quarta-feira, 3 de julho de 2013

Domingo no parque

  Era uma casa tão linda aonde eu vivi, e fui muito feliz, meus pais estavam sempre presentes. Lembro que tinha um pomar com muitas frutas, um jardim colorido de flores. Aos Domingos tinha missa, eu sabia as orações de cor, frequentávamos todas as festas religiosas. Mas nossa rotina foi quebrada, pela morte repentina de meu pai. Foi quando tudo mudou, minha casa ficou tão vazia e triste. Minha mãe não teve forças para levar aquele lar adiante, entrou em depressão, e jamais voltou ao seu estado normal. Estava longe de ser aquela mulher feliz de antes.
      A única renda que nos restou foi a que meu pai economizou a vida toda, e também a casa que era própria. Algum tempo depois ela teve que vender nossa casa, pois o dinheiro estava acabando, e logo teve muitos compradores. Ela vendeu pela melhor oferta, foi vendida para dona Anita que era conhecida de minha mãe, e pagou a vista. Mas fizeram um contrato em cartório que um quarto ficaria para nos morar ate que eu completasse 21 anos estando ela viva ou não.
      E assim fomos vivendo, com muita economia, eu comecei a ter problemas na escola, o tão famoso Bullying sempre existiu.     Eu estava muito magra, e alta para a minha idade, e me colocarão um monte de apelido. Acabei deixando a escola na quinta serie. Comecei a me achar horrível, e não tinha mais coragem de sair na rua, minha mãe falava que eu devia voltar para escola, pois estava na faze de crescimento, Mas eu não me conformava, com 14 anos eu já media um metro e sessenta e cinco. Meus cabelos também eu não gostava, Enfim agora eu já não gostava mais de sair na rua, tinha certeza que ia ser criticada por todos.   
    O parque ficava bem perto de onde eu morava minha maior alegria era ir brincar aos domingos, acompanhada pelos meus pais, foi lá que passei parte da minha infância e no parque não quis mais voltar.  
    Vi que minha mãe não se conformou com a morte de meu pai, e sua aparecia já era o de uma pessoa doente, eu fazia tudo para animá-la, mas eu também estava muito fragilizada pela falta de apoio dela, pois não tinha forças nem para ela. Mesmo assim se preocupava muito comigo, e com meu problema, mas não sobreviveu, a depressão a levou de mim para sempre.
     Agora eu estava realmente só, pois dona Anita nem me notava. Minha mãe antes de morrer deixou o dinheiro da venda da casa com ela para que cuidasse de mim e o dinheiro que deixou era para  suprir minhas necessidades, mas a única coisa que me dava, era o café da manha almoço e o jantar.
     Mas me avisou que minha mãe me deixou muito pouco, e falou que eu devia procurar um emprego.  Jamais vou sair para procurar emprego, pensei para todo mundo rir de mim fico aqui mesmo. Um dia olhei na janela e notei que o inverno já se fazia anunciar era um dia frio de garoa, não tinha quase ninguém na rua, os poucos transeuntes estavam com capas e guarda chuvas.
     Achei que eu podia ir até o parque sem ser notada. Fui até o guarda roupas, e tirei um casaco antigo que foi da minha mãe, era bem comprido era o que eu queria, puxei a gola e coloquei um gorro, e sai correndo para o parque, como estava feliz, não havia ninguém por lá o parque era só meu.
     Escolhi um banco que era coberto, e ali ficou sendo o meu lugar preferido todos os outros estavam vazios. Das arvores caiam pingos motivados pela garoa. Á como me sentia feliz, percorri todos os lugares me lembrei de meus pais! Dos verões onde fui tão feliz! Sabia que o tempo não volta, mas eu queria viver ser feliz de novo, e sentada no meu banco eu ficava olhando as pessoas encolhidas com seus agasalhos pesados. E assim eu podia ir todos os dias de inverno sem ser notada. Um dia ao chegar deparei com um desconhecido sentado no meu banco. Dei meia volta e fui procurar outro lugar para sentar, mas fiquei muito chateada, pois a garoa não dava trégua. No dia seguinte levei uma sombrinha, e lá estava o impostor sentado no meu lugar. Sentei num banco próximo, pois um dia antes ele nem me notou.
