava em um dilema, Artur
pensava! como vou ficar sem ela por tanto tempo, e como vou ter coragem de
contar-lhe o meu segredo! Só de pensar perde-la, sentia calafrios, tinha
certeza que já não poderia viver sem ela. Sentia agora que era muito feliz, do
que muitos outros homens; conhecera a alegria do amor verdadeiro, embora talvez
fosse durar tão pouco. Muitos homens vivem e morrem sem nunca ter experimentado
os minutos de suprema ventura, a gloria deste amor que aquece o coração para o
resto da vida. Carina e Artur estavam mudos, Quando ele falou, Sua voz era tão
fraca, parecia um suspiro! Carina! Tenho algo a contar, tenho lutado como nem
um homem lutou, espero que me entenda e me perdoe, por não ter falado antes,
quando nos conhecemos. Sou casado! tenho dois filhos. Casei aos dezessete anos,
confundindo amizade com amor, se não tivesse lhe conhecido jamais conheceria o
verdadeiro amor, jamais seria feliz de verdade! Hoje venho lhe implorar que não
me deixe, quero que venha comigo para onde eu for, vamos viver nosso amor.
Pensei que ser feliz antes de lhe conhecer, mas é você que eu quero sempre
junto de mim, por favor, não diga “não;” seria o fim para mim. No rosto de
Carina estava estampada uma nuvem de infelicidade. Que fiz eu para ser tão
castigada, Deus não pode ser tão cruel comigo. Depois falou! Você casado, meu
príncipe, unido a outra mulher pelos laços sagrados do matrimonio! Bem que
minha tia me alertou, um amor assim não pode ser feliz. Artur ficou assustado
com a expressão, e o desespero que viu no rosto de sua amada. Ele a abraçou com
força, não tenha medo Carina, Confia em mim, era uma grande provação, uma dor
moral para ela. Carina falou, quando você voltar lhe darei uma resposta! Ele
quis contestar, mas ao ver a dor, estampada em seu rosto calou-se. Ao se
despedir, ela lhe cobriu de beijos e lagrimas, o apertou de encontro ao coração
pela ultima vez. Ele a olhou e murmurou! me espera, logo estarei de volta para
ficarmos juntos, para sempre. Carina nada falou, tinha a língua paralisada, e
os lábios imóveis. Ele a beijou ardentemente, até a volta meu amor! Adeus ela
disse Boa viagem e um feliz regresso. O seguiu com o olhar ate ele desaparecer.
Foi para o jardim, hoje triste e sem flores. Lembrou o verão que passaram
juntos, onde as cigarras cantavam, a flores purpuras pendiam seus, galhos, e as
abelhas douradas esvoaçavam sobre os lírios. Avia uma tristeza trágica em seu
olhar. Um amor sem esperança! Que a de ser da minha vida, um amor incompleto não
vale nada. Os beijos doces que se transformaram em fel, palavras de amor que se
transformaram em punhaladas. Como podia dizer adeus! Como podia olhar para
aquele rosto, que era o sol de sua vida, o que devia fazer? Uma pergunta que
não queria calar! Pouco tempo antes era a mulher mais feliz da face da terra, e
agora o que faria com aquele amor que lhe impôs a maior prova, que poderia
podia ser demonstrado. Sua tia foi ao seu encontro no jardim, quando a encarou
ficou espantada. Santo Deus Carina! Você tem a sombra da morte estampada em sua
face, não fique assim seu amado logo voltara! Carina pensou, quando voltar não
estarei aqui, Ela olhou pela janela, para o sol dourado, e o seu azul, já não
chovia alguns dias, a natureza estava linda, apesar d muito frio. Não parecia
que todos não fossem felizes, que houvessem esperanças destruídas, amores
naufragados, vidas arruinadas. A culpa é minha pensou, não devia ter levado os
meus sonhos além dos considerados razoáveis! Agora era só começar o desmonte de
seu castelo de areia, que terminou com os sonhos de um grande amor, que não seria
concretizado. Sabia que jamais poderia ser feliz, destruindo a felicidade de
alguém. Ela guardou uma frase que o Artur lhe falou! “Eu era feliz antes de te
conhecer” pensou em jogar tudo para, alto e viver seu grande amor, e o resto
seria o resto, mas a educação moral e rígida, não a deixou tomar esta decisão.
