quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Vida marcada


        As lembranças tristes de tudo que vivi me veem a memória e vou escrevê-las...
        Vim de uma família bastante humilde, éramos em 5 irmãos sendo eu a mais velha. Morávamos no meio do mato, me lembro de nossa casa, uma simples cabana que chamávamos de  lar, pois dentro só havia o necessário para vivermos, era nosso lar pois nessa época lá estava minha mãe.
       Nesta época minha mãe esperava o 6° filho, de vez em quando uma parteira vinha visita-la para fazer alguns exames, a mesma que ajudara todos a virem ao mundo. Ela não escondia sua preocupação quanto ao parto da criança que estava sentada, ela previa um parto difícil e perigoso. Meu Pai jamais lhe deu ouvidos e lhe respondia que desse um jeito já que para isto ela era parteira.
      Chegou o tão temido dia, minha mãe não escondia seu medo de morrer, quando eu tinha 11 anos chegou a comentar comigo que se algo de ruim lhe acontecesse, eu cuidasse de meus irmãos, ela sabia que meu pai era do tipo sem coração, que não gostava de ninguém, que para ele tanto fazia um filho estar com saúde ou adoecer, a prova disso era o risco que minha mãe estava correndo, sendo por tantas vezes alertado pela parteira e mesmo assim não o fez amolecer.
       Era um homem frio e carrancudo, parecia estar sempre de mal com a vida e sempre que tinha a oportunidade descarregava todo  seu ódio em cima de nós, apesar de sermos crianças quietas e tímidas, ele não respeitava ninguém. De que mundo veio meu pai, até hoje me faço esta pergunta.
       Minha mãe com dores fortes pediu para chamar meu pai que estava na roça, mas este respondeu que só iria na hora do almoço. Eu e meus irmãos ficamos ali junto da cama de minha mãe chorando e sofrendo com ela, até os menores que não entendiam muito choravam conosco.
       Meu pai chegou, almoçou tranquilo e foi buscar a parteira que morava num vilarejo há uns 10 km dali, onde  tinha um pequeno hospital, farmácia, mercado etc...
3 horas depois ele chegou com a parteira em sua carrocinha, minha mãe já estava exausta e meu pai nos fez sair.
      Anoiteceu e minha mãe continuou com seu sofrimento. Quando amanheceu, minha mãe já estava desacordada, meu pai que não aceitava ordens, teimava que ela teria que ter seu filho em casa, argumentava que esta criança não era melhor que os outros que nasceram em casa, mas a parteira disse que só um médico daria jeito e abandonou nossa casa, forçando assim meu pai a levá-la para o hospital do povoado.
      Me lembro que eu e meus irmãos ficamos ajoelhados diante de um crucifixo rezando por ela, mas de nada valeu nossas orações, pois o médico falou que já era tarde... o neném deveria nascer através de uma cesariana e a algumas horas  após ser hospitalizada ela veio a falecer, pois o bebê já estava morto.
     Meu pai providenciou o enterro lá mesmo e nem podemos ver nossa mãe pela última vez. Quando ele nos deu a notícia friamente que ela já estava embaixo da terra, meus irmãos começaram a chorar e eu os abraçava tentando consolá-los, mas acabei em prantos com eles. Meu pai manteve a frieza como se fosse um animal que tivesse morrido.
       Meu ódio naquele momento foi tão grande que eu gritei a ele que o odiava, pois tinha certeza que ele era o assassino de minha mãe.
       Eu tentava cuidar de meus irmãos. Um dia meu irmão menor de apenas 01 ano e dois meses adoeceu com uma febre alta, este foi um motivo para que meu pai tomasse uma decisão, alegava que não tinha condições de ficar com eles e que iria levá-los até o povoado, pois lá tinha uma entidade que os doaria a famílias boas. Eu chorei muito e supliquei que não os levasse que eu cuidaria deles, mas me falou que já estava decidido e que eu ficaria para cuidar da casa. Me lembro que chorei a noite toda.
      No dia seguinte cedo ele os colocou na carrocinha, eles estavam felizes, pois era a primeira vez que iam até o povoado, foram abanando para mim até a carroça desaparecer na ruela, e foi a ultima vez que eu vi meus irmãos.....