      Fiquei espiando do canto do olho, ele estava com um livro na Mao, olhar distante, notei que era bastante magro e muito pálido suas roupas eram um pouco surradas. De repente ele levantou, achei que ia embora, ele me olhou e perguntou! Você vive me olhando! Já lhe vi muitas vezes por aqui, e sempre me espiando.
      Sai correndo e só parei no portão para respirar, estava tão frio, tomei um banho quente e fui para debaixo dos cobertores.
      Deixei passar alguns dias e voltei, suspirei meu lugar, estava lá, sem ninguém para me atrapalhar. Passados alguns minutos, senti uma mão segurando meu braço, era o próprio, senti um calafrio, porque você sentou no meu lugar? Achei engraçado, agora o banco tinha dois donos. Quando olhei seu rosto, não foi um impostor que vi,
      Era apenas um jovem, com olheiras, e rosto triste. Pensei! Acho que ele se parece comigo, pois só vem aqui em dias nublados, para se esconder de olhares curiosos. Respirei fundo e perguntei você só vem aqui no inverno? Ele me olhou espantado e falou, a então você fala? É verdade como você adivinhou, não gosto de me expor sou apenas um farrapo humano, sei que sou muito feio, estou muito magro, e estou doente, mas logo vou ficar melhor, e ninguém vai mais zombar de mim.
      Você realmente está muito magro, mas não estou vendo nem um farrapo. Eu é que sou horrível, abri o casaco, olha sou um espantalho, sou chacota de todo mundo, não pude nem frequentar a escola todos riam de mim.
      Agora ele olhou meu corpo embaixo do vestido transparente, e falou, e você qual o apelido que vai me dar? Ele arregalou os olhos surpreso! Você já se olhou no espelho? Disse, não já quebrei meu espelho, faz muito tempo! E perguntou! Quantos anos você tem? 15 falei! Você é linda tem um corpo perfeito seus seios e pernas, é de dar inveja a muitas garotas de sua idade. Pode acreditar estou falando a verdade, seus cabelos assim cacheados e longos lhe caem muito bem, não se esconda mais embaixo deste casaco. Fiquei tão corada que parecia que ia morrer de tanta vergonha.
     Fechei o casaco tão rápido e sai correndo sem poder encara-lo, ele falou volte amanha. Quando entrei em casa tremia inteira, via diante de mim aqueles olhos tristes e fundos. No dia seguinte me enchi de coragem, e fui ao seu encontro, Ele estava no mesmo banco me esperando, ficamos conversando, me contou tudo sobre sua vida, disse que morava no fundo de uma fabrica aonde trabalhou por cinco anos, só que teve que se afastar por motivo de doença, pois fabricavam caixas de madeira para diversos fins, e o pó de madeira serrada lhe prejudicou, estava com problema pulmonar, mas logo ficarei bom estou me tratando me disse ainda, que o dono da fabrica o ajudava com remédios lhe deu a casa para morar, e lhe pagava um salário para se alimentar.     Comecei a contar minha vida, falei que era só no mundo, e disse que nossas vidas eram parecidas, eu só não estou doente.
     Fiquei feliz, pois agora eu tinha um amigo, de verdade. Ele perguntou se poderia me acompanhar até o portão falou que morava bastante perto do meu bairro. Ficamos conversando, durante alguns minutos no portão. De repente pente D. Anita apareceu gritando que já estava desconfiada, que eu saia todo dia atrás de homens, me perguntou se eu estava virando vadia, e falou!  Junte tudo que é seu e vá embora, você mesmo quebrou nosso contrato.
     O Davi quis reagir, mas lhe falei que era apenas mais uma das injustiças que por muitas vezes já havia sentido na pele. Ao ver minha aflição me falou! Vamos para minha casa. Ele me ajudou com as minhas malas e mais alguns pertences. No caminho me falou que sua casa era pequena, mas cabia mais um. Eu estava com muita vergonha, tinha medo que ele podia pensar mal de mim. Ao chegar ele providenciou uma sopa com legumes, e matei minha fome, logo depois ele me mostrou a casa, com apenas três peças, quarto, cozinha e banheiro, vi uma corda esticada com suas roupas penduradas, um fogão de lenha, uma pequena mesa, algumas panelas, pratos e talheres.
     A Cama era muito pequena feita por ele, era só o que ele tinha, vi que sua miséria era maior que a minha. Juntamos todas as coisas que eu trouxe e ficou um pouco melhor. Ele separou o pequeno quarto com um lençol em um arame, e cada um tinha o seu canto, para dormir.
