quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Vida marcada


        As lembranças tristes de tudo que vivi me veem a memória e vou escrevê-las...
        Vim de uma família bastante humilde, éramos em 5 irmãos sendo eu a mais velha. Morávamos no meio do mato, me lembro de nossa casa, uma simples cabana que chamávamos de  lar, pois dentro só havia o necessário para vivermos, era nosso lar pois nessa época lá estava minha mãe.
       Nesta época minha mãe esperava o 6° filho, de vez em quando uma parteira vinha visita-la para fazer alguns exames, a mesma que ajudara todos a virem ao mundo. Ela não escondia sua preocupação quanto ao parto da criança que estava sentada, ela previa um parto difícil e perigoso. Meu Pai jamais lhe deu ouvidos e lhe respondia que desse um jeito já que para isto ela era parteira.
      Chegou o tão temido dia, minha mãe não escondia seu medo de morrer, quando eu tinha 11 anos chegou a comentar comigo que se algo de ruim lhe acontecesse, eu cuidasse de meus irmãos, ela sabia que meu pai era do tipo sem coração, que não gostava de ninguém, que para ele tanto fazia um filho estar com saúde ou adoecer, a prova disso era o risco que minha mãe estava correndo, sendo por tantas vezes alertado pela parteira e mesmo assim não o fez amolecer.
       Era um homem frio e carrancudo, parecia estar sempre de mal com a vida e sempre que tinha a oportunidade descarregava todo  seu ódio em cima de nós, apesar de sermos crianças quietas e tímidas, ele não respeitava ninguém. De que mundo veio meu pai, até hoje me faço esta pergunta.
       Minha mãe com dores fortes pediu para chamar meu pai que estava na roça, mas este respondeu que só iria na hora do almoço. Eu e meus irmãos ficamos ali junto da cama de minha mãe chorando e sofrendo com ela, até os menores que não entendiam muito choravam conosco.
       Meu pai chegou, almoçou tranquilo e foi buscar a parteira que morava num vilarejo há uns 10 km dali, onde  tinha um pequeno hospital, farmácia, mercado etc...
3 horas depois ele chegou com a parteira em sua carrocinha, minha mãe já estava exausta e meu pai nos fez sair.
      Anoiteceu e minha mãe continuou com seu sofrimento. Quando amanheceu, minha mãe já estava desacordada, meu pai que não aceitava ordens, teimava que ela teria que ter seu filho em casa, argumentava que esta criança não era melhor que os outros que nasceram em casa, mas a parteira disse que só um médico daria jeito e abandonou nossa casa, forçando assim meu pai a levá-la para o hospital do povoado.
      Me lembro que eu e meus irmãos ficamos ajoelhados diante de um crucifixo rezando por ela, mas de nada valeu nossas orações, pois o médico falou que já era tarde... o neném deveria nascer através de uma cesariana e a algumas horas  após ser hospitalizada ela veio a falecer, pois o bebê já estava morto.
     Meu pai providenciou o enterro lá mesmo e nem podemos ver nossa mãe pela última vez. Quando ele nos deu a notícia friamente que ela já estava embaixo da terra, meus irmãos começaram a chorar e eu os abraçava tentando consolá-los, mas acabei em prantos com eles. Meu pai manteve a frieza como se fosse um animal que tivesse morrido.
       Meu ódio naquele momento foi tão grande que eu gritei a ele que o odiava, pois tinha certeza que ele era o assassino de minha mãe.
       Eu tentava cuidar de meus irmãos. Um dia meu irmão menor de apenas 01 ano e dois meses adoeceu com uma febre alta, este foi um motivo para que meu pai tomasse uma decisão, alegava que não tinha condições de ficar com eles e que iria levá-los até o povoado, pois lá tinha uma entidade que os doaria a famílias boas. Eu chorei muito e supliquei que não os levasse que eu cuidaria deles, mas me falou que já estava decidido e que eu ficaria para cuidar da casa. Me lembro que chorei a noite toda.
      No dia seguinte cedo ele os colocou na carrocinha, eles estavam felizes, pois era a primeira vez que iam até o povoado, foram abanando para mim até a carroça desaparecer na ruela, e foi a ultima vez que eu vi meus irmãos.....
      Eu estava deprimida, em poucos dias perdi minha amada mãe e meus queridos irmãos e companheiros. Meu pai nem por um segundo pensou em levar aquele lar adiante, ele tinha seus planos diabólicos traçados para mim.  A separação foi dolorida e todas as noites eu adormecia chorando com saudades de minha mãe e de meus irmãos. Eu tinha ideia que meu caminho ainda iria ser muito tortuoso, eu sonhava com o povoado e sempre em meus sonhos estava meus irmãos, e por muitas vezes eu pedi ao meu  para ir visitá-los, mas ele jamais permitiu, pois me falou que meus irmãos iriam ganhar nome novo com uma família nova.