      Eu estava deprimida, em poucos dias perdi minha amada mãe e meus queridos irmãos e companheiros. Meu pai nem por um segundo pensou em levar aquele lar adiante, ele tinha seus planos diabólicos traçados para mim.  A separação foi dolorida e todas as noites eu adormecia chorando com saudades de minha mãe e de meus irmãos. Eu tinha ideia que meu caminho ainda iria ser muito tortuoso, eu sonhava com o povoado e sempre em meus sonhos estava meus irmãos, e por muitas vezes eu pedi ao meu  para ir visitá-los, mas ele jamais permitiu, pois me falou que meus irmãos iriam ganhar nome novo com uma família nova.
         De um tempo adiante passei a estranhar as atitudes de meu pai, ele começou a mudar, sempre que ia ao povoado me trazia presentes e me tratava muito bem, achei que ele estava ficando mais humano, mas foi puro engano  meu. Uma noite ele me falou que eu fosse dormir em sua cama, pois havia uma grande aranha em minha cama, bicho que eu tinha verdadeiro pavor,  e fui na minha ingenuidade de criança para a cama de meu pai, na minha cabeça não havia maldades, foi quando ele não relutou em usar sua autoridade para abusar de mim. 
       Dali para frente, eu com 14 anos, fez de mim sua mulher, ele me usava como se fosse adulta, quando eu fugia ele ainda me batia e tinha que ceder aos seus instintos animais.
        Agora minha vida se tornara um inferno e meu ódio pelo meu pai crescia cada vez mais. Por muitas vezes eu tentei fugir para o povoado, mas meu medo era muito grande e desistia.
        Dois anos se passaram e meu pai andava enfurecido, eu nem sabia por que, ele me falou que eu já estava de barriga igual minha mãe, fiquei sabendo então que eu estava grávida, mas não sabia como isto acontecera, jamais imaginei que aquele filho era fruto da relação com meu pai, achei que uma mulher ficava grávida sozinha.
       Minha barriga crescia e eu nem sabia de quantos meses eu estava.  Ele chamou a parteira para me examinar, mas antes me falou que eu  deveria dizer que eu tinha um namorado, e que foi este namorado que havia me engravidado. Comecei então a entender alguma coisa e fiquei apavorada, eu iria ter um filho de meu pai e odiei ainda mais aquele homem, meu nojo e ódio eram tão grandes que eu  comecei a planejar a sua morte. Pensei em empurra-lo para dentro do poço quando ele estivesse apanhando água, mas fiquei com medo que ele não morresse, depois planejei dar com o machado em sua cabeça, mas tive medo de não acertar. Cada vez que ele se aproveitava de mim meu ódio crescia. Uma vez quase usei um punhal afiadíssimo que ele tinha, só não matei meu pai por medo de errar e ele me matar depois.
       Chegou o grande dia de eu dar a luz, eu com 14 anos estava apavorada. A parteira veio e depois de muito sofrimento meu filho nasceu. A parteira chamou meu pai para mostra-lo e falou que era a cara do avô, mas meu pai num rompante de ódio deu um bofetão nela que a atirou em cima da cama e por pouco não deixou meu filho cair.
       A parteira se foi chamando meu pai de louco sem saber que ele era o pai e o avô do bebê, por isto a semelhança. 
       Dois dias depois do nascimento ele tirou meu filho dos meus braços dizendo que ele estava doente e que iria levá-lo ao médico. Gritei em prantos dizendo que ele estava bem, que não levasse meu neném, mas ele não deu ouvidos e seguiu com a criança no colo.
      Algum tempo depois ele retornou dizendo que ele ficará internado, e pela fisionomia dele eu notei que seria igual aos meus irmãos, ele se fora para sempre. No terceiro dia depois do nascimento de meu filho ele começou tudo de novo, me levou para sua cama, não respeitava nem  meu estado de pós-parto, meu ódio era enorme e eu  pensava em mil maneiras para dar um fim à vida de meu pai.
       Uma noite enquanto ele dormia, peguei um galão de querosene que a gente usava no lampião, uma caixa de fósforo acompanhados de uma tremedeira sem fim, eu me preparava para despejar o querosene em redor da cama e atear fogo, mas mais uma vez me faltou coragem, mais uma vez eu tive medo de ele escapar vivo e me matar.
