Minhas histórias
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Minha Caixinha de Recordação
[1]Enumeras
vezes somos tomados de surpresas, e não nos é fácil pronunciar palavras,
tamanha a emoção a que somos submetidos. Principalmente quando nos
transportamos a vivencias, de um passado incrivelmente próximo, ao contexto do
coração, ainda que a existência inexorável do tempo, o apresente remoto! Foi em
um dia triste de inverno, que Carina viu seus sonhos mais intensos desmoronar,
sentiu um misto de saudades e solidão, quando tomou entre as mãos, a pequena
caixa que guardava a muitos anos, já havia perdido a conta, Quinze, vinte anos,
talvez! Foi o dia que tinha terminado um grande amor. Um Sonho que não se
concretizou. Tornou a ler todas aquelas cartas de amor, bilhetes apresados, que
estavam guardados com flores amareladas. As lagrimas, correram pela face já
conhecida, como balsamo consolador! Recordou sua infância tão feliz. Mas sua juventude fora marcada por
preconceitos, sociais de sua época, no qual fora educada. Lembrou também do
imenso jardim de sua casa, coberto de flores, de enumeras cores, que exalavam
um perfume inebriante. Gostava de apreciar as borboletas de azas multicores,
adorava o canto das cigarras. Carina tinha um canto do jardim que era seu
preferido, pois ali as flores “da paixão” germinavam em abundancia. Sentada no
seu banco ela permanecia por horas. Foi nesta época que Carina, com apenas 12
anos, perdeu seus pais em um acidente de carro. A vida para ela perdeu o
encanto, passou muito tempo, triste, sentindo falta daqueles que tanto amara.
Ficou aos cuidados de uma tia, que a acolheu com todo o carinho. Vivia com uma
quantia, em dinheiro que seus pais lhe deixaram, o que lhe proporcionou uma boa
educação: Carina se transformou em uma linda jovem, um tanto solitária e
sonhadora. Sua tia, sempre presente, notava que ela era diferente das outras
moças. Enquanto elas já tinham namorados. Carina não se interessava por nem um.
Um dia ela a questionou! Carina você é tão linda, os rapazes vivem querendo se
aproximar de você, mas você nem nota. A tia, Carina respondeu! Meu ideal, esta
muito além desses frangotes! Sonho com um príncipe. Tenho outra noção sobre o
amor. É provável que eu nunca o encontre, ou venha a casar. Quero alguém que me
ame mais que a própria vida, alguém que me seja inteiramente devotado, que não
pense senão em mim, cujo coração, bata ao compasso do meu, cuja alma, seja a
outra metade da minha. Quero que o meu amor seja perfeito, não me conformarei
com outro. Carina! Mas certamente com os ideais que você tem sobre o amor, e
fazer deste amor a única razão de viver, você vai sofrer muito. Não sei quem
ele é, e quem poderá ser. Talvez nunca o encontre, mas estou certa que ele existe em
algum lugar. Tenho certeza que as almas foram feitas em duas metades, e que o
verdadeiro amor é a união das duas. Estou á procura do meu ideal, e creio que
ele também anda a minha procura, se nos encontrarmos, realizarei a única
ambição da minha vida. Tenho sua imagem em minha mente, e quando o ver meu
coração me dirá no mesmo instante. Assim encontra-lo, o reconhecerei, bastará
velo, para saber que é o amor que busco. Ai, disse a tia, esta é uma convicção
perigosíssima, você corre o risco de se apaixonar pela pessoa errada. Temo por
você minha querida, suas palavras me deixaram angustiada! Sempre notei que você
é diferente. Posso lhe garantir que uma paixão assim, traz mais sofrimento do
que prazer. Se você deseja ser feliz, deve evitar este sentimento que chamamos
amor. Era um belo dia de verão, Carina colheu algumas flores para colocar em um
vaso, depois ficou por algumas horas, no seu canto predileto entre as flores
perfumadas! Todos os dias, passava algumas horas no jardim, e ficava sonhando
com seu príncipe. Se fechasse os olhos, o veria na sua frente, tal qual sempre
sonhara. Foi despertada por uma das poucas amigas que tinha, e veio convida-la
para o aniversario (surpresa) de uma colega da escola, e seria realizado no
clube da cidade. Um pouco contra gosto Carina aceitou! Como não gostava de
dançar, ficou sentada apenas apreciando a turma se divertir. Estava meio
distraída, mas de repente teve um sobressalto, ali sentado a algumas mesas a
frente da sua; estava ele, o personagem constante dos seus sonhos. Sentiu uma
estranha impressão, que sonhava! o que via não parecia real. Durante alguns
segundos em volta dela se fazia silencio, e tudo se ofuscava, parecia que a
musica lhe enviava mensagens “celestiais” fez um esforço para dominar o êxtase,
que a punha num mundo fantástico, sentiu que sua hora chegou. Seu amor estava
ali muito perto, sim era ele! Tinha uma farta cabeleira preta, moreno, olhos
negros, já o conhecia! Sempre disse que o havia de conhecer imediatamente.
Quando foi apresentada, o primeiro olhar que lhe lançou, Carina sentiu o
coração palpitar com força, era extraordinário, que o ideal dos seus sonhos,
lhe fosse apresentado naquela linda tarde de primavera, em que o sol, os
pássaros e as flores pareciam desafiar a natureza, e dispensaria qualquer
apresentação. Teve vontade de lhe perguntar! Á muito tempo que esta a minha
procura? Mas a prudência a deteve. Carina o fitava e toda a sua alma lhe
brilhou nos olhos. Ficarão conversando sobre diversos assuntos, já era quase
noite, mas para ela era como tivesse passado apenas poucos minutos. Tudo mudou,
agora havia uma razão para viver. Pouco tempo antes sentia o coração cheio de
desanimo, esse estado de alma desapareceu como desaparecem as trevas. Para ela
foi como se não houvesse mais ninguém, somente os dois. Ele estava entusiasmado
com a beleza daquela jovem, Artur também se esqueceu do mundo ao seu redor,
queria que o tempo parasse naquela tarde. Daquele dia em diante, estavam sempre
juntos, em todas as suas horas de folga, corria para ficar junto da sua amada.
Se surgia algum imprevisto, ele lhe escrevia bilhetes, e mandava junto com uma
rosa, que ela lia muitas vezes, e guardava em sua pequena caixa. Ele estava a
pouco na Cidade, era um dos engenheiros responsável por uma grande ponte, sobre
o rio, que estava sendo construída na Cidade. E todas as noites Carina ficava
esperando a visita do seu amado. Artur era tudo que ela sonhou para si, doce,
meigo, carinhoso e educado. Quando ele voltava para o hotel, ela guardava em
sua memoria todos os gestos e palavras que ele pronunciava, quando estavam
juntos! Saia no jardim nos dias ensolarados, as flores lhe pareciam rostos
amigos a lhe sorrir. Já se passara seis
meses, daquele dia de setembro, em que haviam se conhecido, e as chuvas de
março já se faziam anunciar, Artur falou a Carina que talvez a obra tivesse que
ser interrompida, pois o rio estava muito acima do nível normal. Ele teria que
partir para dar continuidade a outros trabalhos interrompidos. Carina entrou em
pânica, ficar longe do seu amado? O que será de mim murmurou para si! E seria o
ultimo fim de semana que ficariam juntos, ele partiria na segunda pela manha,
ficaria com ela até a hora de sua partida. Chegou a sua casa, ficou no jardim
por algum tempo, onde era o lugar predileto dela. Quando entrou, ela já o
esperava com uma xicara de chocolate quente, o ar estava gelado e chovia muito.
A alegria de velo foi visível, lhe cobriu de beijos, e ficaram abraçados como
se nada mais houvesse ao seu redor. Ela não queria nem pensar na separação,
passaram juntos o ultimo fim da semana. Os três dias mais tristes de suas
vidas. Era Domingo, já anoitecera, se aproximava a hora da separação, ela foi
preparar o café da manha, para os dois, não queria que ele notasse que estava
chorando. Quando foi chama-lo notou que ele tinha um ar cansado, estava pálido,
havia desespero em seu olhar. Sombras ao redor dos olhos demostravam que ele
avia passado muitas noites sem dormir, dias a meditar! E realmente ele estava em um dilema, Artur
pensava! como vou ficar sem ela por tanto tempo, e como vou ter coragem de
contar-lhe o meu segredo! Só de pensar perde-la, sentia calafrios, tinha
certeza que já não poderia viver sem ela. Sentia agora que era muito feliz, do
que muitos outros homens; conhecera a alegria do amor verdadeiro, embora talvez
fosse durar tão pouco. Muitos homens vivem e morrem sem nunca ter experimentado
os minutos de suprema ventura, a gloria deste amor que aquece o coração para o
resto da vida. Carina e Artur estavam mudos, Quando ele falou, Sua voz era tão
fraca, parecia um suspiro! Carina! Tenho algo a contar, tenho lutado como nem
um homem lutou, espero que me entenda e me perdoe, por não ter falado antes,
quando nos conhecemos. Sou casado! tenho dois filhos. Casei aos dezessete anos,
confundindo amizade com amor, se não tivesse lhe conhecido jamais conheceria o
verdadeiro amor, jamais seria feliz de verdade! Hoje venho lhe implorar que não
me deixe, quero que venha comigo para onde eu for, vamos viver nosso amor.
Pensei que ser feliz antes de lhe conhecer, mas é você que eu quero sempre
junto de mim, por favor, não diga “não;” seria o fim para mim. No rosto de
Carina estava estampada uma nuvem de infelicidade. Que fiz eu para ser tão
castigada, Deus não pode ser tão cruel comigo. Depois falou! Você casado, meu
príncipe, unido a outra mulher pelos laços sagrados do matrimonio! Bem que
minha tia me alertou, um amor assim não pode ser feliz. Artur ficou assustado
com a expressão, e o desespero que viu no rosto de sua amada. Ele a abraçou com
força, não tenha medo Carina, Confia em mim, era uma grande provação, uma dor
moral para ela. Carina falou, quando você voltar lhe darei uma resposta! Ele
quis contestar, mas ao ver a dor, estampada em seu rosto calou-se. Ao se
despedir, ela lhe cobriu de beijos e lagrimas, o apertou de encontro ao coração
pela ultima vez. Ele a olhou e murmurou! me espera, logo estarei de volta para
ficarmos juntos, para sempre. Carina nada falou, tinha a língua paralisada, e
os lábios imóveis. Ele a beijou ardentemente, até a volta meu amor! Adeus ela
disse Boa viagem e um feliz regresso. O seguiu com o olhar ate ele desaparecer.
