sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Minha Caixinha de Recordação
[1]Enumeras
vezes somos tomados de surpresas, e não nos é fácil pronunciar palavras,
tamanha a emoção a que somos submetidos. Principalmente quando nos
transportamos a vivencias, de um passado incrivelmente próximo, ao contexto do
coração, ainda que a existência inexorável do tempo, o apresente remoto! Foi em
um dia triste de inverno, que Carina viu seus sonhos mais intensos desmoronar,
sentiu um misto de saudades e solidão, quando tomou entre as mãos, a pequena
caixa que guardava a muitos anos, já havia perdido a conta, Quinze, vinte anos,
talvez! Foi o dia que tinha terminado um grande amor. Um Sonho que não se
concretizou. Tornou a ler todas aquelas cartas de amor, bilhetes apresados, que
estavam guardados com flores amareladas. As lagrimas, correram pela face já
conhecida, como balsamo consolador! Recordou sua infância tão feliz. Mas sua juventude fora marcada por
preconceitos, sociais de sua época, no qual fora educada. Lembrou também do
imenso jardim de sua casa, coberto de flores, de enumeras cores, que exalavam
um perfume inebriante. Gostava de apreciar as borboletas de azas multicores,
adorava o canto das cigarras. Carina tinha um canto do jardim que era seu
preferido, pois ali as flores “da paixão” germinavam em abundancia. Sentada no
seu banco ela permanecia por horas. Foi nesta época que Carina, com apenas 12
anos, perdeu seus pais em um acidente de carro. A vida para ela perdeu o
encanto, passou muito tempo, triste, sentindo falta daqueles que tanto amara.
Ficou aos cuidados de uma tia, que a acolheu com todo o carinho. Vivia com uma
quantia, em dinheiro que seus pais lhe deixaram, o que lhe proporcionou uma boa
educação: Carina se transformou em uma linda jovem, um tanto solitária e
sonhadora. Sua tia, sempre presente, notava que ela era diferente das outras
moças. Enquanto elas já tinham namorados. Carina não se interessava por nem um.
Um dia ela a questionou! Carina você é tão linda, os rapazes vivem querendo se
aproximar de você, mas você nem nota. A tia, Carina respondeu! Meu ideal, esta
muito além desses frangotes! Sonho com um príncipe. Tenho outra noção sobre o
amor. É provável que eu nunca o encontre, ou venha a casar. Quero alguém que me
ame mais que a própria vida, alguém que me seja inteiramente devotado, que não
pense senão em mim, cujo coração, bata ao compasso do meu, cuja alma, seja a
outra metade da minha. Quero que o meu amor seja perfeito, não me conformarei
com outro. Carina! Mas certamente com os ideais que você tem sobre o amor, e
fazer deste amor a única razão de viver, você vai sofrer muito. Não sei quem
ele é, e quem poderá ser. Talvez nunca o encontre, mas estou certa que ele existe em
algum lugar. Tenho certeza que as almas foram feitas em duas metades, e que o
verdadeiro amor é a união das duas. Estou á procura do meu ideal, e creio que
ele também anda a minha procura, se nos encontrarmos, realizarei a única
ambição da minha vida. Tenho sua imagem em minha mente, e quando o ver meu
coração me dirá no mesmo instante. Assim encontra-lo, o reconhecerei, bastará
velo, para saber que é o amor que busco. Ai, disse a tia, esta é uma convicção
perigosíssima, você corre o risco de se apaixonar pela pessoa errada. Temo por
você minha querida, suas palavras me deixaram angustiada! Sempre notei que você
é diferente. Posso lhe garantir que uma paixão assim, traz mais sofrimento do
que prazer. Se você deseja ser feliz, deve evitar este sentimento que chamamos
amor. Era um belo dia de verão, Carina colheu algumas flores para colocar em um
vaso, depois ficou por algumas horas, no seu canto predileto entre as flores
perfumadas! Todos os dias, passava algumas horas no jardim, e ficava sonhando
com seu príncipe. Se fechasse os olhos, o veria na sua frente, tal qual sempre
sonhara. Foi despertada por uma das poucas amigas que tinha, e veio convida-la
para o aniversario (surpresa) de uma colega da escola, e seria realizado no
clube da cidade. Um pouco contra gosto Carina aceitou! Como não gostava de
dançar, ficou sentada apenas apreciando a turma se divertir. Estava meio
distraída, mas de repente teve um sobressalto, ali sentado a algumas mesas a
frente da sua; estava ele, o personagem constante dos seus sonhos. Sentiu uma
estranha impressão, que sonhava! o que via não parecia real. Durante alguns
segundos em volta dela se fazia silencio, e tudo se ofuscava, parecia que a
musica lhe enviava mensagens “celestiais” fez um esforço para dominar o êxtase,
que a punha num mundo fantástico, sentiu que sua hora chegou. Seu amor estava
ali muito perto, sim era ele! Tinha uma farta cabeleira preta, moreno, olhos
negros, já o conhecia! Sempre disse que o havia de conhecer imediatamente.