        Alguns meses se passaram e eu já estava grávida outra vez, eu não percebi de novo, mas ele percebeu que minha barriga estava crescendo. Percebi a raiva enorme que transfigurava sua face e então ele começou a esmurrar minha barriga, me chamava de nomes horríveis que jamais poderia descrever. As dores eram enormes.
      Sofri uma forte hemorragia e fiquei muitos dias de cama, a febre veio altíssima e eu comecei a piorar, foi quando precisei de cuidados médicos e meu pai me levou para o hospital. No caminho me instruiu em que eu  deveria dizer, que eu tinha levado um tombo e que era casada, e em troca ele traria meu filho de volta. Acreditei nele e menti.
        Tive que ser operada, pois meu bebe morreu no dia em que fui espancada,  o médico falou que se eu demorasse mais um pouco teria perdido meus órgãos genitais.
        No hospital fiz muitas perguntas, eu queria saber a distância do povoado até minha casa, já que agora eu o conhecia o caminho, e se meu pai não cumprisse o que prometera, eu fugiria.
       Quando tive alta, perguntei se iria buscar  meus irmãos e  meu filho  conforme prometera, mas ele deu uma gargalhada e perguntou se eu tinha acreditado. Minha revolta e meu ódio foram tanto que eu me joguei da carroça, ele me jogou de volta para dentro da carroça e não pude fazer nada.
      Me sentia muito fraca mas minha ideia agora era fixa, minha fuga.
     Três dias depois coloquei meu plano em ação, esperei ele dormir, peguei uma sacola com minhas roupas e sai, mas meu calvário ainda não estava terminado, quando eu estava fechando a porta derrubei um caixote e com o barulho meu pai acordou. Ele ficou furioso,  me bateu até eu desfalecer e  o pior aconteceu, os pontos de minha operação abriram e voltei a sangrar. Ele presenciando tudo, falou que iria me deixar morrer a mingua, pois eu iria trai-lo.
     Passaram alguns dias, e fui melhorando aos poucos, apesar de muita dor, o sangramento se estancava a cada dia, até cicatrizar. Quando eu estava um pouco melhor, ele me acorrentou dentro de casa. Minha vida se tornara um verdadeiro inferno, agora eu me sentia um verdadeiro animal. Eu era levada de um lado ao outro pela corrente e por muito tempo fiquei neste sofrimento.
     Um certo dia a vida me deu uma oportunidade de fuga,  meu pai sofreu um corte profundo no pé e me soltou para fazer-lhe um curativo, ele estava bastante fraco e perdera  muito sangue. Atendi ele planejando minha liberdade.
Joguei a corrente no poço, e naquela noite mesmo eu fugi. Corri naquela escuridão, foi uma noite de alegria e de muito terror, pois não enxergava quase nada por onde passava, mas continuava correndo, minha vontade de me ver livre daquele monstro era tamanha que superava meu medo. Não sei quantas horas levei para chegar ao povoado, esperei amanhecer e encontrei uma senhora que vinha da padaria. Pedi ajuda a ela que me levou para sua casa, me deu café e ouviu minha história com muita atenção. Por muitas vezes me interrompeu repetindo que aquilo era um caso de policia. Me acompanhou até a delegacia onde contei tudo ao delegado, ele que me ouviu estarrecido.
       No dia seguinte tive que acompanhar o delegado e alguns policiais até minha casa, ele falou que meu pai iria passar o resto de seus dias na cadeia.
       Quando chegamos perto de casa, avistei meu pai que previa o que estava por vir. Ele começou a gritar descontrolado dizendo que a próxima a morrer seria eu, que ele ia fazer comigo o que fez com meu filho, ele ia me enterrar viva. Senti um calafrio e um aperto enorme no peito, ele era muito pior do que eu imaginava, ele teve coragem de enterrar meu precioso filho vivo, não pude conter minhas lágrimas, eu tinha certeza que nada mais me abalaria na vida, não existiria dor maior a tudo que já vivi e estava sentindo naquele momento.
         O delegado apontou a arma para ele e neste instante ele saiu em disparada sentido se embrenhando no mato, os policiais imediatamente o seguiram mas ele foi mais esperto e sumiu pelo caminho que ele conhecia muito bem.  Estava anoitecendo e as buscas ficaram para a manhã seguinte.