Foi para o jardim, hoje triste e sem flores. Lembrou o verão que passaram
juntos, onde as cigarras cantavam, a flores purpuras pendiam seus, galhos, e as
abelhas douradas esvoaçavam sobre os lírios. Avia uma tristeza trágica em seu
olhar. Um amor sem esperança! Que a de ser da minha vida, um amor incompleto não
vale nada. Os beijos doces que se transformaram em fel, palavras de amor que se
transformaram em punhaladas. Como podia dizer adeus! Como podia olhar para
aquele rosto, que era o sol de sua vida, o que devia fazer? Uma pergunta que
não queria calar! Pouco tempo antes era a mulher mais feliz da face da terra, e
agora o que faria com aquele amor que lhe impôs a maior prova, que poderia
podia ser demonstrado. Sua tia foi ao seu encontro no jardim, quando a encarou
ficou espantada. Santo Deus Carina! Você tem a sombra da morte estampada em sua
face, não fique assim seu amado logo voltara! Carina pensou, quando voltar não
estarei aqui, Ela olhou pela janela, para o sol dourado, e o seu azul, já não
chovia alguns dias, a natureza estava linda, apesar d muito frio. Não parecia
que todos não fossem felizes, que houvessem esperanças destruídas, amores
naufragados, vidas arruinadas. A culpa é minha pensou, não devia ter levado os
meus sonhos além dos considerados razoáveis! Agora era só começar o desmonte de
seu castelo de areia, que terminou com os sonhos de um grande amor, que não seria
concretizado. Sabia que jamais poderia ser feliz, destruindo a felicidade de
alguém. Ela guardou uma frase que o Artur lhe falou! “Eu era feliz antes de te
conhecer” pensou em jogar tudo para, alto e viver seu grande amor, e o resto
seria o resto, mas a educação moral e rígida, não a deixou tomar esta decisão.
Pediu para a tia vender todos os seus bens com urgência, antes que o Artur voltasse,
partiriam sem deixar vestígios. E assim foi feito! Pois se ele voltasse jamais
teria coragem de lhe dizer adeus olhando seus olhos. Jamais ficou sabendo, o
que ele sentiu quando não a encontrou, deixou para traz, seu príncipe, seu
jardim aonde foi tão feliz, e também ficou sua vida. Fecho novamente minha
caixinha de recordações, cheia de sonhos mortos. Mas são estes sonhos, e lembranças que a mantiveram
viva:
Pobre Menina Rica
Acho que sempre fui
namorada do Bruno! Nem lembro como o
conheci! Se no colégio em um aniversario infantil, ou em minha casa. Nossos
pais eram amigos e falaram que quando ficássemos grandes íamos nos casar.
Andávamos sempre de mãos dadas, e na cidade todos sabiam que tínhamos um
compromisso combinado por nossos pais. Mais tarde, fiquei sabendo que era uma
união por dinheiro, pois nossas famílias eram ricas e queriam nos unir, para
unir também suas riquezas. O Bruno estava prestando vestibular para cursar
medicina, como era de se prever ele foi o aluno que passou com nota dez. Todos
ficaram orgulhos, principalmente seu pai que também era medico. Nesta época eu
ainda estava no colegial, pois nossa diferença de idade era de oito anos. Agora
seus estudos exigiam mais dedicação, mas nos finais de semana estávamos sempre
juntos; Três anos depois minha mãe estava organizando a festa dos meus quinze anos,
e fazia questão que eu fosse a debutante mais linda. O bruno estava orgulhoso
de dançar a valsa comigo, e tudo ocorreu como meus pais previam. Eu já não era
mais aquela menina, infantil de antes, frequentava a alta sociedade que meus
pais faziam questão de pertencer. Foi combinado por eles, que ficaríamos noivos
no meu aniversario de dezessete anos! Eu estava feliz gostava muito do Bruno, e
tudo corria normal, minha mãe estava preparando meu enxoval, e sempre me pedia
opinião eu apenas falava, que estava tudo bem. Eu gostava muito de pintura, e
falei que fazia questão de pintar guardanapos, toalhas de mesa, de banho, roupa
de cama, enfim gostava de dar um toque de pintura em tudo com nossas iniciais. Um
dia atravessei a rua para comprar tintas que estava em faltando. Ao entrar
esbarrei em um rapaz que saia da loja, carregando uma pilha de latas derrubando
todas. Logo pedi desculpas e o ajudei muito envergonhada. Achei que ele ia
ficar furioso, mas apenas falou, não precisa pedir desculpas, veja não causou
nem um estrago, elas estão todas inteiras. Depois fixou os olhos por alguns
segundo nos meus, senti uma emoção inexplicável, era os olhos mais lindos que
já tinha visto até então, seu rosto doce e meigo sua voz suave e macia, neste
momento me dirigiu um respeitoso galanteio, fiquei sem fala, e me esqueci do
que tinha ido comprar, e voltei para casa de mãos vazias. Aquele rosto não saiu
da minha cabeça. Ele passou a ser o meu primeiro, e o ultimo pensamento do dia.
Era muito estranho, pois comecei a fazer comparações entre ele e o Bruno, Ele
tinha cabelos louros e lisos, olhos verdes, o Bruno tinha cabelos negros e
encaracolados, era moreno. Quando ele saiu vi que era alto e com um físico
avantajado o Bruno tinha a minha altura. E todos os dias ia ate a loja de
tintas, pois tinha muita vontade de rever aquele rosto de novo, mas nunca mais
o encontrei Perguntei as meninas da loja, mas ninguém sabia nada dele. Tudo que
vi, foi quando ele colocou as latas em uma caminhonete e se foi. Faltavam quatro
meses para o meu casamento e o bruno me pediu para ir com minha mãe escolher os
convites, pois ele estava em semana de provas, e impossibilitado de me
acompanhar. Fomos até a gráfica, que ficava a uma quadra de casa, quando cheguei
ao balcão deparei com o rapaz que tanto mexeu com meus sentimentos alguns meses
atrás. Nem sei como consegui falar, com voz tremula de emoção. Tentando
esconder meu embaraço falei, queria ver modelos de convites de casamento. E
mais uma vez fui surpreendida com o olhar dele, que perguntou! É para o seu
casamento? Baixei a cabeça, apenas acenei que sim, ele acrescentou (que pena)
vi uma aliança em seu dedo, no dia que nos encontramos. Pensei então ele não
esqueceu de mim! Agora minha mãe se aproximou, falei que não estava bem, e
voltaríamos no dia seguinte, me estendeu um cartão, e disse para procura-lo.
Minha mãe não notou o meu nervosismo, senão tudo ficaria pior. Meu coração
estava acelerado, apertava o cartão, Com o seu telefone, seu nome! Vitor que
nome lindo. Achei ele ainda mais bonito
que a primeira vez. Pensei em telefonar, na hora que entrei em casa, mas ao
olhar minha aliança me contive. Não sabia mais o que sentia por meu noivo, e
porque não esquecia um minuto de um estranho. Queria tanto ter uma amiga com
quem conversar, mas não tinha ninguém, para confiar o meu segredo. Achei por
bem esquecer tudo e seguir com os preparativos, meu casamento que já estava
próximo, afinal eu já tinha este compromisso desde criança. Mas a curiosidade
falou mais alto, e quando minha mãe estava ausente eu disquei aquele numero com
mãos tremulas, escutei sua voz macia, do outro lado da linha. Perguntei a ele
se lembrava de mim! Ele respondeu, no momento que cruzei com você na porta
daquela loja, nunca mais te esqueci. E falou que sempre me conheceu, sabia de
tudo ao meu respeito, onde eu morava, meu, o nome de meu pai, Sabia que eu
estava noiva, e que o meu noivo estava estudando medicina. Fiquei sem saber o
que responder, e acrescentou, não esqueça que moramos em uma cidade pequena,
todos se conhecem. Eu sempre te achei linda, mas sabia que você era uma garota
proibida, principalmente porque sou pobre. Fiquei impressionada com a
simplicidade, e a espontaneidade com que o Vitor me revelou a sua condição de
moço pobre. Falou ainda que era apenas empregado da gráfica onde trabalhava. Contei
a ele que o procurei muito, e nunca mais o esqueci. E dali em diante começamos
a nos ver, sempre escondidos. Achei que não estava fazendo noda errado, pois
ficávamos apenas conversando, ele tinha tantos assuntos, e vi que realmente, eu
e meu noivo nunca tivemos um papo tão interessante. Comecei a entender a
diferença entre amor e amizade, pois o dia que não podia sair para nosso
encontro ficava muito triste. Eu sempre tive uma educação bastante rígida, senti
o quanto estava errada, enganando a todos. Resolvi contar tudo a minha mãe, e
falei que estava amando, achei que ela podia entender, e me ajudar. Ela ficou
sem fala, a principio, não acreditou, quando se recuperou falou que eu devia
esquecer aquela fantasia, e me casar, pois meu casamento já estava muito
próximo. falou ainda que eu não podia esquecer a sociedade que eu frequentava.
Como iria ficar o Bruno e sua família? além do escândalo que tudo isto
causaria. Afirmou que eu estava sendo egoísta, pois não estava pensando nela, e
no meu pai. Mas eu falei que sem amor não casaria, pois era um sentimento muito
forte que sentia por Vitor, e ele sentia o mesmo. Mas ela não me deu ouvidos. E
continuou os preparativos para meu casamento. Fiquei muito decepcionada, pela
primeira vez, minha mãe não ajudou, e ainda ficou contra mim, mas pensando bem
eu nunca tinha dito (não) a ela nem ao meu pai, sempre aceitei tudo que eles
queriam. Mas desta vez eu não ia permitir eles decidirem por mim. Afinal era a
minha felicidade que estava em jogo. Eu estava com dezenove anos, e sabia muito
bem definir o sonho da realidade, me sentia outra, mais adulta, feliz. Só que o
cerco estava fechando minha mãe controlava meus passos. E foi minha tia, por
parte de meu pai quem me deu apoio, depois que lhe contei tudo que estava se
passando. Ela me falou que fizeram o mesmo com ela, teve que casar com quem
eles escolheram, pois um dia se apaixonou por um rapaz pobre. Foi muito infeliz
no casamento e por falta de amor o marido se foi com outra. Agora eu passei a
me encontrar com o Vitor na casa da minha tia, sentíamos mais seguros. Mas as
coisas começaram a complicar, como minha mãe não conseguia mais me prender em
casa contou tudo ao meu pai e pediu sua ajuda. Ele também me proibiu, ameaçando
cortar minha mesada, mas nada me detinha, e sempre que podíamos estávamos
juntos. Não tardou a chegar cartas anônimas em minha casa, e na casa do Bruno. Um dia o Bruno falou que queria saber se tinha
algum fundamento, as cartas que ele estava recebendo, falou que de uma coisa
tinha certa, eu estava muito diferente com ele. Falei que não tinha fundamento.
Eu temia que minha confissão prejudicasse o Vitor. Sua formatura estava próxima. Se falasse a
verdade iriam me crucificar, mas eu sabia que nosso segredo estava por um triz.
