sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pobre Menina Rica


 Acho que sempre fui namorada do Bruno!  Nem lembro como o conheci! Se no colégio em um aniversario infantil, ou em minha casa. Nossos pais eram amigos e falaram que quando ficássemos grandes íamos nos casar. Andávamos sempre de mãos dadas, e na cidade todos sabiam que tínhamos um compromisso combinado por nossos pais. Mais tarde, fiquei sabendo que era uma união por dinheiro, pois nossas famílias eram ricas e queriam nos unir, para unir também suas riquezas. O Bruno estava prestando vestibular para cursar medicina, como era de se prever ele foi o aluno que passou com nota dez. Todos ficaram orgulhos, principalmente seu pai que também era medico. Nesta época eu ainda estava no colegial, pois nossa diferença de idade era de oito anos. Agora seus estudos exigiam mais dedicação, mas nos finais de semana estávamos sempre juntos; Três anos depois minha mãe estava organizando a festa dos meus quinze anos, e fazia questão que eu fosse a debutante mais linda. O bruno estava orgulhoso de dançar a valsa comigo, e tudo ocorreu como meus pais previam. Eu já não era mais aquela menina, infantil de antes, frequentava a alta sociedade que meus pais faziam questão de pertencer. Foi combinado por eles, que ficaríamos noivos no meu aniversario de dezessete anos! Eu estava feliz gostava muito do Bruno, e tudo corria normal, minha mãe estava preparando meu enxoval, e sempre me pedia opinião eu apenas falava, que estava tudo bem. Eu gostava muito de pintura, e falei que fazia questão de pintar guardanapos, toalhas de mesa, de banho, roupa de cama, enfim gostava de dar um toque de pintura em tudo com nossas iniciais. Um dia atravessei a rua para comprar tintas que estava em faltando. Ao entrar esbarrei em um rapaz que saia da loja, carregando uma pilha de latas derrubando todas. Logo pedi desculpas e o ajudei muito envergonhada. Achei que ele ia ficar furioso, mas apenas falou, não precisa pedir desculpas, veja não causou nem um estrago, elas estão todas inteiras. Depois fixou os olhos por alguns segundo nos meus, senti uma emoção inexplicável, era os olhos mais lindos que já tinha visto até então, seu rosto doce e meigo sua voz suave e macia, neste momento me dirigiu um respeitoso galanteio, fiquei sem fala, e me esqueci do que tinha ido comprar, e voltei para casa de mãos vazias. Aquele rosto não saiu da minha cabeça. Ele passou a ser o meu primeiro, e o ultimo pensamento do dia. Era muito estranho, pois comecei a fazer comparações entre ele e o Bruno, Ele tinha cabelos louros e lisos, olhos verdes, o Bruno tinha cabelos negros e encaracolados, era moreno. Quando ele saiu vi que era alto e com um físico avantajado o Bruno tinha a minha altura. E todos os dias ia ate a loja de tintas, pois tinha muita vontade de rever aquele rosto de novo, mas nunca mais o encontrei Perguntei as meninas da loja, mas ninguém sabia nada dele. Tudo que vi, foi quando ele colocou as latas em uma caminhonete e se foi. Faltavam quatro meses para o meu casamento e o bruno me pediu para ir com minha mãe escolher os convites, pois ele estava em semana de provas, e impossibilitado de me acompanhar. Fomos até a gráfica, que ficava a uma quadra de casa, quando cheguei ao balcão deparei com o rapaz que tanto mexeu com meus sentimentos alguns meses atrás. Nem sei como consegui falar, com voz tremula de emoção. Tentando esconder meu embaraço falei, queria ver modelos de convites de casamento. E mais uma vez fui surpreendida com o olhar dele, que perguntou! É para o seu casamento? Baixei a cabeça, apenas acenei que sim, ele acrescentou (que pena) vi uma aliança em seu dedo, no dia que nos encontramos. Pensei então ele não esqueceu de mim! Agora minha mãe se aproximou, falei que não estava bem, e voltaríamos no dia seguinte, me estendeu um cartão, e disse para procura-lo. Minha mãe não notou o meu nervosismo, senão tudo ficaria pior. Meu coração estava acelerado, apertava o cartão, Com o seu telefone, seu nome! Vitor que nome lindo. Achei  ele ainda mais bonito que a primeira vez. Pensei em telefonar, na hora que entrei em casa, mas ao olhar minha aliança me contive. Não sabia mais o que sentia por meu noivo, e porque não esquecia um minuto de um estranho. Queria tanto ter uma amiga com quem conversar, mas não tinha ninguém, para confiar o meu segredo. Achei por bem esquecer tudo e seguir