Escutar atrás da porta não é feio pensei, e escutei o que não
queria...
Agora eu me dava conta porque minha mãe sempre me mandava brincar
quando alguém vinha nos visitar.
Naquele dia a curiosidade falou mais alto, eu
me escondi atrás da porta, queria saber o que gente grande tinha tanto pra
falar que eu não devia ouvir. Eu tinha então 12 anos, a idade da curiosidade.
Sabia que se minha mãe me descobrisse ali, eu sairia pela orelha. As duas
falavam de muitos assuntos, nada que me interessava, estava quase desistindo, quando
uma frase me chamou atenção: Pois é, disse minha mãe, meu marido nunca gostou de
ser pai de meninas, para ele filho tinha que ser homem, nunca vi ninguém mais
feliz,quando nasceu meu primeiro filho, ele cantou e tocou violão a tarde toda
e mais, tinha que ter o nome dele, José.
Quando meu filho tinha três anos eu
engravidei de novo. Meu marido não ficou nada feliz, e disse que queria sair de casa, então eu
falei: se for outro menino você não vai conhecer!
Nasceu uma menina que eu
tanto queria, coloquei o nome da mãe dele, Selina, mas não adiantou ele disse
que ia embora. Mas acabou desistindo e falou que já tínhamos um casal e ponto
final.
A gente sempre teve pouco, só o dinheiro que o estado
pagava, não dava para ter mais filhos... e minha mãe continuou o seu relato... Ele
sofreu o primeiro ataque epilético quando trabalhava na prefeitura com
máquinas pesadas, e foi afastado por doença... eu estava estarrecida, ela ainda não estava falando de mim, queria
fugir dali mas minha curiosidade foi maior e eu me perguntava: como será que
foi quando nasci? Minha mãe continuou... imagina o que
foi quando soube que estava esperando essa daí, eu já estava com 40 anos e
minha caçula com 10....
Notei que minha mãe falava com
desprezo.
Eu só descobri quando estava de
quatro meses, fui procurar a índia que fazia garrafadas de ervas para provocar
aborto, ela me falou que só fazia no começo de gravidez. Ofereci um pouco de dinheiro e ela cedeu.
Passou um mês e o remédio não fez efeito.
Voltei lá e ela me confessou que tinha feito uma garrafa de vitaminas, pois eu poderia correr um sério risco, fiquei muito brava, e revoltada dei muitos socos na barriga. Mas
parecia erva daninha, nada matava. Ela pulava como nunca, como a me avisar que
estava bem viva...
Aquela frase não aguentei, o choque foi tão grande
que meus joelhos dobraram. Não sei como consegui chegar até a cama, não
consegui chorar, estava sem ação. De noite me deu febre e calafrios. Quando acordei na manhã seguinte,
comecei a lembrar do que escutei, por isso era tratada assim? E não era só meu
pai que não me queria, minha própria mãe quis me matar! Na manhã seguinte fui para a escola, minha cabeça girava. Não me sentia mais a mesma. Por
isso que não tive nem um sonho de criança, nunca ninguém me contou uma história
para eu dormir, fui tendo que desistir de tudo, não tive anjinho da guarda, coelhinho
da páscoa, papai Noel, me falaram muito cedo que nada disso existia.
Pensei: vou
arrancar minha mãe de dentro de mim, como ela quis me arrancar! Mas como ela,
eu também não consegui. Só que tinha uma diferença, eu a amava.
A indiferença de
meu pai eu até entedia, não ligava muito, mas da minha mãe eu não passava de um
aborto que não deu certo. Eu sempre tentei falar com ela. Quando voltava da
escola, ia ajudar as vizinhas a cuidar das crianças, lavar louças, ajudava na roça, levava marmitas nas fábricas, e o pouco dinheiro que
ganhava, eu dava a ela, sem receber nem um agrado em troca.
Queria tanto que ela me
desse amor, como dava aos meus irmãos, pois sempre tinha um sorriso, uma palavra
de carinho. Meus irmãos tinham bem mais idade, mas tudo do melhor era pra eles. Meu irmão já havia casado e
minha irmã era uma moça muito bonita, mas eu era tão miúda e continuava a ser
tratada como ninguém, eu notava que minha mãe não conseguia me encarar, e meu
pai era completamente ausente comigo.
Depois da minha descoberta comecei a
mudar, não tentava agradar a mais ninguém, comecei a viver a minha vida, tinha
meu mundo a parte. Comecei trabalhar em dobro, entregava roupas que as vizinhas
lavavam e passavam.
Mas só que agora o dinheiro era só
meu. Comprava roupas, calçados, perfumes, batom queria ter tudo que minha
irmã tinha. Até então eu só vestia roupas usadas dela, os sapatos tinha que por
algodão por dentro, pois eram bem maior que meus pés, as roupas idem. Agora eu
me via no espelho e até me achava bonita, queria que eles me notassem, nem que
fosse para me criticar, mas até isto
eles me negavam.
Quando minha mãe fez aniversário, todos estavam reunidos em
casa, ela fez um bolo, eu tinha os meus trocados e resolvi comprar um presente,
uma caixinha de pó de arroz, era o que ela usava no rosto. Antes passei em
frente um salão de beleza, e li que tinha aprendizes cortando cabelos de graça,
não hesitei, cortei minhas tranças, aproveitei para passar batom. Quando me
olhei no espelho grande do salão, gostei do que vi.
Corri para casa, queria ver
a cara deles, quando cheguei todos debocharam de mim. Fui pro meu quarto, queria
sumir, me achei ridícula, a risadas deles ainda ressoava nos meus ouvidos,
agora eu mesma me rejeitava. Meus
irmãos eram tão bonitos. E eu tão
feia, pensei foi os remédios que minha mãe tomou para eu não vir ao mundo.