Os pais do Bruno vieram a minha casa, falar com meus pais, e pediram para me
chamar. Quando entrei na sala, fiquei sem chão, todos me encarando. Eu achei
que a mentira seria pior, e falei! É verdade sim estou amando outro rapaz, e
não é nem uma bobagem como fala a minha mãe. E claro que ninguém me intendeu, e
eles se foram transtornados. Meu pai
ergueu a mão para me bater, mas se conteve. Logo em seguida o pediu para falar
comigo. Notei que tinha bebido, quis me agarrar, falou que por ter me
respeitado a vida inteira, eu o tinha trocado por outro. Foi o bastante para eu
lhe devolver a aliança, pedi para sair da minha vida. No fundo eu estava
apavorada, eu criara aquela situação, e tinha que assumir sozinha. Estava sem o
apoio de meus pais, com pena do Bruno que sempre foi tão bom para mim, e me
amava de verdade. O sofrimento dele era intenso, Seus pais sempre me trataram
como filha. A noticia espalhou na cidade, falavam que o casamento do ano fora
desfeito, quando eu passava na rua todos ficavam dado risadinhas maldosas, e
minhas amigas se afastaram. Agora era o
escândalo da cidade. Perdi o controle da situação, Só me sentia bem quando
estava perto do Vitor. Ele sempre me deu muita força e disse que ficaria ao meu
lado para enfrentar qualquer situação. O maior problema para a minha família
era a pobreza do Vitor, meus pais pediram para eu os levar até a casa dele, fiquei
com esperança que eles queriam lhe ajudar, ledo engano, eles voltaram arrasados
ao ver que ele morava em uma pequena casa junto com a mãe, doente. Ao chegar há
minha casa, tive uma surpresa, meu pai tomou as chaves do meu carro, falou que
minha mesada estava cortada, falou ainda que dali para frente só teria o
necessário. Minha mãe ironizou! Case com ele e leve seu enxoval para lá vai
ficar lindo naquela casa. Agora eu começava ver a diferença entre o rico e o
pobre. Por muitas vezes eu busquei apoio mas meus pais estavam firmes, era não!
Supliquei a eles que me entendesse, não era um capricho nem uma leviandade, mas
eles não me ajudaram e me chamavam de rebelde.
Já não me sentia
feliz em minha casa, onde passei minha infância tão feliz, Minha mãe sempre
falava que nos cantos da casa ainda ecoavam os risos da criança que fui, e que
em breve ia encher a casa novamente com os risos de meus filhos. Mas claro que
quando ele pensava em netos, tinha que ser meus filhos com o Bruno. E quando eu
entrava na sala, onde eles se reuniam para conversar, se calavam. Tinha certeza
o assunto era eu. Senti que já não havia dialogo, já não sentiam alegria ao me
ver e nem assunto em comum. Minha mesada, e meu carro, me faziam falta, e
comecei a entender que o dinheiro é uma chave que abre qualquer porta. Meus pais
recebiam muitos convites paras festas, mas só no nome dos dois, faziam questão
de frisar que era para
O casal! porque eu era descriminada pela sociedade hipócrita que eu frequentava.
Eu não ligava só me sentia revoltada. E já que todos falavam de mim, comecei
aparecer em publico com meu amor, já que o descriminavam eu não iria viver só
para manter as aparências. O Vitor me deu o universo, e não pode participar do
meu mundo. A situação estava insustentável, só me sentia feliz quando estava
com ele. Pedi mais uma vez ajuda ao meu pai, mas ele não atendeu meus apelos, e
senti que eram muitos contra dois, que aquela luta era desumana. Eu estava muito revoltada queria encontrar
uma saída. Por vezes pensava que era melhor deixar o Vitor fora disto, sim,
teria que renunciar ao meu amor, mas me vigaria de todos. Alguém vai se machucar,
além de mim, olhei para o céu, e pedi forças para fazer o que tinha me
proposto. Falei pro Vitor que não aguentava mais! Melhor nos separar, quando vi
o espanto em seu rosto minha estrela se apagou. Ele se foi tão triste que acho
que nunca mais confiou em aguem! Me vazia, mesquinha. Tentando recompor meus pedaços. Ao chegar pra
casa, falei aos meus pais, seja feita a vossa vontade! Vitor não esta mais na
minha vida, Vou com vocês na festa de debutante no sábado. Eu quero escolher
meu vestido. Meu pai devolveu as chaves do carro, e o cartão de credito. E foi
neste clima de revolta que resolvi enfrentar aqueles que se diziam meus amigos,
pois sentia um vulcão em erupção dentro de mim. Tinha, o casamento da filha do
prefeito, marcado para uma semana depois, e o noivo sempre teve uma queda por
mim, pensei minha vingança vai ser perfeita, serei a pivô, mas também a
protagonista desta historia. Todos iriam me odiar, mas não podiam me excluir
desta vez. E o troco estava dado. Entrei na loja, escolhi o vestido mais lindo,
mais bonito até que os das debutantes. No dia da festa, eu me produzi! entrei no salão de cabeça erguida, com um
sorriso Largo. Como eu previa todos os olhares se voltaram para mim, senti
neste momento um gosto amargo de vitória! Encarei a todos com desdém, tomei a iniciativa,
convidei o Lucio para dançar, vi o olhar de ódio da noiva, e de todos com
censura Deu tudo certo como previ, o Lucio ficou aturdido quando lhe deu um
beijo na frente de todos. Ele não sabia direito o que estava acontecendo, mas
permaneceu junto a mim. Eu tinha certeza que ele era tão vitima quanto eu. Seu
casamento também fora combinado por seus pais. O Transtorno que causei foi
quase um grito de guerra que escutei em todo salão. Meus pais demonstraram que
estavam felizes! O Lucio me perguntou se eu ficaria com ele! Eu acenei que sim.
Naquele momento pensei no Vitor. Já não tenho mais quem eu amo. Minha vingança
estava consumada. Mas eu estava angustiada, agora tinha que viver por viver e
não viver por amor! Eu fingia uma alegria que estava longe de ser verdade, por
fora, pois por dentro eu estava em pedaços! Meus pais estavam maravilhados,
crentes que eu me tornara aquela menina feliz de outrora. A família do prefeito
tinha sumido do salão, e os pais do Lucio me olhavam com ódio. De repente deparei com Vitor com olhos
marejados, tinha assistido a tudo. Não entendi como ele teve acesso ao baile
restrito a sócios, mas logo lembrei que quem confeccionava os convites era a
gráfica onde ele trabalhava. Quando terminei tudo com ele o ficou claro que eu
ia ao baile: fiquei sem ação. O Lucio notou o meu desespero, e me acompanhou
até em casa. No dia seguinte fui procurar Bruno, queria lhe explicar, porque
agi assim, mas não teve explicações, a casa estava vazia, ele tinha sumido
junto com a mãe. Partiu levando a imagem da minha traição. Nunca pude me
explicar. Voltei a minha vida normal, nada mais me animava, me sentia tão vazia,
tinha certeza que tudo que tinha de bom foi embora com ele. Passado algum tempo
resolvi sair com o Lucio, era a única maneira de ficar longe de meus pais, sabia
que jamais amaria ninguém como amei o Vitor. Continuei saindo com ele, queria
sentir por ele um pouco do que senti pelo Vitor, mas sabia que meu coração
jamais seria de ninguém por inteiro. Lucio me pediu em casamento, aceitei ele
sabia tudo da minha vida, e falou que faria tudo para que eu o amace: Concordei.
Ele foi falar com meus pais, a data do
casamento foi marcada. A mais animada era minha mãe como sempre, fiquei com
pena dela, comecei entender como ela era vazia, nunca perguntou se eu estava
feliz, bastaria eu casar com o melhor partido da cidade. Tudo aconteceu como
ela queria, um casamento com muito lucho, e lua de mel no exterior. Eu me
sentia só, naquele casarão, mesmo com o Lucio me enchendo de carinho. E nasceu
nosso primeiro filho, que amenizou minha frustração, agora eu tinha algo muito
precioso, entendi enfim que a vida valia a pena, foi com ele que passei o
melhor tempo da minha vida. Quando ele estava com oito anos meu marido também
se foi, não resistiu a tanto desamor, deixando comigo o maior tesouro da minha
vida, nosso filho. Eu fiquei sem saber, porque afastei de mim os três homens
que me amaram de verdade. E que se foram decepcionados comigo. Agora era só eu
e meu pequeno Renato. Um dia já com dezesseis
anos, me pediu para conhecer a casa que
foi de seus avos. Afinal tudo fazia parte de sua herança, quando ele nasceu
coloquei tudo em seu nome. Ao lado dele tive coragem de entrar outra vez
naquela casa na qual nunca fora feliz. A grande majestosa casa ainda estava lá,
não fosse pelas grades de ferros tortos e enferrujados, tudo estava igual, O
velho caseiro que morava ao lado veio me receber emocionado. Eu ainda
conservava a chaves da porta, ao abri-la senti um misto de tristeza e saudade.
Enquanto meu filho examinava tudo, eu olhava os moveis e tudo que foi meu lar,
estava no devido lugar como eles deixaram. Como se fossem voltar logo daquela
eterna viagem. Coberto com lenções brancos dando um ar misterioso de paz. Os tapetes importados, muitos quadros de
pintores famosos, os lustres de cristal, as teclas de marfim, e os candelabros
que esquecidos se apagaram. Tudo como lembrava, E era cercada por todo este
luxo que minha mãe se sentia feliz. Eu tão diferente dela, só queria amor, tudo
aquilo para mim não passava de inutilidades. Entrei no quarto que foi meu, realmente um
quarto digno de uma princesa, mas que não me dizia nada. Chamei meu filho e
perguntei! o que você achou? Ele sorriu
e falou! Sabe mamãe, é o ideal para construir o meu hospital de caridade, é
assim que quero usar todo o dinheiro da minha herança. Realmente naquela hora senti
que vale a pena viver...
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Vida marcada
As lembranças tristes de tudo que
vivi me veem a memória e vou escrevê-las...
Vim de uma família bastante humilde, éramos em 5 irmãos sendo eu a mais velha.
Morávamos no meio do mato, me lembro de nossa casa, uma simples cabana que chamávamos de lar, pois dentro
só havia o necessário para vivermos, era nosso lar pois nessa época lá estava minha mãe.
Nesta época minha mãe esperava o 6° filho, de vez em quando uma parteira vinha visita-la para fazer alguns exames, a mesma que ajudara todos a virem ao mundo. Ela não escondia sua preocupação quanto ao parto da criança que estava sentada, ela previa um parto difícil e perigoso. Meu Pai jamais lhe deu ouvidos e lhe respondia que desse um jeito já que para isto ela era parteira.