com os preparativos, meu casamento que já estava próximo, afinal eu já tinha este compromisso desde criança. Mas a curiosidade falou mais alto, e quando minha mãe estava ausente eu disquei aquele numero com mãos tremulas, escutei sua voz macia, do outro lado da linha. Perguntei a ele se lembrava de mim! Ele respondeu, no momento que cruzei com você na porta daquela loja, nunca mais te esqueci. E falou que sempre me conheceu, sabia de tudo ao meu respeito, onde eu morava, meu, o nome de meu pai, Sabia que eu estava noiva, e que o meu noivo estava estudando medicina. Fiquei sem saber o que responder, e acrescentou, não esqueça que moramos em uma cidade pequena, todos se conhecem. Eu sempre te achei linda, mas sabia que você era uma garota proibida, principalmente porque sou pobre. Fiquei impressionada com a simplicidade, e a espontaneidade com que o Vitor me revelou a sua condição de moço pobre. Falou ainda que era apenas empregado da gráfica onde trabalhava. Contei a ele que o procurei muito, e nunca mais o esqueci. E dali em diante começamos a nos ver, sempre escondidos. Achei que não estava fazendo noda errado, pois ficávamos apenas conversando, ele tinha tantos assuntos, e vi que realmente, eu e meu noivo nunca tivemos um papo tão interessante. Comecei a entender a diferença entre amor e amizade, pois o dia que não podia sair para nosso encontro ficava muito triste. Eu sempre tive uma educação bastante rígida, senti o quanto estava errada, enganando a todos. Resolvi contar tudo a minha mãe, e falei que estava amando, achei que ela podia entender, e me ajudar. Ela ficou sem fala, a principio, não acreditou, quando se recuperou falou que eu devia esquecer aquela fantasia, e me casar, pois meu casamento já estava muito próximo. falou ainda que eu não podia esquecer a sociedade que eu frequentava. Como iria ficar o Bruno e sua família? além do escândalo que tudo isto causaria. Afirmou que eu estava sendo egoísta, pois não estava pensando nela, e no meu pai. Mas eu falei que sem amor não casaria, pois era um sentimento muito forte que sentia por Vitor, e ele sentia o mesmo. Mas ela não me deu ouvidos. E continuou os preparativos para meu casamento. Fiquei muito decepcionada, pela primeira vez, minha mãe não ajudou, e ainda ficou contra mim, mas pensando bem eu nunca tinha dito (não) a ela nem ao meu pai, sempre aceitei tudo que eles queriam. Mas desta vez eu não ia permitir eles decidirem por mim. Afinal era a minha felicidade que estava em jogo. Eu estava com dezenove anos, e sabia muito bem definir o sonho da realidade, me sentia outra, mais adulta, feliz. Só que o cerco estava fechando minha mãe controlava meus passos. E foi minha tia, por parte de meu pai quem me deu apoio, depois que lhe contei tudo que estava se passando. Ela me falou que fizeram o mesmo com ela, teve que casar com quem eles escolheram, pois um dia se apaixonou por um rapaz pobre. Foi muito infeliz no casamento e por falta de amor o marido se foi com outra. Agora eu passei a me encontrar com o Vitor na casa da minha tia, sentíamos mais seguros. Mas as coisas começaram a complicar, como minha mãe não conseguia mais me prender em casa contou tudo ao meu pai e pediu sua ajuda. Ele também me proibiu, ameaçando cortar minha mesada, mas nada me detinha, e sempre que podíamos estávamos juntos. Não tardou a chegar cartas anônimas em minha casa, e na casa do Bruno.  Um dia o Bruno falou que queria saber se tinha algum fundamento, as cartas que ele estava recebendo, falou que de uma coisa tinha certa, eu estava muito diferente com ele. Falei que não tinha fundamento. Eu temia que minha confissão prejudicasse o Vitor.  Sua formatura estava próxima. Se falasse a verdade iriam me crucificar, mas eu sabia que nosso segredo estava por um triz. Os pais do Bruno vieram a minha casa, falar com meus pais, e pediram para me chamar. Quando entrei na sala, fiquei sem chão, todos me encarando. Eu achei que a mentira seria pior, e falei! É verdade sim estou amando outro rapaz, e não é nem uma bobagem como fala a minha mãe. E claro que ninguém me intendeu, e eles se foram transtornados.  