         Quando iniciaram as buscas, a apenas 100 metros dali, o encontraram pendurado  em um galho de árvore, ele havia se enforcado com a própria cinta. Não pude sentir outra coisa senão um alivio imenso, finalmente eu estava livre daquele monstro.
      Os policiais começaram a procurar o corpo de meu filho mas para minha tristeza, ficou constatado que ele foi enterrado vivo.
       Alguns dias depois começaram a procurar meus  irmãos, meu medo era que tivessem tido o mesmo fim do meu filho. A investigação constatou que eles foram deixados em uma instituição e doados para famílias boas. Não tive acesso ao local, mas a tive provas que estavam realmente bem.
        Quanto a mim, fui adotada por pessoas que me ensinaram a viver, adquiri valores e sempre fui tratada como gente. O amor por minha mãe jamais será substituído. E quanto ao que sofri, restaram muitas cicatrizes que jamais desaparecerão.
 

Sempre no meu coração

      Foi no hospital em que eu trabalhava que o vi pela primeira vez....
     Eu era enfermeira chefe, fui promovida pelo meu empenho e dedicação ao trabalho e aos doentes.
     O Pedro trabalhava no hospital, mais tempo que eu, mas eu não o conhecia, só ouvia as outras enfermeiras falando que era um rapaz muito bonito do hospital, mas nunca me interessei em saber quem era, pois minha vida era tão corrida, não sobrava tempo pra nada.     
     Um dia cruzei com o Pedro no corredor sem saber quem era, mas tendo a certeza que ele era o Pedro. Ele passou de cabeça baixa, nem me notou, vi que ele entrou em um dos quartos que estava vazio e o segui. Entrei no quarto e perguntei se ele estava procurando alguém. Ele se virou surpreso e falou que estava concertando a torneira, e que fazia parte do seu serviço, pois era encarregado de serviços gerais do hospital, e falou: "meu nome é Pedro, quando precisar algo é só chamar".
       Notei que ele parecia bastante tímido, pois ao falar comigo ficou corado. E minhas amigas tem razão, ele realmente é bonito. Notei que usava o uniforme com o emblema do hospital. 
       Ao chegar, em casa a noite, me peguei pensando nele mais do que devia. No dia seguinte cruzei com ele no corredor e lhe dei bom dia, apenas retribuiu com um aceno de cabeça. Fui falar com uma amiga que era casada, queria saber mais sobre ele, se era casado, ou tinha namorada. Ela me falou que realmente ele era bastante quieto e que não era casado, e que todas as enfermeiras davam em cima dele, mais ele não retribuía.   Eu que nunca o tinha notado, passei a notar os lugares que ele estava trabalhando e aparecia de surpresa e perguntava algo sobre o trabalho, fazendo de conta que estava ali por acaso. Eu fui até a sala de recursos humanos e verifiquei a ficha dele, realmente ele não era casado, tinha vinte e três anos, eu vinte e um. Nossa idade combinava.      Queria ser sua amiga, mas ambos éramos tímidos por isso nem um tomava a iniciativa.  Voltei a falar com minha amiga para ver se ela me ajudava, pois mesmo sem falar com ele estava apaixonada, minha primeira paixão, ela me falou que era encarregada de organizar o amigo secreto, pois estava se aproximando o natal e iria dar um jeito de fazer com que eu e ele fossemos o amigo um do outro.
        E foi assim que o conquistei, com bilhetes carinhosos da amiga secreta. Na hora da revelação senti que ele estava bem à vontade, quando falei que ele era o meu amigo secreto notei que ele abriu um largo sorriso e me afirmou que eu era o seu amigo também, falou muito feliz.
       Agora sempre que nos encontrávamos na hora da refeição ou na saída do serviço ficávamos conversando. Um dia ele me convidou para sairmos, e começamos namorar, me falou que já me conhecia, pois sempre cruzava comigo pelos corredores. Disse que trabalhava ali com o pai desde pequeno, e quando o pai faleceu já tinha lhe ensinado tudo e ficou em seu lugar. Contou também que morava com a irmã e dois sobrinhos. Falei tudo o que foi minha vida até então.