Nesta época minha mãe esperava o 6° filho, de vez em quando uma parteira vinha visita-la para fazer alguns exames, a mesma que ajudara todos a virem ao mundo. Ela não escondia sua preocupação quanto ao parto da criança que estava sentada, ela previa um parto difícil e perigoso. Meu Pai jamais lhe deu ouvidos e lhe respondia que desse um jeito já que para isto ela era parteira.
Chegou o tão temido dia, minha mãe não
escondia seu medo de morrer, quando eu tinha 11 anos chegou a comentar comigo que se algo de ruim lhe acontecesse, eu cuidasse de meus irmãos, ela sabia que
meu pai era do tipo sem coração, que não gostava de ninguém, que para ele tanto
fazia um filho estar com saúde ou adoecer, a prova disso era o risco que minha mãe
estava correndo, sendo por tantas vezes alertado pela parteira e mesmo assim não o fez
amolecer.
Era um homem frio e carrancudo, parecia
estar sempre de mal com a vida e sempre que tinha a oportunidade descarregava
todo seu ódio em cima de nós, apesar de sermos crianças quietas e tímidas,
ele não respeitava ninguém. De que mundo veio meu pai, até hoje me faço esta pergunta.
Minha mãe com dores fortes pediu para chamar meu pai que estava na roça, mas este respondeu que só iria na hora do almoço. Eu e meus irmãos ficamos ali junto da cama de minha mãe chorando e sofrendo com ela, até os menores que não entendiam muito choravam conosco.
Meu pai chegou, almoçou tranquilo e foi buscar a parteira que morava num vilarejo há uns10 km dali, onde tinha um pequeno
hospital, farmácia, mercado etc...
Minha mãe com dores fortes pediu para chamar meu pai que estava na roça, mas este respondeu que só iria na hora do almoço. Eu e meus irmãos ficamos ali junto da cama de minha mãe chorando e sofrendo com ela, até os menores que não entendiam muito choravam conosco.
Meu pai chegou, almoçou tranquilo e foi buscar a parteira que morava num vilarejo há uns
3 horas depois ele chegou com a parteira em
sua carrocinha, minha mãe já estava exausta e meu pai nos fez sair.
Anoiteceu e minha mãe continuou com seu sofrimento. Quando amanheceu, minha mãe
já estava desacordada, meu pai que não aceitava ordens, teimava que ela
teria que ter seu filho em casa, argumentava que esta criança não era melhor que os outros
que nasceram em casa, mas a parteira disse que só um médico daria jeito e
abandonou nossa casa, forçando assim meu pai a levá-la para o hospital do
povoado.
Me lembro que eu e meus irmãos ficamos ajoelhados diante de um
crucifixo rezando por ela, mas de nada valeu nossas orações, pois o médico falou
que já era tarde... o neném deveria nascer através de uma cesariana e
a algumas horas após ser hospitalizada ela veio a falecer, pois o bebê já
estava morto.
Meu pai providenciou o enterro lá mesmo e nem podemos ver nossa
mãe pela última vez. Quando ele nos deu a notícia friamente que ela já estava
embaixo da terra, meus irmãos começaram a chorar e eu os abraçava tentando consolá-los,
mas acabei em prantos com eles. Meu pai manteve a frieza como se fosse um animal
que tivesse morrido.
Meu ódio naquele momento foi tão grande que eu
gritei a ele que o odiava, pois tinha certeza que ele era o assassino de minha
mãe.
Eu tentava cuidar de meus irmãos. Um dia meu irmão menor de apenas 01 ano e dois
meses adoeceu com uma febre alta, este foi um motivo para que meu pai tomasse uma decisão, alegava que não tinha
condições de ficar com eles e que iria levá-los até o povoado, pois lá tinha uma
entidade que os doaria a famílias boas. Eu chorei muito e supliquei que não os
levasse que eu cuidaria deles, mas me falou que já estava decidido e que eu
ficaria para cuidar da casa. Me lembro que chorei a noite toda.
No dia
seguinte cedo ele os colocou na carrocinha, eles estavam felizes, pois era a
primeira vez que iam até o povoado, foram abanando para mim até a carroça
desaparecer na ruela, e foi a ultima vez que eu vi meus irmãos.....
Eu estava
deprimida, em poucos dias perdi minha amada mãe e meus queridos irmãos e companheiros. Meu pai nem por um segundo
pensou em levar aquele lar adiante, ele tinha seus planos diabólicos traçados para
mim. A separação foi dolorida e todas as noites eu adormecia chorando com saudades
de minha mãe e de meus irmãos. Eu tinha ideia que meu caminho ainda iria ser muito tortuoso, eu
sonhava com o povoado e sempre em meus sonhos estava meus irmãos, e por muitas
vezes eu pedi ao meu para ir visitá-los, mas ele jamais permitiu, pois me
falou que meus irmãos iriam ganhar nome novo com uma família nova.
De um tempo adiante passei a estranhar as
atitudes de meu pai, ele começou a mudar, sempre que ia ao povoado me trazia
presentes e me tratava muito bem, achei que ele estava ficando mais humano, mas foi
puro engano meu. Uma noite ele me falou que eu fosse dormir em sua cama,
pois havia uma grande aranha em minha cama, bicho que eu tinha verdadeiro pavor, e fui na minha ingenuidade de criança para a cama de meu pai, na minha cabeça não havia maldades, foi quando ele
não relutou em usar sua autoridade para abusar de mim.
Dali para frente, eu com 14 anos, fez de
mim sua mulher, ele me usava como se fosse adulta, quando
eu fugia ele ainda me batia e tinha que ceder aos seus instintos animais.
Agora minha vida se tornara um inferno e meu ódio
pelo meu pai crescia cada vez mais. Por muitas vezes eu tentei fugir para o povoado, mas meu
medo era muito grande e desistia.
Dois anos se passaram e meu pai andava
enfurecido, eu nem sabia por que, ele me falou que eu já estava de barriga
igual minha mãe, fiquei sabendo então que eu estava grávida, mas não sabia como
isto acontecera, jamais imaginei que aquele filho era fruto da relação com meu pai,
achei que uma mulher ficava grávida sozinha.
Minha barriga crescia e eu nem
sabia de quantos meses eu estava. Ele chamou a parteira para me
examinar, mas antes me falou que eu deveria dizer que eu tinha um
namorado, e que foi este namorado que havia me engravidado. Comecei então a entender alguma coisa e fiquei
apavorada, eu iria ter um filho de meu pai e odiei ainda mais aquele homem, meu
nojo e ódio eram tão grandes que eu comecei a planejar a sua morte. Pensei
em empurra-lo para dentro do poço quando ele estivesse apanhando água, mas
fiquei com medo que ele não morresse, depois planejei dar com o machado em sua
cabeça, mas tive medo de não acertar. Cada vez que ele se aproveitava de mim
meu ódio crescia. Uma vez quase usei um punhal afiadíssimo que ele tinha, só não
matei meu pai por medo de errar e ele me matar depois.
Chegou o grande dia de
eu dar a luz, eu com 14 anos estava apavorada. A parteira veio e depois de muito
sofrimento meu filho nasceu. A parteira chamou meu pai para mostra-lo e falou que era a cara do avô, mas meu pai num rompante de ódio deu um bofetão nela que a atirou
em cima da cama e por pouco não deixou meu filho cair.
A parteira se foi chamando meu pai de
louco sem saber que ele era o pai e o avô do bebê, por isto a semelhança.
Dois dias depois do nascimento
ele tirou meu filho dos meus braços dizendo que ele estava doente e que iria
levá-lo ao médico. Gritei em prantos dizendo que ele estava bem, que não levasse meu neném, mas ele não deu
ouvidos e seguiu com a criança no colo.
Algum tempo depois ele retornou dizendo que ele ficará internado, e pela fisionomia dele eu notei que seria
igual aos meus irmãos, ele se fora para sempre. No terceiro dia depois do
nascimento de meu filho ele começou tudo de novo, me levou para sua cama, não
respeitava nem meu estado de pós-parto, meu ódio era enorme e eu
pensava em mil maneiras para dar um fim à vida de meu pai.
Uma noite enquanto
ele dormia, peguei um galão de querosene que a gente usava no lampião, uma caixa de fósforo acompanhados de uma tremedeira sem fim, eu me preparava para despejar o querosene em redor da cama e
atear fogo, mas mais uma vez me faltou coragem, mais uma vez eu tive medo de ele escapar
vivo e me matar.
Alguns meses se passaram e eu já estava
grávida outra vez, eu não percebi de novo, mas ele percebeu que minha barriga
estava crescendo. Percebi a raiva enorme que transfigurava sua face e então ele começou a esmurrar minha barriga,
me chamava de nomes horríveis que jamais poderia descrever. As dores
eram enormes.
Sofri uma forte hemorragia e fiquei muitos dias de cama, a febre
veio altíssima e eu comecei a piorar, foi quando precisei de cuidados médicos e meu pai me levou para o hospital. No caminho me instruiu em que eu deveria dizer, que eu tinha levado um tombo e que era casada, e em troca ele traria meu filho de volta. Acreditei nele e menti.
Tive que ser
operada, pois meu bebe morreu no dia em que fui espancada, o médico falou que
se eu demorasse mais um pouco teria perdido meus órgãos genitais.
No hospital fiz muitas
perguntas, eu queria saber a distância do povoado até minha casa, já que agora eu o conhecia o caminho, e se meu pai não cumprisse o que prometera, eu fugiria.
Quando
tive alta, perguntei se iria buscar meus irmãos e meu filho
conforme prometera, mas ele deu uma gargalhada e perguntou se eu tinha
acreditado. Minha revolta e meu ódio foram tanto que eu me joguei da
carroça, ele me jogou de volta para dentro da carroça e não pude fazer nada.
Me sentia muito fraca mas minha ideia agora era fixa, minha fuga.
Três dias depois coloquei meu plano em ação, esperei ele dormir, peguei uma sacola com minhas roupas e sai, mas meu calvário
ainda não estava terminado, quando eu estava fechando a porta derrubei um
caixote e com o barulho meu pai acordou. Ele ficou furioso, me bateu até eu desfalecer e
o pior aconteceu, os pontos de minha operação abriram e voltei a sangrar.
Ele presenciando tudo, falou que iria me deixar morrer a mingua, pois eu iria trai-lo.
Passaram alguns dias, e fui melhorando aos poucos, apesar de muita dor, o sangramento se estancava a cada dia, até cicatrizar. Quando eu estava um pouco melhor, ele me
acorrentou dentro de casa. Minha vida se tornara um verdadeiro inferno, agora eu me sentia um verdadeiro animal. Eu era levada de um lado ao outro
pela corrente e por muito tempo fiquei neste sofrimento.