Meu pai ergueu a mão para me bater, mas se conteve. Logo em seguida o pediu para falar comigo. Notei que tinha bebido, quis me agarrar, falou que por ter me respeitado a vida inteira, eu o tinha trocado por outro. Foi o bastante para eu lhe devolver a aliança, pedi para sair da minha vida. No fundo eu estava apavorada, eu criara aquela situação, e tinha que assumir sozinha. Estava sem o apoio de meus pais, com pena do Bruno que sempre foi tão bom para mim, e me amava de verdade. O sofrimento dele era intenso, Seus pais sempre me trataram como filha. A noticia espalhou na cidade, falavam que o casamento do ano fora desfeito, quando eu passava na rua todos ficavam dado risadinhas maldosas, e minhas amigas se afastaram.  Agora era o escândalo da cidade. Perdi o controle da situação, Só me sentia bem quando estava perto do Vitor. Ele sempre me deu muita força e disse que ficaria ao meu lado para enfrentar qualquer situação. O maior problema para a minha família era a pobreza do Vitor, meus pais pediram para eu os levar até a casa dele, fiquei com esperança que eles queriam lhe ajudar, ledo engano, eles voltaram arrasados ao ver que ele morava em uma pequena casa junto com a mãe, doente. Ao chegar há minha casa, tive uma surpresa, meu pai tomou as chaves do meu carro, falou que minha mesada estava cortada, falou ainda que dali para frente só teria o necessário. Minha mãe ironizou! Case com ele e leve seu enxoval para lá vai ficar lindo naquela casa. Agora eu começava ver a diferença entre o rico e o pobre. Por muitas vezes eu busquei apoio mas meus pais estavam firmes, era não! Supliquei a eles que me entendesse, não era um capricho nem uma leviandade, mas eles não me ajudaram e me chamavam de rebelde.       

   Já não me sentia feliz em minha casa, onde passei minha infância tão feliz, Minha mãe sempre falava que nos cantos da casa ainda ecoavam os risos da criança que fui, e que em breve ia encher a casa novamente com os risos de meus filhos. Mas claro que quando ele pensava em netos, tinha que ser meus filhos com o Bruno. E quando eu entrava na sala, onde eles se reuniam para conversar, se calavam. Tinha certeza o assunto era eu. Senti que já não havia dialogo, já não sentiam alegria ao me ver e nem assunto em comum. Minha mesada, e meu carro, me faziam falta, e comecei a entender que o dinheiro é uma chave que abre qualquer porta. Meus pais recebiam muitos convites paras festas, mas só no nome dos dois, faziam questão de frisar que era para

  O casal! porque eu era descriminada  pela sociedade hipócrita que eu frequentava. Eu não ligava só me sentia revoltada. E já que todos falavam de mim, comecei aparecer em publico com meu amor, já que o descriminavam eu não iria viver só para manter as aparências. O Vitor me deu o universo, e não pode participar do meu mundo. A situação estava insustentável, só me sentia feliz quando estava com ele. Pedi mais uma vez ajuda ao meu pai, mas ele não atendeu meus apelos, e senti que eram muitos contra dois, que aquela luta era desumana.  Eu estava muito revoltada queria encontrar uma saída. Por vezes pensava que era melhor deixar o Vitor fora disto, sim, teria que renunciar ao meu amor, mas me vigaria de todos. Alguém vai se machucar, além de mim, olhei para o céu, e pedi forças para fazer o que tinha me proposto. Falei pro Vitor que não aguentava mais! Melhor nos separar, quando vi o espanto em seu rosto minha estrela se apagou. Ele se foi tão triste que acho que nunca mais confiou em aguem! Me vazia, mesquinha.  Tentando recompor meus pedaços. Ao chegar pra casa, falei aos meus pais, seja feita a vossa vontade! Vitor não esta mais na minha vida, Vou com vocês na festa de debutante no sábado. Eu quero escolher meu vestido. Meu pai devolveu as chaves do carro, e o cartão de credito. E foi neste clima de revolta que resolvi enfrentar aqueles que se diziam meus amigos, pois sentia um vulcão em erupção dentro de mim. Tinha, o casamento da filha do prefeito, marcado para uma semana depois, e o noivo sempre teve uma queda por mim, pensei minha vingança vai ser perfeita, serei a pivô, mas também a protagonista desta historia. Todos iriam me odiar, mas não podiam me excluir desta vez. E o troco estava dado. Entrei na loja, escolhi o vestido mais lindo, mais bonito até que os das debutantes. No dia da festa, eu me produzi!  entrei no salão de cabeça erguida, com um sorriso Largo. Como eu previa todos os olhares se voltaram para mim, senti neste momento um gosto amargo de vitória!  