     Depois começou a contar sua vida, falou que não gostava muito de sair em dias ensolarados, porque era alvo de brincadeiras de mau gosto, por ser tão magro, e o discriminavam porque tinha um surto de tuberculose na cidade e achavam que ele era portador desse mal. É você me falou que tem uma infecção do Pó de madeira, mas tomando todos os remédios logo vai ficar com saúde e engordar um pouco. Podemos todos os dias ir ao parque não importa a estação. Resolvi procurar dona Anita para que me devolvesse o dinheiro que minha mãe havia deixado, em troca eu daria o contrato que ela quebrou.
     E assim ela com medo me devolveu uma parte do que era meu. E dali para frente, fomos mais felizes, tínhamos sempre comida, e comecei a engordar um pouco, agora eu já gostava de minha aparência e minha alto estima voltou.
     O Davi estava mais alegre, já não tinha mais aquele olhar de moço triste, fazia muitos planos para quando ficasse bom, e em seus planos eu sempre estava incluída. Mas eu andava tão preocupada com sua aparência, notei que ele estava piorando dia a dia. Andava tão fraco e já nem queria sair de casa, mas tinha certeza que logo ficaria bom. Em dias de sol eu sempre o levava em uma praça em frente de casa, eu queria colocar, meu antigo casaco ele me dizia que não era mais para me esconder você e linda. Eu o agradecia por me devolver a alegria e a vontade de viver.
     Um dia lhe pedi para ir há outro medico, porque ele tinha febre com frequência. Mas mesmo assim ele continuava fazendo planos, queria voltar a estudar e trabalhar E falava que eu teria que terminar meus estudos com ele.
     Um dia ele me disse que me amava, perguntou se quando ele estivesse curado me casaria com ele. Para mim foi uma surpresa, eu não sabia nada sobre amor só de amizade, lhe falei que não sabia, mas disse que não queria perde-lo.
     Depois fiquei pensando, será que é amor que sinto por ele?  Pedi  a Deus para que nunca nos separasse. E continuávamos fazendo planos só que eles iam além dos considerados razoáveis.
     Um dia pela manha ele não levantou para o café matinal, fui acorda-lo ele estava, com muita febre e começou a tossir, e vi que do canto da boca escorria um filete de sangue, sai gritando por socorro e um vizinho veio em meu auxilio lhe transportando para o hospital, deitei sua cabeça e meu colo, fiquei ali sentada em um banco esperando por noticia, até que o medico apareceu, e falou, fique tranquila que amanhã ele estará bem não vai ter mais nada, para mim foi a melhor noticia, sai correndo, deixei a casa toda cheirosa, coloquei flores na jarra e por fim fui dormir, só acordando no dia seguinte, deixei a comida pronta, fui buscá-lo. Levei uma maçã vermelha que era a fruta que ele mais gostava, e fui direto para o quarto doze, que o medico falou que ele ficaria.   Mas o encontrei vazio, deixei a maçã sobre a mesa e fui a sua procura. Encontrei um rapaz vestido de branco, perguntei pelo Davi, ele pediu para acompanha-lo, o segui por diversos corredores e finalmente ele abriu uma porta, quando entramos ele puxou uma gaveta, e perguntou você veio reconhecer o corpo? Não entendi mais nada tive que, apoiar a cabeça começou a girar e fui parar no chão, quando acordei, senti um cheiro forte de clorofórmio. Desculpe moça pensei que você tinha vindo reconhecer o corpo! O que? O Davi morreu? Comecei a soluçar, mas o médico me falou que hoje estaria bom, não teria mais nada.
     O rapaz pediu para eu olhar só mais uma vez, e falei! Sim é ele. Ele estava muito mal se tratava aqui, o medico falou que não teria mais volta parou de sofrer. Olhei mais uma vez e reconheci seu rosto triste e imóvel, mas não era mais ele que estava ali. Só restou um invólucro vazio ele tinha partido para sempre. Fiquei aniquilada tinha perdido tudo de bom que tinha na vida, só eu sei o quanto senti sua falta, o quanto chorei a morte daquele que tinha representado tanto na minha vida, pai, irmão, amigo, e talvez um grande amor. E pensando em nossos sonhos, que os realizei sozinha, continuei morando na mesma casa! Voltei a estudar, trabalhar, até ser independente. Coloquei uma pequena foto, e seu tumulo estará sempre cheio de flores...

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