Um certo dia a vida me deu uma oportunidade
de fuga, meu pai sofreu um corte profundo no pé e me soltou para fazer-lhe um curativo, ele estava bastante fraco e perdera muito sangue. Atendi ele planejando minha liberdade.
Joguei a corrente no poço, e naquela noite mesmo eu fugi. Corri naquela escuridão, foi uma noite de alegria e de muito terror, pois não enxergava quase nada por onde passava,
mas continuava correndo, minha vontade de me ver livre daquele monstro era
tamanha que superava meu medo. Não sei quantas horas levei para chegar ao
povoado, esperei amanhecer e encontrei uma senhora que vinha da padaria. Pedi
ajuda a ela que me levou para sua casa, me deu café e ouviu minha história com muita atenção. Por
muitas vezes me interrompeu repetindo que aquilo era um caso de policia. Me acompanhou até a
delegacia onde contei tudo ao delegado, ele que me ouviu estarrecido.
No dia seguinte
tive que acompanhar o delegado e alguns policiais até minha casa, ele falou que
meu pai iria passar o resto de seus dias na cadeia.
Quando chegamos perto de
casa, avistei meu pai que previa o que estava por vir. Ele começou a gritar descontrolado dizendo que a próxima a morrer seria eu, que ele ia fazer comigo
o que fez com meu filho, ele ia me enterrar viva. Senti um calafrio e um aperto enorme no peito, ele era muito pior do que
eu imaginava, ele teve coragem de enterrar meu precioso filho vivo, não pude conter minhas lágrimas, eu tinha certeza que nada mais me abalaria na vida, não existiria dor maior a tudo que já vivi e estava sentindo naquele momento.
O
delegado apontou a arma para ele e neste instante ele saiu em disparada sentido se embrenhando no mato, os policiais imediatamente o seguiram mas ele foi mais esperto e sumiu pelo caminho que ele conhecia muito bem. Estava anoitecendo e as buscas ficaram para a manhã seguinte.
Quando iniciaram as buscas,
a apenas 100 metros dali, o encontraram pendurado em um galho de árvore, ele havia se enforcado
com a própria cinta. Não pude sentir outra coisa senão um alivio imenso, finalmente eu estava livre daquele
monstro.
Os policiais começaram a procurar o corpo de meu filho mas para minha tristeza, ficou
constatado que ele foi enterrado vivo.
Alguns dias depois começaram a procurar
meus irmãos, meu medo era que tivessem tido o mesmo fim do meu filho. A investigação constatou que eles foram deixados em uma instituição e doados para famílias
boas. Não tive acesso ao local, mas a tive provas que estavam realmente bem.
Quanto a mim, fui adotada por pessoas que me ensinaram a viver, adquiri valores e sempre fui tratada como gente. O amor por minha mãe jamais será substituído. E quanto ao que sofri, restaram
muitas cicatrizes que jamais desaparecerão.
Sempre no meu coração
Foi no hospital em que eu trabalhava que o vi pela primeira
vez....
Eu era enfermeira chefe, fui promovida pelo meu empenho e dedicação ao
trabalho e aos doentes.
O Pedro trabalhava no hospital, mais tempo que eu, mas
eu não o conhecia, só ouvia as outras enfermeiras falando que era um
rapaz muito bonito do hospital, mas nunca me interessei em saber quem era, pois
minha vida era tão corrida, não sobrava tempo pra nada.
Um dia cruzei com o
Pedro no corredor sem saber quem era, mas tendo a certeza que ele era o Pedro. Ele passou de cabeça baixa, nem me notou,
vi que ele entrou em um dos quartos que estava vazio e o segui. Entrei no quarto e
perguntei se ele estava procurando alguém. Ele se virou surpreso e falou que
estava concertando a torneira, e que fazia parte do seu serviço, pois era
encarregado de serviços gerais do hospital, e falou: "meu nome é Pedro,
quando precisar algo é só chamar".
Notei que ele parecia bastante tímido, pois ao falar comigo ficou corado. E minhas amigas tem razão, ele realmente é bonito. Notei que usava o uniforme com o emblema do hospital.
Ao chegar, em casa a noite, me peguei pensando nele mais do que devia. No dia seguinte cruzei com ele no corredor e lhe dei bom dia, apenas retribuiu com um aceno de cabeça. Fui falar com uma amiga que era casada, queria saber mais sobre ele, se era casado, ou tinha namorada. Ela me falou que realmente ele era bastante quieto e que não era casado, e que todas as enfermeiras davam em cima dele, mais ele não retribuía. Eu que nunca o tinha notado, passei a notar os lugares que ele estava trabalhando e aparecia de surpresa e perguntava algo sobre o trabalho, fazendo de conta que estava ali por acaso. Eu fui até a sala de recursos humanos e verifiquei a ficha dele, realmente ele não era casado, tinha vinte e três anos, eu vinte e um. Nossa idade combinava. Queria ser sua amiga, mas ambos éramos tímidos por isso nem um tomava a iniciativa. Voltei a falar com minha amiga para ver se ela me ajudava, pois mesmo sem falar com ele estava apaixonada, minha primeira paixão, ela me falou que era encarregada de organizar o amigo secreto, pois estava se aproximando o natal e iria dar um jeito de fazer com que eu e ele fossemos o amigo um do outro.
E foi assim que o conquistei, com bilhetes carinhosos da amiga secreta. Na hora da revelação senti que ele estava bem à vontade, quando falei que ele era o meu amigo secreto notei que ele abriu um largo sorriso e me afirmou que eu era o seu amigo também, falou muito feliz.
Agora sempre que nos encontrávamos na hora da refeição ou na saída do serviço ficávamos conversando. Um dia ele me convidou para sairmos, e começamos namorar, me falou que já me conhecia, pois sempre cruzava comigo pelos corredores. Disse que trabalhava ali com o pai desde pequeno, e quando o pai faleceu já tinha lhe ensinado tudo e ficou em seu lugar. Contou também que morava com a irmã e dois sobrinhos. Falei tudo o que foi minha vida até então.
Começamos a fazer planos para o futuro, fui conhecer sua irmã, ele me mostrou um terreno que tinha ao lado da casa dela e falou que ali iria construir nosso futuro lar. Foi então que ela falou que podíamos casar e morar com ela, pois seu marido viajava muito a trabalho, e se sentia muito só. E assim começou nossa nova vida juntos.
Casamos em uma capela com uma cerimonia para poucos amigos, e logo começamos a construir nossa casa. Não ganhávamos muito, mas aos poucos fomos erguendo as paredes, já que não pagávamos a mão de obra, pois ele entendia tudo de construção, e eu aprendi com ele a fazer massa além de carregar os tijolos. Às vezes minhas mãos estavam em carne viva, eu amarrava uma faixa e continuava, não tínhamos mais final de semana livre, só deitávamos após a meia noite.
Nosso esforço foi recompensado, dois anos depois, nos mudamos para nossa casa. Minha cunhada já tinha nos presenteado com os móveis. E para a nossa felicidade encomendamos nosso primeiro filho, que nasceu cheio de saúde e lindo como o pai, o chamamos de Fabio, o nome do avô.
Logo em seguida tive minha menina, Camila, e nossa felicidade estava completa. Quando as crianças adormeciam, ficávamos juntos na sala, construindo mais alguns planos.
O Pedro saiu do emprego, e com os direitos trabalhistas montou o próprio negócio. Minha vida mudou. Nossa firma estava crescendo, saí do emprego para cuidar de nossos filhos. E também compramos nosso primeiro carro, que era necessário para seu trabalho. Nos fins de semana saíamos com as crianças a parques de diversão, cinema, teatro infantil, e antes de voltar para casa fazia um lanche com eles.
O que eu nem sonhava era que minha felicidade estava por um fio.
Notei que Pedro, antes tão feliz, já não existia mais. Vivia calado, já nem notava quando eu falava com ele, eu o questionava, mas ele dizia que estava tudo bem. Eu notava nele um nervosismo que não era comum nele. Quando eu entrava na sala, após por as crianças para dormir, o via calado, olhar perdido, eu tinha certeza que me escondia algo. Eu me desesperava, um dia tranquei a porta e ele não pode fugir de minhas perguntas: Você está doente? Você esta escondendo o que de mim? Tenho o direito de saber! Ele me abraçou forte e começou chorar, depois falou o que eu não queria ouvir...
Não teve coragem de me encarar, com voz tremula disse: "tenho lutado como nem um homem jamais lutou para não te fazer sofrer, mas sei que vou te causar um grande mal. A tempo conheci uma mulher, estou perdidamente apaixonado, você sempre foi uma esposa perfeita, mas acho que não é amor. Paixão, amor e loucura é por ela que sinto". E acrescentou que nem o amor que sentia por nossos filhos, iria fazê-lo mudar de ideia. "Vou morar com ela".
Fiquei sem fala, nunca imaginei que era por outra que ele mudou. Eu sempre me senti tão forte ao lado dele. Tive que mostrar meu lado frágil e meu pranto deu vasão ao meu desespero. Em poucos segundos meu mundo desmoronou, me senti sozinha, ele se retirou, foi dormir no quarto de hospedes. Fiquei ali só, comecei imaginar minha rival, não sei se a invejava ou odiava, eu que o julguei inteiramente meu, ia partir para os braços de outra.
No dia seguinte tivemos uma conversa definitiva, ele estava cabisbaixo, notei que estava sofrendo, me pediu que o ajudasse com as crianças, não queria as ver sofrer. Falou que podia ficar com a casa, com o carro e estaria sempre presente em nossas vidas. Olhei ao redor, nosso lar onde fui tão feliz, agora não tinha mais a menor importância. A casa que foi construída com tanto amor e sonhos, via em cada centímetro, um pedaço de nós dois. Não conseguia mais sentir amor por nada. Mas ainda tinha meus filhos, diante deles eu tinha que ser forte, pois não queria os ver sofrer.
Era sábado, o ultimo que ele passaria com nós, saímos para fazer um lanche com as crianças, eu me mantive forte, não derramei uma lágrima, talvez ainda não houvesse caído a ficha, ele também se comportou normal como sempre. Já perto de casa, ele colocou nosso filho no colo e colocou no volante para dirigir até em casa que estava a vinte metros, foi quando surgiu um carro em alta velocidade, eram ladrões fugindo da policia e colidiu com nosso carro. Foi um choque frontal.
Perdi os sentidos, e os recuperei oito dias depois, vi que estava em um quarto de hospital, sem saber que o acidente tinha sido fatal para o Pedro e meu filho. Entrei em desespero, falei ao médico que se tivesse perdido a minha família não queria mais viver, mas logo senti um toque de leve no meu braço, era minha filha que me fazia carinho, e me pediu que ficasse boa logo, porque eu tinha que cuidar dela porque o papai e seu irmão tinham ido para o céu. Tive uma crise de choro e ela chorou comigo.