Encarei a todos com desdém, tomei a iniciativa, convidei o Lucio para dançar, vi o olhar de ódio da noiva, e de todos com censura Deu tudo certo como previ, o Lucio ficou aturdido quando lhe deu um beijo na frente de todos. Ele não sabia direito o que estava acontecendo, mas permaneceu junto a mim. Eu tinha certeza que ele era tão vitima quanto eu. Seu casamento também fora combinado por seus pais. O Transtorno que causei foi quase um grito de guerra que escutei em todo salão. Meus pais demonstraram que estavam felizes! O Lucio me perguntou se eu ficaria com ele! Eu acenei que sim. Naquele momento pensei no Vitor. Já não tenho mais quem eu amo. Minha vingança estava consumada. Mas eu estava angustiada, agora tinha que viver por viver e não viver por amor! Eu fingia uma alegria que estava longe de ser verdade, por fora, pois por dentro eu estava em pedaços! Meus pais estavam maravilhados, crentes que eu me tornara aquela menina feliz de outrora. A família do prefeito tinha sumido do salão, e os pais do Lucio me olhavam com ódio.  De repente deparei com Vitor com olhos marejados, tinha assistido a tudo. Não entendi como ele teve acesso ao baile restrito a sócios, mas logo lembrei que quem confeccionava os convites era a gráfica onde ele trabalhava. Quando terminei tudo com ele o ficou claro que eu ia ao baile: fiquei sem ação. O Lucio notou o meu desespero, e me acompanhou até em casa. No dia seguinte fui procurar Bruno, queria lhe explicar, porque agi assim, mas não teve explicações, a casa estava vazia, ele tinha sumido junto com a mãe. Partiu levando a imagem da minha traição. Nunca pude me explicar. Voltei a minha vida normal, nada mais me animava, me sentia tão vazia, tinha certeza que tudo que tinha de bom foi embora com ele. Passado algum tempo resolvi sair com o Lucio, era a única maneira de ficar longe de meus pais, sabia que jamais amaria ninguém como amei o Vitor. Continuei saindo com ele, queria sentir por ele um pouco do que senti pelo Vitor, mas sabia que meu coração jamais seria de ninguém por inteiro. Lucio me pediu em casamento, aceitei ele sabia tudo da minha vida, e falou que faria tudo para que eu o amace: Concordei.  Ele foi falar com meus pais, a data do casamento foi marcada. A mais animada era minha mãe como sempre, fiquei com pena dela, comecei entender como ela era vazia, nunca perguntou se eu estava feliz, bastaria eu casar com o melhor partido da cidade. Tudo aconteceu como ela queria, um casamento com muito lucho, e lua de mel no exterior. Eu me sentia só, naquele casarão, mesmo com o Lucio me enchendo de carinho. E nasceu nosso primeiro filho, que amenizou minha frustração, agora eu tinha algo muito precioso, entendi enfim que a vida valia a pena, foi com ele que passei o melhor tempo da minha vida. Quando ele estava com oito anos meu marido também se foi, não resistiu a tanto desamor, deixando comigo o maior tesouro da minha vida, nosso filho. Eu fiquei sem saber, porque afastei de mim os três homens que me amaram de verdade. E que se foram decepcionados comigo. Agora era só eu e meu pequeno Renato.  Um dia já com dezesseis anos, me pediu  para conhecer a casa que foi de seus avos. Afinal tudo fazia parte de sua herança, quando ele nasceu coloquei tudo em seu nome. Ao lado dele tive coragem de entrar outra vez naquela casa na qual nunca fora feliz. A grande majestosa casa ainda estava lá, não fosse pelas grades de ferros tortos e enferrujados, tudo estava igual, O velho caseiro que morava ao lado veio me receber emocionado. Eu ainda conservava a chaves da porta, ao abri-la senti um misto de tristeza e saudade. Enquanto meu filho examinava tudo, eu olhava os moveis e tudo que foi meu lar, estava no devido lugar como eles deixaram. Como se fossem voltar logo daquela eterna viagem. Coberto com lenções brancos dando um ar misterioso de paz.  Os tapetes importados, muitos quadros de pintores famosos, os lustres de cristal, as teclas de marfim, e os candelabros que esquecidos se apagaram. Tudo como lembrava, E era cercada por todo este luxo que minha mãe se sentia feliz. Eu tão diferente dela, só queria amor, tudo aquilo para mim não passava de inutilidades.  Entrei no quarto que foi meu, realmente um quarto digno de uma princesa, mas que não me dizia nada. Chamei meu filho e perguntei! o que você achou?  Ele sorriu e falou! Sabe mamãe, é o ideal para construir o meu hospital de caridade, é assim que quero usar todo o dinheiro da minha herança. Realmente naquela hora senti que vale a pena viver...    

 

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