Quando foi apresentada, o primeiro olhar que lhe lançou, Carina sentiu o
coração palpitar com força, era extraordinário, que o ideal dos seus sonhos,
lhe fosse apresentado naquela linda tarde de primavera, em que o sol, os
pássaros e as flores pareciam desafiar a natureza, e dispensaria qualquer
apresentação. Teve vontade de lhe perguntar! Á muito tempo que esta a minha
procura? Mas a prudência a deteve. Carina o fitava e toda a sua alma lhe
brilhou nos olhos. Ficarão conversando sobre diversos assuntos, já era quase
noite, mas para ela era como tivesse passado apenas poucos minutos. Tudo mudou,
agora havia uma razão para viver. Pouco tempo antes sentia o coração cheio de
desanimo, esse estado de alma desapareceu como desaparecem as trevas. Para ela
foi como se não houvesse mais ninguém, somente os dois. Ele estava entusiasmado
com a beleza daquela jovem, Artur também se esqueceu do mundo ao seu redor,
queria que o tempo parasse naquela tarde. Daquele dia em diante, estavam sempre
juntos, em todas as suas horas de folga, corria para ficar junto da sua amada.
Se surgia algum imprevisto, ele lhe escrevia bilhetes, e mandava junto com uma
rosa, que ela lia muitas vezes, e guardava em sua pequena caixa. Ele estava a
pouco na Cidade, era um dos engenheiros responsável por uma grande ponte, sobre
o rio, que estava sendo construída na Cidade. E todas as noites Carina ficava
esperando a visita do seu amado. Artur era tudo que ela sonhou para si, doce,
meigo, carinhoso e educado. Quando ele voltava para o hotel, ela guardava em
sua memoria todos os gestos e palavras que ele pronunciava, quando estavam
juntos! Saia no jardim nos dias ensolarados, as flores lhe pareciam rostos
amigos a lhe sorrir. Já se passara seis
meses, daquele dia de setembro, em que haviam se conhecido, e as chuvas de
março já se faziam anunciar, Artur falou a Carina que talvez a obra tivesse que
ser interrompida, pois o rio estava muito acima do nível normal. Ele teria que
partir para dar continuidade a outros trabalhos interrompidos. Carina entrou em
pânica, ficar longe do seu amado? O que será de mim murmurou para si! E seria o
ultimo fim de semana que ficariam juntos, ele partiria na segunda pela manha,
ficaria com ela até a hora de sua partida. Chegou a sua casa, ficou no jardim
por algum tempo, onde era o lugar predileto dela. Quando entrou, ela já o
esperava com uma xicara de chocolate quente, o ar estava gelado e chovia muito.
A alegria de velo foi visível, lhe cobriu de beijos, e ficaram abraçados como
se nada mais houvesse ao seu redor. Ela não queria nem pensar na separação,
passaram juntos o ultimo fim da semana. Os três dias mais tristes de suas
vidas. Era Domingo, já anoitecera, se aproximava a hora da separação, ela foi
preparar o café da manha, para os dois, não queria que ele notasse que estava
chorando. Quando foi chama-lo notou que ele tinha um ar cansado, estava pálido,
havia desespero em seu olhar. Sombras ao redor dos olhos demostravam que ele
avia passado muitas noites sem dormir, dias a meditar! E realmente ele estava em um dilema, Artur
pensava! como vou ficar sem ela por tanto tempo, e como vou ter coragem de
contar-lhe o meu segredo! Só de pensar perde-la, sentia calafrios, tinha
certeza que já não poderia viver sem ela. Sentia agora que era muito feliz, do
que muitos outros homens; conhecera a alegria do amor verdadeiro, embora talvez
fosse durar tão pouco. Muitos homens vivem e morrem sem nunca ter experimentado
os minutos de suprema ventura, a gloria deste amor que aquece o coração para o
resto da vida. Carina e Artur estavam mudos, Quando ele falou, Sua voz era tão
fraca, parecia um suspiro! Carina! Tenho algo a contar, tenho lutado como nem
um homem lutou, espero que me entenda e me perdoe, por não ter falado antes,
quando nos conhecemos. Sou casado! tenho dois filhos. Casei aos dezessete anos,
confundindo amizade com amor, se não tivesse lhe conhecido jamais conheceria o
verdadeiro amor, jamais seria feliz de verdade! Hoje venho lhe implorar que não
me deixe, quero que venha comigo para onde eu for, vamos viver nosso amor.
