quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sempre no meu coração

      Foi no hospital em que eu trabalhava que o vi pela primeira vez....
     Eu era enfermeira chefe, fui promovida pelo meu empenho e dedicação ao trabalho e aos doentes.
     O Pedro trabalhava no hospital, mais tempo que eu, mas eu não o conhecia, só ouvia as outras enfermeiras falando que era um rapaz muito bonito do hospital, mas nunca me interessei em saber quem era, pois minha vida era tão corrida, não sobrava tempo pra nada.     
     Um dia cruzei com o Pedro no corredor sem saber quem era, mas tendo a certeza que ele era o Pedro. Ele passou de cabeça baixa, nem me notou, vi que ele entrou em um dos quartos que estava vazio e o segui. Entrei no quarto e perguntei se ele estava procurando alguém. Ele se virou surpreso e falou que estava concertando a torneira, e que fazia parte do seu serviço, pois era encarregado de serviços gerais do hospital, e falou: "meu nome é Pedro, quando precisar algo é só chamar".
       Notei que ele parecia bastante tímido, pois ao falar comigo ficou corado. E minhas amigas tem razão, ele realmente é bonito. Notei que usava o uniforme com o emblema do hospital. 
       Ao chegar, em casa a noite, me peguei pensando nele mais do que devia. No dia seguinte cruzei com ele no corredor e lhe dei bom dia, apenas retribuiu com um aceno de cabeça. Fui falar com uma amiga que era casada, queria saber mais sobre ele, se era casado, ou tinha namorada. Ela me falou que realmente ele era bastante quieto e que não era casado, e que todas as enfermeiras davam em cima dele, mais ele não retribuía.   Eu que nunca o tinha notado, passei a notar os lugares que ele estava trabalhando e aparecia de surpresa e perguntava algo sobre o trabalho, fazendo de conta que estava ali por acaso. Eu fui até a sala de recursos humanos e verifiquei a ficha dele, realmente ele não era casado, tinha vinte e três anos, eu vinte e um. Nossa idade combinava.      Queria ser sua amiga, mas ambos éramos tímidos por isso nem um tomava a iniciativa.  Voltei a falar com minha amiga para ver se ela me ajudava, pois mesmo sem falar com ele estava apaixonada, minha primeira paixão, ela me falou que era encarregada de organizar o amigo secreto, pois estava se aproximando o natal e iria dar um jeito de fazer com que eu e ele fossemos o amigo um do outro.
        E foi assim que o conquistei, com bilhetes carinhosos da amiga secreta. Na hora da revelação senti que ele estava bem à vontade, quando falei que ele era o meu amigo secreto notei que ele abriu um largo sorriso e me afirmou que eu era o seu amigo também, falou muito feliz.
       Agora sempre que nos encontrávamos na hora da refeição ou na saída do serviço ficávamos conversando. Um dia ele me convidou para sairmos, e começamos namorar, me falou que já me conhecia, pois sempre cruzava comigo pelos corredores. Disse que trabalhava ali com o pai desde pequeno, e quando o pai faleceu já tinha lhe ensinado tudo e ficou em seu lugar. Contou também que morava com a irmã e dois sobrinhos. Falei tudo o que foi minha vida até então.
       Começamos a fazer planos para o futuro, fui conhecer sua irmã, ele me mostrou um terreno que tinha ao lado da casa dela e falou que ali iria construir nosso futuro lar. Foi então que ela falou que podíamos casar e morar com ela, pois seu marido viajava muito a trabalho, e se sentia muito só. E assim começou nossa nova vida juntos.
         Casamos em uma capela com uma cerimonia para poucos amigos, e logo começamos a construir nossa casa. Não ganhávamos muito, mas aos poucos fomos erguendo as paredes, já que não pagávamos a mão de obra, pois ele entendia tudo de construção, e eu aprendi com ele a fazer massa além  de carregar os tijolos.  Às vezes minhas mãos estavam em carne viva, eu amarrava uma faixa e continuava, não tínhamos mais final de semana livre, só deitávamos após a meia noite.
          Nosso esforço foi recompensado, dois anos depois, nos mudamos para nossa casa. Minha cunhada já tinha nos presenteado com os móveis. E para a nossa felicidade encomendamos nosso primeiro filho, que nasceu cheio de saúde e lindo como o pai, o chamamos de Fabio,  o nome do avô.