         De um tempo adiante passei a estranhar as atitudes de meu pai, ele começou a mudar, sempre que ia ao povoado me trazia presentes e me tratava muito bem, achei que ele estava ficando mais humano, mas foi puro engano  meu. Uma noite ele me falou que eu fosse dormir em sua cama, pois havia uma grande aranha em minha cama, bicho que eu tinha verdadeiro pavor,  e fui na minha ingenuidade de criança para a cama de meu pai, na minha cabeça não havia maldades, foi quando ele não relutou em usar sua autoridade para abusar de mim. 
       Dali para frente, eu com 14 anos, fez de mim sua mulher, ele me usava como se fosse adulta, quando eu fugia ele ainda me batia e tinha que ceder aos seus instintos animais.
        Agora minha vida se tornara um inferno e meu ódio pelo meu pai crescia cada vez mais. Por muitas vezes eu tentei fugir para o povoado, mas meu medo era muito grande e desistia.
        Dois anos se passaram e meu pai andava enfurecido, eu nem sabia por que, ele me falou que eu já estava de barriga igual minha mãe, fiquei sabendo então que eu estava grávida, mas não sabia como isto acontecera, jamais imaginei que aquele filho era fruto da relação com meu pai, achei que uma mulher ficava grávida sozinha.
       Minha barriga crescia e eu nem sabia de quantos meses eu estava.  Ele chamou a parteira para me examinar, mas antes me falou que eu  deveria dizer que eu tinha um namorado, e que foi este namorado que havia me engravidado. Comecei então a entender alguma coisa e fiquei apavorada, eu iria ter um filho de meu pai e odiei ainda mais aquele homem, meu nojo e ódio eram tão grandes que eu  comecei a planejar a sua morte. Pensei em empurra-lo para dentro do poço quando ele estivesse apanhando água, mas fiquei com medo que ele não morresse, depois planejei dar com o machado em sua cabeça, mas tive medo de não acertar. Cada vez que ele se aproveitava de mim meu ódio crescia. Uma vez quase usei um punhal afiadíssimo que ele tinha, só não matei meu pai por medo de errar e ele me matar depois.
       Chegou o grande dia de eu dar a luz, eu com 14 anos estava apavorada. A parteira veio e depois de muito sofrimento meu filho nasceu. A parteira chamou meu pai para mostra-lo e falou que era a cara do avô, mas meu pai num rompante de ódio deu um bofetão nela que a atirou em cima da cama e por pouco não deixou meu filho cair.
       A parteira se foi chamando meu pai de louco sem saber que ele era o pai e o avô do bebê, por isto a semelhança. 
       Dois dias depois do nascimento ele tirou meu filho dos meus braços dizendo que ele estava doente e que iria levá-lo ao médico. Gritei em prantos dizendo que ele estava bem, que não levasse meu neném, mas ele não deu ouvidos e seguiu com a criança no colo.
      Algum tempo depois ele retornou dizendo que ele ficará internado, e pela fisionomia dele eu notei que seria igual aos meus irmãos, ele se fora para sempre. No terceiro dia depois do nascimento de meu filho ele começou tudo de novo, me levou para sua cama, não respeitava nem  meu estado de pós-parto, meu ódio era enorme e eu  pensava em mil maneiras para dar um fim à vida de meu pai.
       Uma noite enquanto ele dormia, peguei um galão de querosene que a gente usava no lampião, uma caixa de fósforo acompanhados de uma tremedeira sem fim, eu me preparava para despejar o querosene em redor da cama e atear fogo, mas mais uma vez me faltou coragem, mais uma vez eu tive medo de ele escapar vivo e me matar.
        Alguns meses se passaram e eu já estava grávida outra vez, eu não percebi de novo, mas ele percebeu que minha barriga estava crescendo. Percebi a raiva enorme que transfigurava sua face e então ele começou a esmurrar minha barriga, me chamava de nomes horríveis que jamais poderia descrever. As dores eram enormes.
      Sofri uma forte hemorragia e fiquei muitos dias de cama, a febre veio altíssima e eu comecei a piorar, foi quando precisei de cuidados médicos e meu pai me levou para o hospital. No caminho me instruiu em que eu  deveria dizer, que eu tinha levado um tombo e que era casada, e em troca ele traria meu filho de volta. Acreditei nele e menti.