       Começamos a fazer planos para o futuro, fui conhecer sua irmã, ele me mostrou um terreno que tinha ao lado da casa dela e falou que ali iria construir nosso futuro lar. Foi então que ela falou que podíamos casar e morar com ela, pois seu marido viajava muito a trabalho, e se sentia muito só. E assim começou nossa nova vida juntos.
         Casamos em uma capela com uma cerimonia para poucos amigos, e logo começamos a construir nossa casa. Não ganhávamos muito, mas aos poucos fomos erguendo as paredes, já que não pagávamos a mão de obra, pois ele entendia tudo de construção, e eu aprendi com ele a fazer massa além  de carregar os tijolos.  Às vezes minhas mãos estavam em carne viva, eu amarrava uma faixa e continuava, não tínhamos mais final de semana livre, só deitávamos após a meia noite.
          Nosso esforço foi recompensado, dois anos depois, nos mudamos para nossa casa. Minha cunhada já tinha nos presenteado com os móveis. E para a nossa felicidade encomendamos nosso primeiro filho, que nasceu cheio de saúde e lindo como o pai, o chamamos de Fabio,  o nome do avô.
         Logo em seguida tive minha menina, Camila, e nossa felicidade estava completa. Quando as crianças adormeciam, ficávamos juntos na sala, construindo mais alguns planos.
         O Pedro saiu do emprego, e com os direitos trabalhistas montou o próprio negócio. Minha vida mudou. Nossa firma estava crescendo, saí do emprego para cuidar de nossos filhos. E também compramos nosso primeiro carro, que era necessário para seu trabalho. Nos fins de semana saíamos com as crianças a parques de diversão, cinema, teatro infantil, e antes de voltar para casa fazia um lanche com eles.
           O que eu nem sonhava era que minha felicidade estava por um fio.
          Notei que Pedro, antes tão feliz, já não existia mais. Vivia calado, já nem notava quando eu falava com ele, eu o questionava, mas ele dizia que estava tudo bem. Eu notava nele um nervosismo que não era comum nele. Quando eu entrava na sala, após por as crianças para dormir, o via calado, olhar perdido, eu tinha certeza que me escondia algo. Eu me desesperava, um dia tranquei a porta e ele não pode fugir de minhas perguntas: Você está doente? Você esta escondendo o que de mim? Tenho o direito de saber! Ele me abraçou forte e começou chorar, depois falou o que eu não queria ouvir...
          Não teve coragem de me encarar, com voz tremula disse:  "tenho lutado como nem um homem jamais lutou para não te fazer sofrer, mas sei que vou te causar um grande mal. A tempo conheci uma mulher, estou perdidamente apaixonado, você sempre foi uma esposa perfeita, mas acho que não é amor. Paixão, amor e loucura é por ela que sinto".  E acrescentou  que nem o amor que sentia por nossos filhos, iria fazê-lo mudar de ideia. "Vou morar com ela".
         Fiquei sem fala, nunca imaginei que era por outra que ele mudou. Eu sempre me senti tão forte ao lado dele. Tive que mostrar meu lado frágil e meu pranto deu vasão ao meu desespero. Em poucos segundos meu mundo desmoronou, me senti sozinha, ele se retirou, foi dormir no quarto de hospedes. Fiquei ali só, comecei imaginar minha rival, não sei se a invejava ou odiava, eu que o julguei inteiramente meu, ia partir para os braços de outra.
         No dia seguinte tivemos uma conversa definitiva, ele estava cabisbaixo, notei que estava sofrendo, me pediu que o ajudasse com as crianças, não queria as ver sofrer. Falou que podia ficar com a casa, com o carro e estaria sempre presente em nossas vidas. Olhei ao redor, nosso lar onde fui tão feliz, agora não tinha mais a menor importância. A casa que foi construída com tanto amor e sonhos, via em cada centímetro, um pedaço de nós dois. Não conseguia mais sentir amor por nada. Mas ainda tinha meus filhos, diante deles eu tinha que ser forte, pois não queria os ver sofrer.
        Era sábado, o ultimo que ele passaria com nós, saímos para fazer um lanche com as crianças, eu me mantive forte, não derramei uma lágrima, talvez ainda não houvesse caído a ficha, ele também se comportou normal como sempre. Já perto de casa, ele colocou nosso filho no colo e colocou no volante para dirigir até em casa que estava a vinte metros, foi quando surgiu um carro em alta velocidade, eram ladrões fugindo da policia e colidiu com nosso carro. Foi um choque frontal.