Pediu para a tia vender todos os seus bens com urgência, antes que o Artur voltasse,
partiriam sem deixar vestígios. E assim foi feito! Pois se ele voltasse jamais
teria coragem de lhe dizer adeus olhando seus olhos. Jamais ficou sabendo, o
que ele sentiu quando não a encontrou, deixou para traz, seu príncipe, seu
jardim aonde foi tão feliz, e também ficou sua vida. Fecho novamente minha
caixinha de recordações, cheia de sonhos mortos. Mas são estes sonhos, e lembranças que a mantiveram
viva:
Pobre Menina Rica
Acho que sempre fui
namorada do Bruno! Nem lembro como o
conheci! Se no colégio em um aniversario infantil, ou em minha casa. Nossos
pais eram amigos e falaram que quando ficássemos grandes íamos nos casar.
Andávamos sempre de mãos dadas, e na cidade todos sabiam que tínhamos um
compromisso combinado por nossos pais. Mais tarde, fiquei sabendo que era uma
união por dinheiro, pois nossas famílias eram ricas e queriam nos unir, para
unir também suas riquezas. O Bruno estava prestando vestibular para cursar
medicina, como era de se prever ele foi o aluno que passou com nota dez. Todos
ficaram orgulhos, principalmente seu pai que também era medico. Nesta época eu
ainda estava no colegial, pois nossa diferença de idade era de oito anos. Agora
seus estudos exigiam mais dedicação, mas nos finais de semana estávamos sempre
juntos; Três anos depois minha mãe estava organizando a festa dos meus quinze anos,
e fazia questão que eu fosse a debutante mais linda. O bruno estava orgulhoso
de dançar a valsa comigo, e tudo ocorreu como meus pais previam. Eu já não era
mais aquela menina, infantil de antes, frequentava a alta sociedade que meus
pais faziam questão de pertencer. Foi combinado por eles, que ficaríamos noivos
no meu aniversario de dezessete anos! Eu estava feliz gostava muito do Bruno, e
tudo corria normal, minha mãe estava preparando meu enxoval, e sempre me pedia
opinião eu apenas falava, que estava tudo bem. Eu gostava muito de pintura, e
falei que fazia questão de pintar guardanapos, toalhas de mesa, de banho, roupa
de cama, enfim gostava de dar um toque de pintura em tudo com nossas iniciais. Um
dia atravessei a rua para comprar tintas que estava em faltando. Ao entrar
esbarrei em um rapaz que saia da loja, carregando uma pilha de latas derrubando
todas. Logo pedi desculpas e o ajudei muito envergonhada. Achei que ele ia
ficar furioso, mas apenas falou, não precisa pedir desculpas, veja não causou
nem um estrago, elas estão todas inteiras. Depois fixou os olhos por alguns
segundo nos meus, senti uma emoção inexplicável, era os olhos mais lindos que
já tinha visto até então, seu rosto doce e meigo sua voz suave e macia, neste
momento me dirigiu um respeitoso galanteio, fiquei sem fala, e me esqueci do
que tinha ido comprar, e voltei para casa de mãos vazias. Aquele rosto não saiu
da minha cabeça. Ele passou a ser o meu primeiro, e o ultimo pensamento do dia.