        Tive que ser operada, pois meu bebe morreu no dia em que fui espancada,  o médico falou que se eu demorasse mais um pouco teria perdido meus órgãos genitais.
        No hospital fiz muitas perguntas, eu queria saber a distância do povoado até minha casa, já que agora eu o conhecia o caminho, e se meu pai não cumprisse o que prometera, eu fugiria.
       Quando tive alta, perguntei se iria buscar  meus irmãos e  meu filho  conforme prometera, mas ele deu uma gargalhada e perguntou se eu tinha acreditado. Minha revolta e meu ódio foram tanto que eu me joguei da carroça, ele me jogou de volta para dentro da carroça e não pude fazer nada.
      Me sentia muito fraca mas minha ideia agora era fixa, minha fuga.
     Três dias depois coloquei meu plano em ação, esperei ele dormir, peguei uma sacola com minhas roupas e sai, mas meu calvário ainda não estava terminado, quando eu estava fechando a porta derrubei um caixote e com o barulho meu pai acordou. Ele ficou furioso,  me bateu até eu desfalecer e  o pior aconteceu, os pontos de minha operação abriram e voltei a sangrar. Ele presenciando tudo, falou que iria me deixar morrer a mingua, pois eu iria trai-lo.
     Passaram alguns dias, e fui melhorando aos poucos, apesar de muita dor, o sangramento se estancava a cada dia, até cicatrizar. Quando eu estava um pouco melhor, ele me acorrentou dentro de casa. Minha vida se tornara um verdadeiro inferno, agora eu me sentia um verdadeiro animal. Eu era levada de um lado ao outro pela corrente e por muito tempo fiquei neste sofrimento.
     Um certo dia a vida me deu uma oportunidade de fuga,  meu pai sofreu um corte profundo no pé e me soltou para fazer-lhe um curativo, ele estava bastante fraco e perdera  muito sangue. Atendi ele planejando minha liberdade.
Joguei a corrente no poço, e naquela noite mesmo eu fugi. Corri naquela escuridão, foi uma noite de alegria e de muito terror, pois não enxergava quase nada por onde passava, mas continuava correndo, minha vontade de me ver livre daquele monstro era tamanha que superava meu medo. Não sei quantas horas levei para chegar ao povoado, esperei amanhecer e encontrei uma senhora que vinha da padaria. Pedi ajuda a ela que me levou para sua casa, me deu café e ouviu minha história com muita atenção. Por muitas vezes me interrompeu repetindo que aquilo era um caso de policia. Me acompanhou até a delegacia onde contei tudo ao delegado, ele que me ouviu estarrecido.
       No dia seguinte tive que acompanhar o delegado e alguns policiais até minha casa, ele falou que meu pai iria passar o resto de seus dias na cadeia.
       Quando chegamos perto de casa, avistei meu pai que previa o que estava por vir. Ele começou a gritar descontrolado dizendo que a próxima a morrer seria eu, que ele ia fazer comigo o que fez com meu filho, ele ia me enterrar viva. Senti um calafrio e um aperto enorme no peito, ele era muito pior do que eu imaginava, ele teve coragem de enterrar meu precioso filho vivo, não pude conter minhas lágrimas, eu tinha certeza que nada mais me abalaria na vida, não existiria dor maior a tudo que já vivi e estava sentindo naquele momento.
         O delegado apontou a arma para ele e neste instante ele saiu em disparada sentido se embrenhando no mato, os policiais imediatamente o seguiram mas ele foi mais esperto e sumiu pelo caminho que ele conhecia muito bem.  Estava anoitecendo e as buscas ficaram para a manhã seguinte.
         Quando iniciaram as buscas, a apenas 100 metros dali, o encontraram pendurado  em um galho de árvore, ele havia se enforcado com a própria cinta. Não pude sentir outra coisa senão um alivio imenso, finalmente eu estava livre daquele monstro.
      Os policiais começaram a procurar o corpo de meu filho mas para minha tristeza, ficou constatado que ele foi enterrado vivo.
       Alguns dias depois começaram a procurar meus  irmãos, meu medo era que tivessem tido o mesmo fim do meu filho. A investigação constatou que eles foram deixados em uma instituição e doados para famílias boas. Não tive acesso ao local, mas a tive provas que estavam realmente bem.
        Quanto a mim, fui adotada por pessoas que me ensinaram a viver, adquiri valores e sempre fui tratada como gente. O amor por minha mãe jamais será substituído. E quanto ao que sofri, restaram muitas cicatrizes que jamais desaparecerão.
 

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