        Perdi os sentidos, e os recuperei oito dias depois, vi que estava em um quarto de hospital, sem saber que o acidente tinha sido fatal para o Pedro e meu filho. Entrei em desespero, falei ao médico que se tivesse perdido a minha família não queria mais viver, mas logo senti um toque de leve no meu braço, era minha filha que me fazia carinho, e me pediu que ficasse boa logo, porque eu tinha que cuidar dela porque o papai e seu irmão tinham ido para o céu. Tive uma crise de choro e ela chorou comigo.
       A última imagem que guardo do Pedro é com o Fabinho no colo. Sei que iria perdê-lo de qualquer jeito, mas preferia vê-lo com outra, a nunca mais lhe ver.
       Foi minha filha que me deu força para continuar viva, meu filho ficara pra sempre no meu coração. 
        Naquele dia tive a sensação que perdi o Pedro por duas vezes, uma para outra mulher, e outra para a morte.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O aborto que não deu certo


        Escutar atrás da porta não é feio pensei, e escutei o que não queria...
       Agora eu me dava conta porque minha mãe sempre me mandava brincar quando alguém vinha nos visitar.
         Naquele dia a curiosidade falou mais alto, eu me escondi atrás da porta, queria saber o que gente grande tinha tanto pra falar que eu não devia ouvir. Eu tinha então 12 anos, a idade da curiosidade. Sabia que se minha mãe me descobrisse ali, eu sairia pela orelha. As duas falavam de muitos assuntos, nada que me interessava, estava quase desistindo, quando uma frase me chamou atenção: Pois é, disse minha mãe, meu marido nunca gostou de ser pai de meninas, para ele filho tinha que  ser homem, nunca vi ninguém mais feliz,quando nasceu meu primeiro filho, ele cantou e tocou violão a tarde toda e mais, tinha que ter o nome dele, José.
        Quando meu filho tinha três anos eu engravidei de novo. Meu marido não ficou nada feliz, e disse que queria sair de casa, então eu falei: se for outro menino você não vai conhecer! 
          Nasceu uma menina que eu tanto queria, coloquei o nome da mãe dele, Selina, mas não adiantou ele disse que ia embora. Mas acabou desistindo e falou que já tínhamos um casal e ponto final.
          A gente sempre teve pouco, só o dinheiro que o estado pagava, não dava para ter mais filhos... e minha mãe continuou o seu relato... Ele sofreu o primeiro ataque epilético quando trabalhava na prefeitura com máquinas pesadas, e foi afastado por doença... eu estava estarrecida, ela ainda não estava falando de mim, queria fugir dali mas minha curiosidade foi maior e eu me perguntava: como será que foi quando nasci? Minha mãe continuou... imagina o que foi quando soube que estava esperando essa daí, eu já estava com 40 anos e minha caçula com 10....
           Notei que minha mãe falava com desprezo.
           Eu só descobri quando estava de quatro meses, fui procurar a índia que fazia garrafadas de ervas para provocar aborto, ela me falou que só fazia no começo de gravidez. Ofereci um pouco de dinheiro e ela cedeu. 
   Passou um mês e o remédio não fez efeito.
            Voltei lá e ela me confessou que tinha feito uma garrafa de vitaminas, pois eu poderia correr um sério risco, fiquei muito brava, e revoltada dei muitos socos na barriga. Mas parecia erva daninha, nada matava. Ela pulava como nunca, como a me avisar que estava bem viva...
Aquela frase não aguentei, o choque foi tão grande que meus joelhos dobraram. Não sei como consegui chegar até a cama, não consegui chorar, estava sem ação. De noite me deu febre e calafrios. Quando acordei na manhã seguinte, comecei a lembrar do que escutei, por isso era tratada assim? E não era só meu pai que não me queria, minha própria mãe quis me matar! Na manhã seguinte fui para a escola, minha cabeça girava. Não me sentia mais a mesma. Por isso que não tive nem um sonho de criança, nunca ninguém me contou uma história para eu dormir, fui tendo que desistir de tudo, não tive anjinho da guarda, coelhinho da páscoa, papai Noel, me falaram muito cedo que nada disso existia.