Era muito estranho, pois comecei a fazer comparações entre ele e o Bruno, Ele
tinha cabelos louros e lisos, olhos verdes, o Bruno tinha cabelos negros e
encaracolados, era moreno. Quando ele saiu vi que era alto e com um físico
avantajado o Bruno tinha a minha altura. E todos os dias ia ate a loja de
tintas, pois tinha muita vontade de rever aquele rosto de novo, mas nunca mais
o encontrei Perguntei as meninas da loja, mas ninguém sabia nada dele. Tudo que
vi, foi quando ele colocou as latas em uma caminhonete e se foi. Faltavam quatro
meses para o meu casamento e o bruno me pediu para ir com minha mãe escolher os
convites, pois ele estava em semana de provas, e impossibilitado de me
acompanhar. Fomos até a gráfica, que ficava a uma quadra de casa, quando cheguei
ao balcão deparei com o rapaz que tanto mexeu com meus sentimentos alguns meses
atrás. Nem sei como consegui falar, com voz tremula de emoção. Tentando
esconder meu embaraço falei, queria ver modelos de convites de casamento. E
mais uma vez fui surpreendida com o olhar dele, que perguntou! É para o seu
casamento? Baixei a cabeça, apenas acenei que sim, ele acrescentou (que pena)
vi uma aliança em seu dedo, no dia que nos encontramos. Pensei então ele não
esqueceu de mim! Agora minha mãe se aproximou, falei que não estava bem, e
voltaríamos no dia seguinte, me estendeu um cartão, e disse para procura-lo.
Minha mãe não notou o meu nervosismo, senão tudo ficaria pior. Meu coração
estava acelerado, apertava o cartão, Com o seu telefone, seu nome! Vitor que
nome lindo. Achei ele ainda mais bonito
que a primeira vez. Pensei em telefonar, na hora que entrei em casa, mas ao
olhar minha aliança me contive. Não sabia mais o que sentia por meu noivo, e
porque não esquecia um minuto de um estranho. Queria tanto ter uma amiga com
quem conversar, mas não tinha ninguém, para confiar o meu segredo. Achei por
bem esquecer tudo e seguir com os preparativos, meu casamento que já estava
próximo, afinal eu já tinha este compromisso desde criança. Mas a curiosidade
falou mais alto, e quando minha mãe estava ausente eu disquei aquele numero com
mãos tremulas, escutei sua voz macia, do outro lado da linha. Perguntei a ele
se lembrava de mim! Ele respondeu, no momento que cruzei com você na porta
daquela loja, nunca mais te esqueci. E falou que sempre me conheceu, sabia de
tudo ao meu respeito, onde eu morava, meu, o nome de meu pai, Sabia que eu
estava noiva, e que o meu noivo estava estudando medicina. Fiquei sem saber o
que responder, e acrescentou, não esqueça que moramos em uma cidade pequena,
todos se conhecem. Eu sempre te achei linda, mas sabia que você era uma garota
proibida, principalmente porque sou pobre. Fiquei impressionada com a
simplicidade, e a espontaneidade com que o Vitor me revelou a sua condição de
moço pobre. Falou ainda que era apenas empregado da gráfica onde trabalhava. Contei
a ele que o procurei muito, e nunca mais o esqueci. E dali em diante começamos
a nos ver, sempre escondidos. Achei que não estava fazendo noda errado, pois
ficávamos apenas conversando, ele tinha tantos assuntos, e vi que realmente, eu
e meu noivo nunca tivemos um papo tão interessante. Comecei a entender a
diferença entre amor e amizade, pois o dia que não podia sair para nosso
encontro ficava muito triste. Eu sempre tive uma educação bastante rígida, senti
o quanto estava errada, enganando a todos. Resolvi contar tudo a minha mãe, e
falei que estava amando, achei que ela podia entender, e me ajudar. Ela ficou
sem fala, a principio, não acreditou, quando se recuperou falou que eu devia
esquecer aquela fantasia, e me casar, pois meu casamento já estava muito
próximo. falou ainda que eu não podia esquecer a sociedade que eu frequentava.