Pensei que ser feliz antes de lhe conhecer, mas é você que eu quero sempre
junto de mim, por favor, não diga “não;” seria o fim para mim. No rosto de
Carina estava estampada uma nuvem de infelicidade. Que fiz eu para ser tão
castigada, Deus não pode ser tão cruel comigo. Depois falou! Você casado, meu
príncipe, unido a outra mulher pelos laços sagrados do matrimonio! Bem que
minha tia me alertou, um amor assim não pode ser feliz. Artur ficou assustado
com a expressão, e o desespero que viu no rosto de sua amada. Ele a abraçou com
força, não tenha medo Carina, Confia em mim, era uma grande provação, uma dor
moral para ela. Carina falou, quando você voltar lhe darei uma resposta! Ele
quis contestar, mas ao ver a dor, estampada em seu rosto calou-se. Ao se
despedir, ela lhe cobriu de beijos e lagrimas, o apertou de encontro ao coração
pela ultima vez. Ele a olhou e murmurou! me espera, logo estarei de volta para
ficarmos juntos, para sempre. Carina nada falou, tinha a língua paralisada, e
os lábios imóveis. Ele a beijou ardentemente, até a volta meu amor! Adeus ela
disse Boa viagem e um feliz regresso. O seguiu com o olhar ate ele desaparecer.
Foi para o jardim, hoje triste e sem flores. Lembrou o verão que passaram
juntos, onde as cigarras cantavam, a flores purpuras pendiam seus, galhos, e as
abelhas douradas esvoaçavam sobre os lírios. Avia uma tristeza trágica em seu
olhar. Um amor sem esperança! Que a de ser da minha vida, um amor incompleto não
vale nada. Os beijos doces que se transformaram em fel, palavras de amor que se
transformaram em punhaladas. Como podia dizer adeus! Como podia olhar para
aquele rosto, que era o sol de sua vida, o que devia fazer? Uma pergunta que
não queria calar! Pouco tempo antes era a mulher mais feliz da face da terra, e
agora o que faria com aquele amor que lhe impôs a maior prova, que poderia
podia ser demonstrado. Sua tia foi ao seu encontro no jardim, quando a encarou
ficou espantada. Santo Deus Carina! Você tem a sombra da morte estampada em sua
face, não fique assim seu amado logo voltara! Carina pensou, quando voltar não
estarei aqui, Ela olhou pela janela, para o sol dourado, e o seu azul, já não
chovia alguns dias, a natureza estava linda, apesar d muito frio. Não parecia
que todos não fossem felizes, que houvessem esperanças destruídas, amores
naufragados, vidas arruinadas. A culpa é minha pensou, não devia ter levado os
meus sonhos além dos considerados razoáveis! Agora era só começar o desmonte de
seu castelo de areia, que terminou com os sonhos de um grande amor, que não seria
concretizado. Sabia que jamais poderia ser feliz, destruindo a felicidade de
alguém. Ela guardou uma frase que o Artur lhe falou! “Eu era feliz antes de te
conhecer” pensou em jogar tudo para, alto e viver seu grande amor, e o resto
seria o resto, mas a educação moral e rígida, não a deixou tomar esta decisão.
Pediu para a tia vender todos os seus bens com urgência, antes que o Artur voltasse,
partiriam sem deixar vestígios. E assim foi feito! Pois se ele voltasse jamais
teria coragem de lhe dizer adeus olhando seus olhos. Jamais ficou sabendo, o
que ele sentiu quando não a encontrou, deixou para traz, seu príncipe, seu
jardim aonde foi tão feliz, e também ficou sua vida. Fecho novamente minha
caixinha de recordações, cheia de sonhos mortos. Mas são estes sonhos, e lembranças que a mantiveram
viva:
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