Pensei: vou arrancar minha mãe de dentro de mim, como ela quis me arrancar! Mas como ela, eu também não consegui. Só que tinha uma diferença, eu a amava.
A indiferença de meu pai eu até entedia, não ligava muito, mas da minha mãe eu não passava de um aborto que não deu certo. Eu sempre tentei falar com ela. Quando voltava da escola, ia ajudar as vizinhas a cuidar das crianças, lavar louças, ajudava na roça, levava marmitas nas fábricas, e o pouco dinheiro que ganhava,  eu dava a ela, sem receber nem um agrado em troca.
Queria tanto que ela me desse amor, como dava aos meus irmãos, pois sempre tinha um sorriso, uma palavra de carinho. Meus irmãos tinham bem mais idade, mas tudo do melhor era pra eles. Meu irmão já havia casado e minha irmã era uma moça muito bonita, mas eu era tão miúda e continuava a ser tratada como ninguém, eu notava que minha mãe não conseguia me encarar, e meu pai era completamente ausente comigo.
Depois da minha descoberta comecei a mudar, não tentava agradar a mais ninguém, comecei a viver a minha vida, tinha meu mundo a parte. Comecei trabalhar em dobro, entregava roupas que as vizinhas lavavam e passavam.
        Mas só que agora o dinheiro era só meu. Comprava roupas, calçados, perfumes, batom queria ter tudo que minha irmã tinha. Até então eu só vestia roupas usadas dela, os sapatos tinha que por algodão por dentro, pois eram bem maior que meus pés, as roupas idem. Agora eu me via no espelho e até me achava bonita, queria que eles me notassem, nem que fosse para me criticar, mas até isto eles me negavam.
        Quando minha mãe fez aniversário, todos estavam reunidos em casa, ela fez um bolo, eu tinha os meus trocados e resolvi comprar um presente, uma caixinha de pó de arroz, era o que ela usava no rosto. Antes passei em frente um salão de beleza, e li que tinha aprendizes cortando cabelos de graça, não hesitei, cortei minhas tranças, aproveitei para passar batom. Quando me olhei no espelho grande do salão, gostei do que vi.
          Corri para casa, queria ver a cara deles, quando cheguei todos debocharam de mim. Fui pro meu quarto, queria sumir, me achei ridícula, a risadas deles ainda ressoava nos meus ouvidos, agora eu mesma me rejeitava.  Meus irmãos eram tão bonitos.  E eu tão feia, pensei foi os remédios que minha mãe tomou para eu não vir ao mundo.
           Um dia Li um livro, a história eu já conhecia, o patinho feio, e achei que eu poderia ser o cisne que, ao se tornar adulto ficara lindo. Sempre fui sonhadora, em meus sonhos eu era uma menina linda e todos olhavam quando eu passava, até minha família se orgulhava de mim.
          Um dia quando voltava da escola vi muitas pessoas em frente de casa, comecei a chamar minha mãe, e descobri que meu pai, em mais um de seus ataques, caiu de uma escada, fraturou o crânio, o que lhe causou a morte. Pensei, não vou chorar! Se fosse eu que tivesse morrido ele nem ia ligar, ou então até ficaria aliviado. Agora nem que ele queira não vai mais poder olhar pra mim, não vou nem vê-lo no caixão. Mas fiquei curiosa, abri a cortina e espiei por uma fresta, minhas pernas ficaram bambas, ele ali imóvel as mãos entrelaçadas sobre o peito, rosto pálido.  Fui sentindo algo esquisito, uma dor no peito, as lágrimas teimavam em rolar. Pensei: ele só está dormindo, mas a dor era muito forte, e mais uma vez fui chorar na minha cama. Pensei: coitado! Cada vez que sofria um ataque caía e se machucava, vivia todo cortado, se queimava na chapa do fogão a lenha, já nem dentes ele tinha por cair em cima de pedras, acho que sua vida foi só sofrimento. Quando descobriu que estava com esta doença, ouvi muitas vezes ele pedindo a morte em suas orações.
         Chorei até adormecer e quando acordei, escutei um coro de vozes rezando, senti cheiro de vela misturado com cheiro de flores e alguns soluços. Cheguei até a sala, minha mãe me pegou pela orelha, me arrastou até a cozinha e falou: dormiu até agora, não vi você derramar nem uma lágrima, seus irmãos estão desconsolados, você é ruim mesmo. Parecia que eu ia explodir, abafei meus choros no travesseiro.