Como iria ficar o Bruno e sua família? além do escândalo que tudo isto
causaria. Afirmou que eu estava sendo egoísta, pois não estava pensando nela, e
no meu pai. Mas eu falei que sem amor não casaria, pois era um sentimento muito
forte que sentia por Vitor, e ele sentia o mesmo. Mas ela não me deu ouvidos. E
continuou os preparativos para meu casamento. Fiquei muito decepcionada, pela
primeira vez, minha mãe não ajudou, e ainda ficou contra mim, mas pensando bem
eu nunca tinha dito (não) a ela nem ao meu pai, sempre aceitei tudo que eles
queriam. Mas desta vez eu não ia permitir eles decidirem por mim. Afinal era a
minha felicidade que estava em jogo. Eu estava com dezenove anos, e sabia muito
bem definir o sonho da realidade, me sentia outra, mais adulta, feliz. Só que o
cerco estava fechando minha mãe controlava meus passos. E foi minha tia, por
parte de meu pai quem me deu apoio, depois que lhe contei tudo que estava se
passando. Ela me falou que fizeram o mesmo com ela, teve que casar com quem
eles escolheram, pois um dia se apaixonou por um rapaz pobre. Foi muito infeliz
no casamento e por falta de amor o marido se foi com outra. Agora eu passei a
me encontrar com o Vitor na casa da minha tia, sentíamos mais seguros. Mas as
coisas começaram a complicar, como minha mãe não conseguia mais me prender em
casa contou tudo ao meu pai e pediu sua ajuda. Ele também me proibiu, ameaçando
cortar minha mesada, mas nada me detinha, e sempre que podíamos estávamos
juntos. Não tardou a chegar cartas anônimas em minha casa, e na casa do Bruno. Um dia o Bruno falou que queria saber se tinha
algum fundamento, as cartas que ele estava recebendo, falou que de uma coisa
tinha certa, eu estava muito diferente com ele. Falei que não tinha fundamento.
Eu temia que minha confissão prejudicasse o Vitor. Sua formatura estava próxima. Se falasse a
verdade iriam me crucificar, mas eu sabia que nosso segredo estava por um triz.
Os pais do Bruno vieram a minha casa, falar com meus pais, e pediram para me
chamar. Quando entrei na sala, fiquei sem chão, todos me encarando. Eu achei
que a mentira seria pior, e falei! É verdade sim estou amando outro rapaz, e
não é nem uma bobagem como fala a minha mãe. E claro que ninguém me intendeu, e
eles se foram transtornados. Meu pai
ergueu a mão para me bater, mas se conteve. Logo em seguida o pediu para falar
comigo. Notei que tinha bebido, quis me agarrar, falou que por ter me
respeitado a vida inteira, eu o tinha trocado por outro. Foi o bastante para eu
lhe devolver a aliança, pedi para sair da minha vida. No fundo eu estava
apavorada, eu criara aquela situação, e tinha que assumir sozinha. Estava sem o
apoio de meus pais, com pena do Bruno que sempre foi tão bom para mim, e me
amava de verdade. O sofrimento dele era intenso, Seus pais sempre me trataram
como filha. A noticia espalhou na cidade, falavam que o casamento do ano fora
desfeito, quando eu passava na rua todos ficavam dado risadinhas maldosas, e
minhas amigas se afastaram. Agora era o
escândalo da cidade. Perdi o controle da situação, Só me sentia bem quando
estava perto do Vitor. Ele sempre me deu muita força e disse que ficaria ao meu
lado para enfrentar qualquer situação. O maior problema para a minha família
era a pobreza do Vitor, meus pais pediram para eu os levar até a casa dele, fiquei
com esperança que eles queriam lhe ajudar, ledo engano, eles voltaram arrasados
ao ver que ele morava em uma pequena casa junto com a mãe, doente. Ao chegar há
minha casa, tive uma surpresa, meu pai tomou as chaves do meu carro, falou que
minha mesada estava cortada, falou ainda que dali para frente só teria o
necessário. Minha mãe ironizou! Case com ele e leve seu enxoval para lá vai
ficar lindo naquela casa. Agora eu começava ver a diferença entre o rico e o
pobre. Por muitas vezes eu busquei apoio mas meus pais estavam firmes, era não!