         Logo em seguida tive minha menina, Camila, e nossa felicidade estava completa. Quando as crianças adormeciam, ficávamos juntos na sala, construindo mais alguns planos.
         O Pedro saiu do emprego, e com os direitos trabalhistas montou o próprio negócio. Minha vida mudou. Nossa firma estava crescendo, saí do emprego para cuidar de nossos filhos. E também compramos nosso primeiro carro, que era necessário para seu trabalho. Nos fins de semana saíamos com as crianças a parques de diversão, cinema, teatro infantil, e antes de voltar para casa fazia um lanche com eles.
           O que eu nem sonhava era que minha felicidade estava por um fio.
          Notei que Pedro, antes tão feliz, já não existia mais. Vivia calado, já nem notava quando eu falava com ele, eu o questionava, mas ele dizia que estava tudo bem. Eu notava nele um nervosismo que não era comum nele. Quando eu entrava na sala, após por as crianças para dormir, o via calado, olhar perdido, eu tinha certeza que me escondia algo. Eu me desesperava, um dia tranquei a porta e ele não pode fugir de minhas perguntas: Você está doente? Você esta escondendo o que de mim? Tenho o direito de saber! Ele me abraçou forte e começou chorar, depois falou o que eu não queria ouvir...
          Não teve coragem de me encarar, com voz tremula disse:  "tenho lutado como nem um homem jamais lutou para não te fazer sofrer, mas sei que vou te causar um grande mal. A tempo conheci uma mulher, estou perdidamente apaixonado, você sempre foi uma esposa perfeita, mas acho que não é amor. Paixão, amor e loucura é por ela que sinto".  E acrescentou  que nem o amor que sentia por nossos filhos, iria fazê-lo mudar de ideia. "Vou morar com ela".
         Fiquei sem fala, nunca imaginei que era por outra que ele mudou. Eu sempre me senti tão forte ao lado dele. Tive que mostrar meu lado frágil e meu pranto deu vasão ao meu desespero. Em poucos segundos meu mundo desmoronou, me senti sozinha, ele se retirou, foi dormir no quarto de hospedes. Fiquei ali só, comecei imaginar minha rival, não sei se a invejava ou odiava, eu que o julguei inteiramente meu, ia partir para os braços de outra.
         No dia seguinte tivemos uma conversa definitiva, ele estava cabisbaixo, notei que estava sofrendo, me pediu que o ajudasse com as crianças, não queria as ver sofrer. Falou que podia ficar com a casa, com o carro e estaria sempre presente em nossas vidas. Olhei ao redor, nosso lar onde fui tão feliz, agora não tinha mais a menor importância. A casa que foi construída com tanto amor e sonhos, via em cada centímetro, um pedaço de nós dois. Não conseguia mais sentir amor por nada. Mas ainda tinha meus filhos, diante deles eu tinha que ser forte, pois não queria os ver sofrer.
        Era sábado, o ultimo que ele passaria com nós, saímos para fazer um lanche com as crianças, eu me mantive forte, não derramei uma lágrima, talvez ainda não houvesse caído a ficha, ele também se comportou normal como sempre. Já perto de casa, ele colocou nosso filho no colo e colocou no volante para dirigir até em casa que estava a vinte metros, foi quando surgiu um carro em alta velocidade, eram ladrões fugindo da policia e colidiu com nosso carro. Foi um choque frontal.
        Perdi os sentidos, e os recuperei oito dias depois, vi que estava em um quarto de hospital, sem saber que o acidente tinha sido fatal para o Pedro e meu filho. Entrei em desespero, falei ao médico que se tivesse perdido a minha família não queria mais viver, mas logo senti um toque de leve no meu braço, era minha filha que me fazia carinho, e me pediu que ficasse boa logo, porque eu tinha que cuidar dela porque o papai e seu irmão tinham ido para o céu. Tive uma crise de choro e ela chorou comigo.
       A última imagem que guardo do Pedro é com o Fabinho no colo. Sei que iria perdê-lo de qualquer jeito, mas preferia vê-lo com outra, a nunca mais lhe ver.
       Foi minha filha que me deu força para continuar viva, meu filho ficara pra sempre no meu coração. 
        Naquele dia tive a sensação que perdi o Pedro por duas vezes, uma para outra mulher, e outra para a morte.

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