          A vizinha nos fez roupas de luto. Ao acompanhar o enterro, quando a dor apertava, eu puxava o véu sob o rosto pra ninguém me ver chorar. De noite eu ficava pensando, porque eu senti tanto a morte dele, até sentia sua falta, em toda minha vida, ele poucas palavras trocou comigo, mas também nunca foi ruim, nunca me bateu, ficava olhando o seu violão na parede colocado ali por ele, talvez pensando que ainda ia cantar e tocar muito. Por muitas vezes escutava minha mãe chorando, queria abraçar e chorar com ela, mas acabava sempre chorando sozinha.
         Algum tempo depois meus irmãos casaram eu tinha certeza que minha mãe ia me notar, pois ia ser só eu e ela. Mais um ano passou e eu já estava com15 anos, me sentia adulta. E nada mudou, notei que ela já não era mais a mesma, emagreceu muito e sua palidez era visível, só ficava feliz quando meus irmãos vinham nos visitar. Um dia eu voltei do trabalho, e minha irmã me falou: estou com exames da mãe, ela esta muito doente.
Eu não sabia, senti que realmente eu não fazia parte do mundo delas. Falou: ela esta com tuberculose, e senti um choque. Eu sabia que esta doença não tinha cura. Ela continuou: vou vir aqui sempre para vê-la e você tem que cuidar dela, dar os remédios na hora certa, que ela ficará boa. Para mim o mundo desabou, já tinha visto muita gente morrer com essa doença. Entrei no quarto e pela primeira vez não escondi o meu pranto, e perguntei: mãe se eu morrer a senhora vai chorar?  Porque se a senhora morrer não quero mais viver. Eu já não tenho mais medo de ir para debaixo da terra. Quando me falavam em morte era o que eu mais temia ser enterrada. Vi que ela ficou com os olhos marejados e achei que ela iria me abraçar. Mas apenas falou, ninguém vai morrer aqui, mãe não morre. Dali pra frente ela só piorou, tinha acessos de tosse, muita febre, eu não saia de perto dela. Quando ela dormia, eu fazia a comida, deixava a casa limpa. Os vizinhos se afastaram com medo do contagio, quando meus irmãos iam pra suas casas, eu ficava sozinha com ela, que  estava só pele e osso, chorava quando dava banho nela,  a tratava com todo o carinho. Ela me pedia que não ficasse muito por perto, pois a doença era contagiosa, mas eu não arredava o pé. E ainda tinha esperança de a ver com saúde. Pedia sempre a Deus que mandasse a cura para ela. Agora meus irmãos ficavam sempre junto comigo, eu aproveitava para dar vazão ao meu desespero. E eu fui assistindo dia após dia minha mãe indo embora. E num dia 29 de setembro ela partiu para sempre, naquele momento tive a certeza que eu tinha morrido com ela. No caixão estava apenas um corpo, sua alma já tinha subido ao céu. Eu não tive coragem de julgá-la nem em pensamento.
         Ficou uma pergunta: mãe porque você não me amou? Esta pergunta foi respondida umas semanas depois,  por minha irmã, me falou que estava quebrando um juramento que fez a minha mãe alguns dias antes dela falecer, mas como se tratava da minha vida, eu tinha o direito de saber: sabe, a mãe me contou que todas as noites ela ia até as casas das vizinhas para fazer orações, e em uma noite ao voltar, foi atacada por um homem que a violentou e quase a matou, sofreu uma grande violência física, ficou em estado de choque e doente por muito tempo. O pai o procurou por muito queria a morte dele mas nunca soube quem foi. Ao descobrir que estava grávida de você, foi o pior que podia acontecer. Ela nem te amamentou tal a rejeição. Quem sempre cuidou de você fui eu. Você sempre  foi muito boazinha, mas a mãe nos induzia em te desprezar. Hoje eu entendo o erro que cometemos.
           O choque que me causou pela descoberta foi grande, já sabia que ela quis me matar, mas saber que eu era filha de um estupro foi demais. Não sei quem sofreu mais, se fui eu ou ela! Minha Irma pediu, por favor! perdoa a mãe, eu respondi: já perdoei!