Supliquei a eles que me entendesse, não era um capricho nem uma leviandade, mas
eles não me ajudaram e me chamavam de rebelde.
Já não me sentia
feliz em minha casa, onde passei minha infância tão feliz, Minha mãe sempre
falava que nos cantos da casa ainda ecoavam os risos da criança que fui, e que
em breve ia encher a casa novamente com os risos de meus filhos. Mas claro que
quando ele pensava em netos, tinha que ser meus filhos com o Bruno. E quando eu
entrava na sala, onde eles se reuniam para conversar, se calavam. Tinha certeza
o assunto era eu. Senti que já não havia dialogo, já não sentiam alegria ao me
ver e nem assunto em comum. Minha mesada, e meu carro, me faziam falta, e
comecei a entender que o dinheiro é uma chave que abre qualquer porta. Meus pais
recebiam muitos convites paras festas, mas só no nome dos dois, faziam questão
de frisar que era para
O casal! porque eu era descriminada pela sociedade hipócrita que eu frequentava.
Eu não ligava só me sentia revoltada. E já que todos falavam de mim, comecei
aparecer em publico com meu amor, já que o descriminavam eu não iria viver só
para manter as aparências. O Vitor me deu o universo, e não pode participar do
meu mundo. A situação estava insustentável, só me sentia feliz quando estava
com ele. Pedi mais uma vez ajuda ao meu pai, mas ele não atendeu meus apelos, e
senti que eram muitos contra dois, que aquela luta era desumana. Eu estava muito revoltada queria encontrar
uma saída. Por vezes pensava que era melhor deixar o Vitor fora disto, sim,
teria que renunciar ao meu amor, mas me vigaria de todos. Alguém vai se machucar,
além de mim, olhei para o céu, e pedi forças para fazer o que tinha me
proposto. Falei pro Vitor que não aguentava mais! Melhor nos separar, quando vi
o espanto em seu rosto minha estrela se apagou. Ele se foi tão triste que acho
que nunca mais confiou em aguem! Me vazia, mesquinha. Tentando recompor meus pedaços. Ao chegar pra
casa, falei aos meus pais, seja feita a vossa vontade! Vitor não esta mais na
minha vida, Vou com vocês na festa de debutante no sábado. Eu quero escolher
meu vestido. Meu pai devolveu as chaves do carro, e o cartão de credito. E foi
neste clima de revolta que resolvi enfrentar aqueles que se diziam meus amigos,
pois sentia um vulcão em erupção dentro de mim. Tinha, o casamento da filha do
prefeito, marcado para uma semana depois, e o noivo sempre teve uma queda por
mim, pensei minha vingança vai ser perfeita, serei a pivô, mas também a
protagonista desta historia. Todos iriam me odiar, mas não podiam me excluir
desta vez. E o troco estava dado. Entrei na loja, escolhi o vestido mais lindo,
mais bonito até que os das debutantes. No dia da festa, eu me produzi! entrei no salão de cabeça erguida, com um
sorriso Largo. Como eu previa todos os olhares se voltaram para mim, senti
neste momento um gosto amargo de vitória! Encarei a todos com desdém, tomei a iniciativa,
convidei o Lucio para dançar, vi o olhar de ódio da noiva, e de todos com
censura Deu tudo certo como previ, o Lucio ficou aturdido quando lhe deu um
beijo na frente de todos. Ele não sabia direito o que estava acontecendo, mas
permaneceu junto a mim. Eu tinha certeza que ele era tão vitima quanto eu. Seu
casamento também fora combinado por seus pais. O Transtorno que causei foi
quase um grito de guerra que escutei em todo salão. Meus pais demonstraram que
estavam felizes! O Lucio me perguntou se eu ficaria com ele! Eu acenei que sim.