A última imagem que guardo do Pedro é com o Fabinho no colo. Sei que iria perdê-lo de qualquer jeito, mas preferia vê-lo com outra, a nunca mais lhe ver.
Foi minha filha que me deu força para continuar viva, meu filho ficara pra sempre no meu coração.
Naquele dia tive a sensação que perdi o Pedro por duas vezes, uma para outra mulher, e outra para a morte.
Notei que ele parecia bastante tímido, pois ao falar comigo ficou corado. E minhas amigas tem razão, ele realmente é bonito. Notei que usava o uniforme com o emblema do hospital.
Ao chegar, em casa a noite, me peguei pensando nele mais do que devia. No dia seguinte cruzei com ele no corredor e lhe dei bom dia, apenas retribuiu com um aceno de cabeça. Fui falar com uma amiga que era casada, queria saber mais sobre ele, se era casado, ou tinha namorada. Ela me falou que realmente ele era bastante quieto e que não era casado, e que todas as enfermeiras davam em cima dele, mais ele não retribuía. Eu que nunca o tinha notado, passei a notar os lugares que ele estava trabalhando e aparecia de surpresa e perguntava algo sobre o trabalho, fazendo de conta que estava ali por acaso. Eu fui até a sala de recursos humanos e verifiquei a ficha dele, realmente ele não era casado, tinha vinte e três anos, eu vinte e um. Nossa idade combinava. Queria ser sua amiga, mas ambos éramos tímidos por isso nem um tomava a iniciativa. Voltei a falar com minha amiga para ver se ela me ajudava, pois mesmo sem falar com ele estava apaixonada, minha primeira paixão, ela me falou que era encarregada de organizar o amigo secreto, pois estava se aproximando o natal e iria dar um jeito de fazer com que eu e ele fossemos o amigo um do outro.
E foi assim que o conquistei, com bilhetes carinhosos da amiga secreta. Na hora da revelação senti que ele estava bem à vontade, quando falei que ele era o meu amigo secreto notei que ele abriu um largo sorriso e me afirmou que eu era o seu amigo também, falou muito feliz.
Agora sempre que nos encontrávamos na hora da refeição ou na saída do serviço ficávamos conversando. Um dia ele me convidou para sairmos, e começamos namorar, me falou que já me conhecia, pois sempre cruzava comigo pelos corredores. Disse que trabalhava ali com o pai desde pequeno, e quando o pai faleceu já tinha lhe ensinado tudo e ficou em seu lugar. Contou também que morava com a irmã e dois sobrinhos. Falei tudo o que foi minha vida até então.
Começamos a fazer planos para o futuro, fui conhecer sua irmã, ele me mostrou um terreno que tinha ao lado da casa dela e falou que ali iria construir nosso futuro lar. Foi então que ela falou que podíamos casar e morar com ela, pois seu marido viajava muito a trabalho, e se sentia muito só. E assim começou nossa nova vida juntos.
Casamos em uma capela com uma cerimonia para poucos amigos, e logo começamos a construir nossa casa. Não ganhávamos muito, mas aos poucos fomos erguendo as paredes, já que não pagávamos a mão de obra, pois ele entendia tudo de construção, e eu aprendi com ele a fazer massa além de carregar os tijolos. Às vezes minhas mãos estavam em carne viva, eu amarrava uma faixa e continuava, não tínhamos mais final de semana livre, só deitávamos após a meia noite.
Nosso esforço foi recompensado, dois anos depois, nos mudamos para nossa casa. Minha cunhada já tinha nos presenteado com os móveis. E para a nossa felicidade encomendamos nosso primeiro filho, que nasceu cheio de saúde e lindo como o pai, o chamamos de Fabio, o nome do avô.
Logo em seguida tive minha menina, Camila, e nossa felicidade estava completa. Quando as crianças adormeciam, ficávamos juntos na sala, construindo mais alguns planos.
O Pedro saiu do emprego, e com os direitos trabalhistas montou o próprio negócio. Minha vida mudou. Nossa firma estava crescendo, saí do emprego para cuidar de nossos filhos. E também compramos nosso primeiro carro, que era necessário para seu trabalho. Nos fins de semana saíamos com as crianças a parques de diversão, cinema, teatro infantil, e antes de voltar para casa fazia um lanche com eles.
O que eu nem sonhava era que minha felicidade estava por um fio.
Notei que Pedro, antes tão feliz, já não existia mais. Vivia calado, já nem notava quando eu falava com ele, eu o questionava, mas ele dizia que estava tudo bem. Eu notava nele um nervosismo que não era comum nele. Quando eu entrava na sala, após por as crianças para dormir, o via calado, olhar perdido, eu tinha certeza que me escondia algo. Eu me desesperava, um dia tranquei a porta e ele não pode fugir de minhas perguntas: Você está doente? Você esta escondendo o que de mim? Tenho o direito de saber! Ele me abraçou forte e começou chorar, depois falou o que eu não queria ouvir...
Não teve coragem de me encarar, com voz tremula disse: "tenho lutado como nem um homem jamais lutou para não te fazer sofrer, mas sei que vou te causar um grande mal. A tempo conheci uma mulher, estou perdidamente apaixonado, você sempre foi uma esposa perfeita, mas acho que não é amor. Paixão, amor e loucura é por ela que sinto". E acrescentou que nem o amor que sentia por nossos filhos, iria fazê-lo mudar de ideia. "Vou morar com ela".
Fiquei sem fala, nunca imaginei que era por outra que ele mudou. Eu sempre me senti tão forte ao lado dele. Tive que mostrar meu lado frágil e meu pranto deu vasão ao meu desespero. Em poucos segundos meu mundo desmoronou, me senti sozinha, ele se retirou, foi dormir no quarto de hospedes. Fiquei ali só, comecei imaginar minha rival, não sei se a invejava ou odiava, eu que o julguei inteiramente meu, ia partir para os braços de outra.
No dia seguinte tivemos uma conversa definitiva, ele estava cabisbaixo, notei que estava sofrendo, me pediu que o ajudasse com as crianças, não queria as ver sofrer. Falou que podia ficar com a casa, com o carro e estaria sempre presente em nossas vidas. Olhei ao redor, nosso lar onde fui tão feliz, agora não tinha mais a menor importância. A casa que foi construída com tanto amor e sonhos, via em cada centímetro, um pedaço de nós dois. Não conseguia mais sentir amor por nada. Mas ainda tinha meus filhos, diante deles eu tinha que ser forte, pois não queria os ver sofrer.
Era sábado, o ultimo que ele passaria com nós, saímos para fazer um lanche com as crianças, eu me mantive forte, não derramei uma lágrima, talvez ainda não houvesse caído a ficha, ele também se comportou normal como sempre. Já perto de casa, ele colocou nosso filho no colo e colocou no volante para dirigir até em casa que estava a vinte metros, foi quando surgiu um carro em alta velocidade, eram ladrões fugindo da policia e colidiu com nosso carro. Foi um choque frontal.
Perdi os sentidos, e os recuperei oito dias depois, vi que estava em um quarto de hospital, sem saber que o acidente tinha sido fatal para o Pedro e meu filho. Entrei em desespero, falei ao médico que se tivesse perdido a minha família não queria mais viver, mas logo senti um toque de leve no meu braço, era minha filha que me fazia carinho, e me pediu que ficasse boa logo, porque eu tinha que cuidar dela porque o papai e seu irmão tinham ido para o céu. Tive uma crise de choro e ela chorou comigo.
A última imagem que guardo do Pedro é com o Fabinho no colo. Sei que iria perdê-lo de qualquer jeito, mas preferia vê-lo com outra, a nunca mais lhe ver.
Foi minha filha que me deu força para continuar viva, meu filho ficara pra sempre no meu coração.
Naquele dia tive a sensação que perdi o Pedro por duas vezes, uma para outra mulher, e outra para a morte.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
O aborto que não deu certo
Escutar atrás da porta não é feio pensei, e escutei o que não
queria...
Agora eu me dava conta porque minha mãe sempre me mandava brincar
quando alguém vinha nos visitar.
Naquele dia a curiosidade falou mais alto, eu
me escondi atrás da porta, queria saber o que gente grande tinha tanto pra
falar que eu não devia ouvir. Eu tinha então 12 anos, a idade da curiosidade.
Sabia que se minha mãe me descobrisse ali, eu sairia pela orelha. As duas
falavam de muitos assuntos, nada que me interessava, estava quase desistindo, quando
uma frase me chamou atenção: Pois é, disse minha mãe, meu marido nunca gostou de
ser pai de meninas, para ele filho tinha que ser homem, nunca vi ninguém mais
feliz,quando nasceu meu primeiro filho, ele cantou e tocou violão a tarde toda
e mais, tinha que ter o nome dele, José.
Quando meu filho tinha três anos eu
engravidei de novo. Meu marido não ficou nada feliz, e disse que queria sair de casa, então eu
falei: se for outro menino você não vai conhecer!
Nasceu uma menina que eu
tanto queria, coloquei o nome da mãe dele, Selina, mas não adiantou ele disse
que ia embora. Mas acabou desistindo e falou que já tínhamos um casal e ponto
final.
A gente sempre teve pouco, só o dinheiro que o estado
pagava, não dava para ter mais filhos... e minha mãe continuou o seu relato... Ele
sofreu o primeiro ataque epilético quando trabalhava na prefeitura com
máquinas pesadas, e foi afastado por doença... eu estava estarrecida, ela ainda não estava falando de mim, queria
fugir dali mas minha curiosidade foi maior e eu me perguntava: como será que
foi quando nasci? Minha mãe continuou... imagina o que
foi quando soube que estava esperando essa daí, eu já estava com 40 anos e
minha caçula com 10....
Notei que minha mãe falava com
desprezo.
Eu só descobri quando estava de
quatro meses, fui procurar a índia que fazia garrafadas de ervas para provocar
aborto, ela me falou que só fazia no começo de gravidez. Ofereci um pouco de dinheiro e ela cedeu.
Passou um mês e o remédio não fez efeito.
Voltei lá e ela me confessou que tinha feito uma garrafa de vitaminas, pois eu poderia correr um sério risco, fiquei muito brava, e revoltada dei muitos socos na barriga. Mas
parecia erva daninha, nada matava. Ela pulava como nunca, como a me avisar que
estava bem viva...
Aquela frase não aguentei, o choque foi tão grande
que meus joelhos dobraram. Não sei como consegui chegar até a cama, não
consegui chorar, estava sem ação. De noite me deu febre e calafrios. Quando acordei na manhã seguinte,
comecei a lembrar do que escutei, por isso era tratada assim? E não era só meu
pai que não me queria, minha própria mãe quis me matar! Na manhã seguinte fui para a escola, minha cabeça girava. Não me sentia mais a mesma. Por
isso que não tive nem um sonho de criança, nunca ninguém me contou uma história
para eu dormir, fui tendo que desistir de tudo, não tive anjinho da guarda, coelhinho
da páscoa, papai Noel, me falaram muito cedo que nada disso existia.
Pensei: vou
arrancar minha mãe de dentro de mim, como ela quis me arrancar! Mas como ela,
eu também não consegui. Só que tinha uma diferença, eu a amava.
A indiferença de
meu pai eu até entedia, não ligava muito, mas da minha mãe eu não passava de um
aborto que não deu certo. Eu sempre tentei falar com ela. Quando voltava da
escola, ia ajudar as vizinhas a cuidar das crianças, lavar louças, ajudava na roça, levava marmitas nas fábricas, e o pouco dinheiro que
ganhava, eu dava a ela, sem receber nem um agrado em troca.
Queria tanto que ela me
desse amor, como dava aos meus irmãos, pois sempre tinha um sorriso, uma palavra
de carinho. Meus irmãos tinham bem mais idade, mas tudo do melhor era pra eles. Meu irmão já havia casado e
minha irmã era uma moça muito bonita, mas eu era tão miúda e continuava a ser
tratada como ninguém, eu notava que minha mãe não conseguia me encarar, e meu
pai era completamente ausente comigo.
Depois da minha descoberta comecei a
mudar, não tentava agradar a mais ninguém, comecei a viver a minha vida, tinha
meu mundo a parte. Comecei trabalhar em dobro, entregava roupas que as vizinhas
lavavam e passavam.
Mas só que agora o dinheiro era só
meu. Comprava roupas, calçados, perfumes, batom queria ter tudo que minha
irmã tinha. Até então eu só vestia roupas usadas dela, os sapatos tinha que por
algodão por dentro, pois eram bem maior que meus pés, as roupas idem. Agora eu
me via no espelho e até me achava bonita, queria que eles me notassem, nem que
fosse para me criticar, mas até isto
eles me negavam.
Quando minha mãe fez aniversário, todos estavam reunidos em
casa, ela fez um bolo, eu tinha os meus trocados e resolvi comprar um presente,
uma caixinha de pó de arroz, era o que ela usava no rosto. Antes passei em
frente um salão de beleza, e li que tinha aprendizes cortando cabelos de graça,
não hesitei, cortei minhas tranças, aproveitei para passar batom. Quando me
olhei no espelho grande do salão, gostei do que vi.
Corri para casa, queria ver
a cara deles, quando cheguei todos debocharam de mim. Fui pro meu quarto, queria
sumir, me achei ridícula, a risadas deles ainda ressoava nos meus ouvidos,
agora eu mesma me rejeitava. Meus
irmãos eram tão bonitos. E eu tão
feia, pensei foi os remédios que minha mãe tomou para eu não vir ao mundo.
Um
dia Li um livro, a história eu já conhecia, o patinho feio, e achei que eu poderia
ser o cisne que, ao se tornar adulto ficara lindo. Sempre fui sonhadora, em meus
sonhos eu era uma menina linda e todos olhavam quando eu passava, até minha
família se orgulhava de mim.
Um dia quando voltava da escola vi muitas pessoas em frente de casa, comecei a chamar minha mãe, e descobri que meu pai, em mais um de seus ataques, caiu de uma escada, fraturou o crânio, o que lhe causou a morte. Pensei, não vou chorar! Se fosse eu que tivesse morrido ele nem ia ligar, ou então até ficaria aliviado. Agora nem que ele queira não vai mais poder olhar pra mim, não vou nem vê-lo no caixão. Mas fiquei curiosa, abri a cortina e espiei por uma fresta, minhas pernas ficaram bambas, ele ali imóvel as mãos entrelaçadas sobre o peito, rosto pálido. Fui sentindo algo esquisito, uma dor no peito, as lágrimas teimavam em rolar. Pensei: ele só está dormindo, mas a dor era muito forte, e mais uma vez fui chorar na minha cama. Pensei: coitado! Cada vez que sofria um ataque caía e se machucava, vivia todo cortado, se queimava na chapa do fogão a lenha, já nem dentes ele tinha por cair em cima de pedras, acho que sua vida foi só sofrimento. Quando descobriu que estava com esta doença, ouvi muitas vezes ele pedindo a morte em suas orações.
Chorei até adormecer e quando acordei, escutei um coro de vozes rezando, senti cheiro de vela misturado com cheiro de flores e alguns soluços. Cheguei até a sala, minha mãe me pegou pela orelha, me arrastou até a cozinha e falou: dormiu até agora, não vi você derramar nem uma lágrima, seus irmãos estão desconsolados, você é ruim mesmo. Parecia que eu ia explodir, abafei meus choros no travesseiro.
A vizinha nos fez roupas de luto. Ao acompanhar o enterro, quando a dor apertava, eu puxava o véu sob o rosto pra ninguém me ver chorar. De noite eu ficava pensando, porque eu senti tanto a morte dele, até sentia sua falta, em toda minha vida, ele poucas palavras trocou comigo, mas também nunca foi ruim, nunca me bateu, ficava olhando o seu violão na parede colocado ali por ele, talvez pensando que ainda ia cantar e tocar muito. Por muitas vezes escutava minha mãe chorando, queria abraçar e chorar com ela, mas acabava sempre chorando sozinha.
Algum tempo depois meus irmãos casaram eu tinha certeza que minha mãe ia me notar, pois ia ser só eu e ela. Mais um ano passou e eu já estava com15 anos, me sentia adulta. E nada mudou, notei que ela já não era mais a mesma, emagreceu muito e sua palidez era visível, só ficava feliz quando meus irmãos vinham nos visitar. Um dia eu voltei do trabalho, e minha irmã me falou: estou com exames da mãe, ela esta muito doente.
Eu não sabia, senti que realmente eu não fazia parte do mundo delas. Falou: ela esta com tuberculose, e senti um choque. Eu sabia que esta doença não tinha cura. Ela continuou: vou vir aqui sempre para vê-la e você tem que cuidar dela, dar os remédios na hora certa, que ela ficará boa. Para mim o mundo desabou, já tinha visto muita gente morrer com essa doença. Entrei no quarto e pela primeira vez não escondi o meu pranto, e perguntei: mãe se eu morrer a senhora vai chorar? Porque se a senhora morrer não quero mais viver. Eu já não tenho mais medo de ir para debaixo da terra. Quando me falavam em morte era o que eu mais temia ser enterrada. Vi que ela ficou com os olhos marejados e achei que ela iria me abraçar. Mas apenas falou, ninguém vai morrer aqui, mãe não morre. Dali pra frente ela só piorou, tinha acessos de tosse, muita febre, eu não saia de perto dela. Quando ela dormia, eu fazia a comida, deixava a casa limpa. Os vizinhos se afastaram com medo do contagio, quando meus irmãos iam pra suas casas, eu ficava sozinha com ela, que estava só pele e osso, chorava quando dava banho nela, a tratava com todo o carinho. Ela me pedia que não ficasse muito por perto, pois a doença era contagiosa, mas eu não arredava o pé. E ainda tinha esperança de a ver com saúde. Pedia sempre a Deus que mandasse a cura para ela. Agora meus irmãos ficavam sempre junto comigo, eu aproveitava para dar vazão ao meu desespero. E eu fui assistindo dia após dia minha mãe indo embora. E num dia 29 de setembro ela partiu para sempre, naquele momento tive a certeza que eu tinha morrido com ela. No caixão estava apenas um corpo, sua alma já tinha subido ao céu. Eu não tive coragem de julgá-la nem em pensamento.
Ficou uma pergunta: mãe porque você não me amou? Esta pergunta foi respondida umas semanas depois, por minha irmã, me falou que estava quebrando um juramento que fez a minha mãe alguns dias antes dela falecer, mas como se tratava da minha vida, eu tinha o direito de saber: sabe, a mãe me contou que todas as noites ela ia até as casas das vizinhas para fazer orações, e em uma noite ao voltar, foi atacada por um homem que a violentou e quase a matou, sofreu uma grande violência física, ficou em estado de choque e doente por muito tempo. O pai o procurou por muito queria a morte dele mas nunca soube quem foi. Ao descobrir que estava grávida de você, foi o pior que podia acontecer. Ela nem te amamentou tal a rejeição. Quem sempre cuidou de você fui eu. Você sempre foi muito boazinha, mas a mãe nos induzia em te desprezar. Hoje eu entendo o erro que cometemos.
O choque que me causou pela descoberta foi grande, já sabia que ela quis me matar, mas saber que eu era filha de um estupro foi demais. Não sei quem sofreu mais, se fui eu ou ela! Minha Irma pediu, por favor! perdoa a mãe, eu respondi: já perdoei!
Um dia quando voltava da escola vi muitas pessoas em frente de casa, comecei a chamar minha mãe, e descobri que meu pai, em mais um de seus ataques, caiu de uma escada, fraturou o crânio, o que lhe causou a morte. Pensei, não vou chorar! Se fosse eu que tivesse morrido ele nem ia ligar, ou então até ficaria aliviado. Agora nem que ele queira não vai mais poder olhar pra mim, não vou nem vê-lo no caixão. Mas fiquei curiosa, abri a cortina e espiei por uma fresta, minhas pernas ficaram bambas, ele ali imóvel as mãos entrelaçadas sobre o peito, rosto pálido. Fui sentindo algo esquisito, uma dor no peito, as lágrimas teimavam em rolar. Pensei: ele só está dormindo, mas a dor era muito forte, e mais uma vez fui chorar na minha cama. Pensei: coitado! Cada vez que sofria um ataque caía e se machucava, vivia todo cortado, se queimava na chapa do fogão a lenha, já nem dentes ele tinha por cair em cima de pedras, acho que sua vida foi só sofrimento. Quando descobriu que estava com esta doença, ouvi muitas vezes ele pedindo a morte em suas orações.
Chorei até adormecer e quando acordei, escutei um coro de vozes rezando, senti cheiro de vela misturado com cheiro de flores e alguns soluços. Cheguei até a sala, minha mãe me pegou pela orelha, me arrastou até a cozinha e falou: dormiu até agora, não vi você derramar nem uma lágrima, seus irmãos estão desconsolados, você é ruim mesmo. Parecia que eu ia explodir, abafei meus choros no travesseiro.
A vizinha nos fez roupas de luto. Ao acompanhar o enterro, quando a dor apertava, eu puxava o véu sob o rosto pra ninguém me ver chorar. De noite eu ficava pensando, porque eu senti tanto a morte dele, até sentia sua falta, em toda minha vida, ele poucas palavras trocou comigo, mas também nunca foi ruim, nunca me bateu, ficava olhando o seu violão na parede colocado ali por ele, talvez pensando que ainda ia cantar e tocar muito. Por muitas vezes escutava minha mãe chorando, queria abraçar e chorar com ela, mas acabava sempre chorando sozinha.