Naquele momento pensei no Vitor. Já não tenho mais quem eu amo. Minha vingança
estava consumada. Mas eu estava angustiada, agora tinha que viver por viver e
não viver por amor! Eu fingia uma alegria que estava longe de ser verdade, por
fora, pois por dentro eu estava em pedaços! Meus pais estavam maravilhados,
crentes que eu me tornara aquela menina feliz de outrora. A família do prefeito
tinha sumido do salão, e os pais do Lucio me olhavam com ódio. De repente deparei com Vitor com olhos
marejados, tinha assistido a tudo. Não entendi como ele teve acesso ao baile
restrito a sócios, mas logo lembrei que quem confeccionava os convites era a
gráfica onde ele trabalhava. Quando terminei tudo com ele o ficou claro que eu
ia ao baile: fiquei sem ação. O Lucio notou o meu desespero, e me acompanhou
até em casa. No dia seguinte fui procurar Bruno, queria lhe explicar, porque
agi assim, mas não teve explicações, a casa estava vazia, ele tinha sumido
junto com a mãe. Partiu levando a imagem da minha traição. Nunca pude me
explicar. Voltei a minha vida normal, nada mais me animava, me sentia tão vazia,
tinha certeza que tudo que tinha de bom foi embora com ele. Passado algum tempo
resolvi sair com o Lucio, era a única maneira de ficar longe de meus pais, sabia
que jamais amaria ninguém como amei o Vitor. Continuei saindo com ele, queria
sentir por ele um pouco do que senti pelo Vitor, mas sabia que meu coração
jamais seria de ninguém por inteiro. Lucio me pediu em casamento, aceitei ele
sabia tudo da minha vida, e falou que faria tudo para que eu o amace: Concordei.
Ele foi falar com meus pais, a data do
casamento foi marcada. A mais animada era minha mãe como sempre, fiquei com
pena dela, comecei entender como ela era vazia, nunca perguntou se eu estava
feliz, bastaria eu casar com o melhor partido da cidade. Tudo aconteceu como
ela queria, um casamento com muito lucho, e lua de mel no exterior. Eu me
sentia só, naquele casarão, mesmo com o Lucio me enchendo de carinho. E nasceu
nosso primeiro filho, que amenizou minha frustração, agora eu tinha algo muito
precioso, entendi enfim que a vida valia a pena, foi com ele que passei o
melhor tempo da minha vida. Quando ele estava com oito anos meu marido também
se foi, não resistiu a tanto desamor, deixando comigo o maior tesouro da minha
vida, nosso filho. Eu fiquei sem saber, porque afastei de mim os três homens
que me amaram de verdade. E que se foram decepcionados comigo. Agora era só eu
e meu pequeno Renato. Um dia já com dezesseis
anos, me pediu para conhecer a casa que
foi de seus avos. Afinal tudo fazia parte de sua herança, quando ele nasceu
coloquei tudo em seu nome. Ao lado dele tive coragem de entrar outra vez
naquela casa na qual nunca fora feliz. A grande majestosa casa ainda estava lá,
não fosse pelas grades de ferros tortos e enferrujados, tudo estava igual, O
velho caseiro que morava ao lado veio me receber emocionado. Eu ainda
conservava a chaves da porta, ao abri-la senti um misto de tristeza e saudade.
Enquanto meu filho examinava tudo, eu olhava os moveis e tudo que foi meu lar,
estava no devido lugar como eles deixaram. Como se fossem voltar logo daquela
eterna viagem. Coberto com lenções brancos dando um ar misterioso de paz. Os tapetes importados, muitos quadros de
pintores famosos, os lustres de cristal, as teclas de marfim, e os candelabros
que esquecidos se apagaram. Tudo como lembrava, E era cercada por todo este
luxo que minha mãe se sentia feliz. Eu tão diferente dela, só queria amor, tudo
aquilo para mim não passava de inutilidades. Entrei no quarto que foi meu, realmente um
quarto digno de uma princesa, mas que não me dizia nada. Chamei meu filho e
perguntei! o que você achou? Ele sorriu
e falou! Sabe mamãe, é o ideal para construir o meu hospital de caridade, é
assim que quero usar todo o dinheiro da minha herança. Realmente naquela hora senti
que vale a pena viver...
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