Algum tempo depois meus irmãos casaram eu tinha certeza que minha mãe ia me notar, pois ia ser só eu e ela. Mais um ano passou e eu já estava com15 anos, me sentia adulta. E nada mudou, notei que ela já não era mais a mesma, emagreceu muito e sua palidez era visível, só ficava feliz quando meus irmãos vinham nos visitar. Um dia eu voltei do trabalho, e minha irmã me falou: estou com exames da mãe, ela esta muito doente.
Eu não sabia, senti que realmente eu não fazia parte do mundo delas. Falou: ela esta com tuberculose, e senti um choque. Eu sabia que esta doença não tinha cura. Ela continuou: vou vir aqui sempre para vê-la e você tem que cuidar dela, dar os remédios na hora certa, que ela ficará boa. Para mim o mundo desabou, já tinha visto muita gente morrer com essa doença. Entrei no quarto e pela primeira vez não escondi o meu pranto, e perguntei: mãe se eu morrer a senhora vai chorar? Porque se a senhora morrer não quero mais viver. Eu já não tenho mais medo de ir para debaixo da terra. Quando me falavam em morte era o que eu mais temia ser enterrada. Vi que ela ficou com os olhos marejados e achei que ela iria me abraçar. Mas apenas falou, ninguém vai morrer aqui, mãe não morre. Dali pra frente ela só piorou, tinha acessos de tosse, muita febre, eu não saia de perto dela. Quando ela dormia, eu fazia a comida, deixava a casa limpa. Os vizinhos se afastaram com medo do contagio, quando meus irmãos iam pra suas casas, eu ficava sozinha com ela, que estava só pele e osso, chorava quando dava banho nela, a tratava com todo o carinho. Ela me pedia que não ficasse muito por perto, pois a doença era contagiosa, mas eu não arredava o pé. E ainda tinha esperança de a ver com saúde. Pedia sempre a Deus que mandasse a cura para ela. Agora meus irmãos ficavam sempre junto comigo, eu aproveitava para dar vazão ao meu desespero. E eu fui assistindo dia após dia minha mãe indo embora. E num dia 29 de setembro ela partiu para sempre, naquele momento tive a certeza que eu tinha morrido com ela. No caixão estava apenas um corpo, sua alma já tinha subido ao céu. Eu não tive coragem de julgá-la nem em pensamento.
Ficou uma pergunta: mãe porque você não me amou? Esta pergunta foi respondida umas semanas depois, por minha irmã, me falou que estava quebrando um juramento que fez a minha mãe alguns dias antes dela falecer, mas como se tratava da minha vida, eu tinha o direito de saber: sabe, a mãe me contou que todas as noites ela ia até as casas das vizinhas para fazer orações, e em uma noite ao voltar, foi atacada por um homem que a violentou e quase a matou, sofreu uma grande violência física, ficou em estado de choque e doente por muito tempo. O pai o procurou por muito queria a morte dele mas nunca soube quem foi. Ao descobrir que estava grávida de você, foi o pior que podia acontecer. Ela nem te amamentou tal a rejeição. Quem sempre cuidou de você fui eu. Você sempre foi muito boazinha, mas a mãe nos induzia em te desprezar. Hoje eu entendo o erro que cometemos.
O choque que me causou pela descoberta foi grande, já sabia que ela quis me matar, mas saber que eu era filha de um estupro foi demais. Não sei quem sofreu mais, se fui eu ou ela! Minha Irma pediu, por favor! perdoa a mãe, eu respondi: já perdoei!
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Quinto mandamento
E dizer que quando o destino determina nada pode mudar o rumo dos acontecimentos....
Minha vida correu normal até os meus 22 anos, eu estava noivo, com a data do casamento marcada para o mês de maio. Tudo corria bem, pois amava e era amado.
Minha família se compunha de meu pai, mãe e cinco filhos - três homens e duas mulheres. Trabalhávamos todos em nossa alfaiataria montada em nossa casa.
Um imprevisto veio a mudar nossos planos. A mãe de minha noiva veio a falecer de um mal súbito e achamos por bem adiarmos o casamento, por aproximadamente três meses, fiquei muito chateado, pois estava tudo pronto, nossa casa que seria o nosso ninho de amor, o meu terno, o vestido de noiva, os móveis, e até o enxoval já estava no seu devido lugar, o jardim que juntos plantamos já estava cheio de flores, permanecíamos muito tempo juntos fazendo planos e aprimorando nosso lar.
Todos os dias eu a esperava na saída do trabalho para levar até sua casa só que comecei notar que estava diferente, quase não conversava comigo e nem contava as novidades do dia, a principio pensei que fosse pela falta da mãe mas logo percebi que era só comigo que ela mudou.
Um dia notei através da vidraça que ela conversava animadamente com um rapaz, perguntei a ela quem era e respondeu que era um funcionário novo.
Todos os dias era a mesma coisa, eu ficava esperando enquanto ela ficava conversando com o suposto amigo. Reclamei e ela me falou que não fosse mais buscá-la e respondeu que já nem podia mais conversar com amigos. Nosso relacionamento esfriou, pois eu sempre acabava falando sozinho.
Fui até sua casa para falar com ela na frente do pai, mas ela pouco falou, me pediu um tempo dizendo que já não estava mais certa dos seus sentimentos. Fiquei aflito, pois a amava loucamente.
Esperei três dias e telefonei, me falou que era melhor terminar pois estava gostando do amigo de trabalho e pediu ainda para que devolvesse tudo que era dela que ela faria o mesmo, inclusive a aliança.
Voltei para a casa onde seria nosso lar, estava arrasado, naquele momento a vida perdeu a graça, não fazia mais nada direito, tinha uma ideia fixa de reconquistá-la á qualquer preço. Fiz uma ultima tentativa, telefonei mais uma vez, mas ela estava inflexível, lhe pedi mais uma chance, ela desligou o telefone.
Abri uma gaveta onde estava uma pequena caixinha, ali estava tudo que restou dos três anos de namoro e noivado, cartas cheias de promessas, bilhetes apreçados, e muitas fotos, peguei aquela que eu mais gostava onde ela sorria feliz, no verso ela escreveu uma dedicatória! “Para os olhos lembrarem quando o coração esquece” foi demais pra mim, abaixo da foto eu escrevi: “Hoje ainda te matarei querida”.
Acho que quando um ser humano se encontra deprimido e fragilizado mil demônios tomam conta dele, foi o que aconteceu comigo, mandei um mensageiro entregar tudo que era dela, pedi que ele entregasse o envelope separado com a foto.
Fui até a casa de meus pais e peguei escondido o revolver que era do meu pai, e fiquei a sua espera escondido.
Já estava escurecendo ,era por volta das 18h30 quando ela deixou o serviço, notei que seu pai estava a sua espera, eles caminhavam uns três quilômetros a pé até sua casa, acho que ela estava com medo de ir sozinha após ter recebido aquela mensagem macabra.
Fui seguindo e me esgueirando, parecia que uma força maligna se apoderou de mim, mais ou menos no meio do caminho surgiu uma oportunidade, ela ficou sozinha por instantes, seu pai entrou em um bar talvez para comprar cigarros, me aproximei e ali estava ela, uma presa fácil e indefesa, acho que mais uma vez a força do mal me dominou, ergui a arma e dei três tiros a queima roupa, vi quando ela caiu, as pessoas correndo e gritando, guardei a arma e sai, a partir daquele momento começou meu calvário, o arrependimento veio em seguida, e minha consciência começou a me atormentar.
Sai para o hospital, sabia que ela seria levada para lá, com a esperança que os tiros não fossem fatais.
Estava uma confusão, perguntei a uma enfermeira o que aconteceu e ela respondeu que uma moça tinha sido assassinada.
Senti um calafrio, eu um assassino e, justo da pessoa que eu mais amava no mundo, fiquei ali sentado em um banco do corredor, e vi quando suas irmãs e seu pai passaram chorando. Logo ouvi voz de prisão, pois a foto que enviei a tarde estava em sua bolsa, com aquela frase tétrica! HOJE AINDA TE MATAREI QUERIDA! Estava também com minha assinatura.
Não ofereci resistência naquele momento eu queria estar no lugar dela e tive a certeza que ela também me matara.
O remorso e a voz da consciência começaram a me atormentar, já não queria continuar vivo, como poderia viver sem ela, coloquei a mão no pescoço e segurei um crucifixo que estava pendurado em uma corrente e pedi a cristo que tivesse piedade e me mandasse a morte, mas eu tinha que continuar vivo para pagar minha grande culpa.
No dia seguinte foi seu enterro, escrevi um longo depoimento, falando do meu amor por ela, da grande saudade que iria sentir pela vida afora, do meu arrependimento, e que ela levasse junto com ela para a eternidade o meu coração. Pedi a minha irmã que comprasse um buque de rosas brancas e colocasse a carta entre as flores e jogasse em cima de seu caixão quando estivesse baixando a sepultura, como ultima despedida.
A cadeia ficava a uns 300metros da igreja aonde ela entraria pela ultima vez
Minha irmã me falou que ela estava linda, com um rosto sereno e vestindo o seu vestido de noiva, o mesmo que ela usaria no dia do nosso casamento então desfeito.
Os sinos soavam tristes, compassadas e cada badalada parecia uma acusação contra a mim pois eu sabia que ela estava partindo por minha culpa, olhava minhas mãos e as odiava, as mesmas mãos que tantos carinhos lhe fizeram foram capazes de lhe tirar a vida.
Dali para frente meus dias e minhas noites foram todos iguais, sem ela nada mais me importava, meus sentimentos foram de culpa e saudades veio o dia do julgamento, fui condenado a 20 anos de reclusão, não esbocei nem uma reação, para mim tanto fazia estar preso ou solto, pois ela já não estava junto a mim senti também remorso por ver o sofrimento de meus pais e irmãos chorando no portão da delegacia, no dia que fui transferido para a penitenciária da capital minha mãe abanando suas mãos num gesto de desespero.
Na prisão conheci todos os tipos de delinquentes e marginais. Cumpri minha pena costurando uniformes para os presidiários e como por lá todos tem um apelido, o meu foi o moço triste.
Quando fui posto em liberdade sabia que ainda faltava a justiça divina, pois sei que um dia terei que me apresentar diante de Deus para ser julgado, não se pode esquecer o que ele deixou escrito no quinto mandamento. Não Matarás! E se tiver alguém que esteja lendo este meu depoimento e esteja pensando em tirar a vida de alguém mesmo que esteja cego de amor e de ciúme, pense duas vezes, e jamais cometa este ato extremo.
Você jamais poderá fugir da própria consciência,
ela será implacável, e até o fim dos seus dias você jamais terá paz, pois o
pior castigo de um ser humano é carregar o nome de ASSASSINO!
Assinar:
Postagens (Atom)