Um
dia Li um livro, a história eu já conhecia, o patinho feio, e achei que eu poderia
ser o cisne que, ao se tornar adulto ficara lindo. Sempre fui sonhadora, em meus
sonhos eu era uma menina linda e todos olhavam quando eu passava, até minha
família se orgulhava de mim.
Um dia quando voltava da escola vi muitas pessoas em frente de casa, comecei a chamar minha mãe, e descobri que meu pai, em mais um de seus ataques, caiu de uma escada, fraturou o crânio, o que lhe causou a morte. Pensei, não vou chorar! Se fosse eu que tivesse morrido ele nem ia ligar, ou então até ficaria aliviado. Agora nem que ele queira não vai mais poder olhar pra mim, não vou nem vê-lo no caixão. Mas fiquei curiosa, abri a cortina e espiei por uma fresta, minhas pernas ficaram bambas, ele ali imóvel as mãos entrelaçadas sobre o peito, rosto pálido. Fui sentindo algo esquisito, uma dor no peito, as lágrimas teimavam em rolar. Pensei: ele só está dormindo, mas a dor era muito forte, e mais uma vez fui chorar na minha cama. Pensei: coitado! Cada vez que sofria um ataque caía e se machucava, vivia todo cortado, se queimava na chapa do fogão a lenha, já nem dentes ele tinha por cair em cima de pedras, acho que sua vida foi só sofrimento. Quando descobriu que estava com esta doença, ouvi muitas vezes ele pedindo a morte em suas orações.
Chorei até adormecer e quando acordei, escutei um coro de vozes rezando, senti cheiro de vela misturado com cheiro de flores e alguns soluços. Cheguei até a sala, minha mãe me pegou pela orelha, me arrastou até a cozinha e falou: dormiu até agora, não vi você derramar nem uma lágrima, seus irmãos estão desconsolados, você é ruim mesmo. Parecia que eu ia explodir, abafei meus choros no travesseiro.
A vizinha nos fez roupas de luto. Ao acompanhar o enterro, quando a dor apertava, eu puxava o véu sob o rosto pra ninguém me ver chorar. De noite eu ficava pensando, porque eu senti tanto a morte dele, até sentia sua falta, em toda minha vida, ele poucas palavras trocou comigo, mas também nunca foi ruim, nunca me bateu, ficava olhando o seu violão na parede colocado ali por ele, talvez pensando que ainda ia cantar e tocar muito. Por muitas vezes escutava minha mãe chorando, queria abraçar e chorar com ela, mas acabava sempre chorando sozinha.
Algum tempo depois meus irmãos casaram eu tinha certeza que minha mãe ia me notar, pois ia ser só eu e ela. Mais um ano passou e eu já estava com15 anos, me sentia adulta. E nada mudou, notei que ela já não era mais a mesma, emagreceu muito e sua palidez era visível, só ficava feliz quando meus irmãos vinham nos visitar. Um dia eu voltei do trabalho, e minha irmã me falou: estou com exames da mãe, ela esta muito doente.
Eu não sabia, senti que realmente eu não fazia parte do mundo delas. Falou: ela esta com tuberculose, e senti um choque. Eu sabia que esta doença não tinha cura. Ela continuou: vou vir aqui sempre para vê-la e você tem que cuidar dela, dar os remédios na hora certa, que ela ficará boa. Para mim o mundo desabou, já tinha visto muita gente morrer com essa doença. Entrei no quarto e pela primeira vez não escondi o meu pranto, e perguntei: mãe se eu morrer a senhora vai chorar? Porque se a senhora morrer não quero mais viver. Eu já não tenho mais medo de ir para debaixo da terra. Quando me falavam em morte era o que eu mais temia ser enterrada. Vi que ela ficou com os olhos marejados e achei que ela iria me abraçar. Mas apenas falou, ninguém vai morrer aqui, mãe não morre. Dali pra frente ela só piorou, tinha acessos de tosse, muita febre, eu não saia de perto dela. Quando ela dormia, eu fazia a comida, deixava a casa limpa. Os vizinhos se afastaram com medo do contagio, quando meus irmãos iam pra suas casas, eu ficava sozinha com ela, que estava só pele e osso, chorava quando dava banho nela, a tratava com todo o carinho. Ela me pedia que não ficasse muito por perto, pois a doença era contagiosa, mas eu não arredava o pé. E ainda tinha esperança de a ver com saúde. Pedia sempre a Deus que mandasse a cura para ela. Agora meus irmãos ficavam sempre junto comigo, eu aproveitava para dar vazão ao meu desespero. E eu fui assistindo dia após dia minha mãe indo embora. E num dia 29 de setembro ela partiu para sempre, naquele momento tive a certeza que eu tinha morrido com ela. No caixão estava apenas um corpo, sua alma já tinha subido ao céu. Eu não tive coragem de julgá-la nem em pensamento.
Ficou uma pergunta: mãe porque você não me amou? Esta pergunta foi respondida umas semanas depois, por minha irmã, me falou que estava quebrando um juramento que fez a minha mãe alguns dias antes dela falecer, mas como se tratava da minha vida, eu tinha o direito de saber: sabe, a mãe me contou que todas as noites ela ia até as casas das vizinhas para fazer orações, e em uma noite ao voltar, foi atacada por um homem que a violentou e quase a matou, sofreu uma grande violência física, ficou em estado de choque e doente por muito tempo. O pai o procurou por muito queria a morte dele mas nunca soube quem foi. Ao descobrir que estava grávida de você, foi o pior que podia acontecer. Ela nem te amamentou tal a rejeição. Quem sempre cuidou de você fui eu. Você sempre foi muito boazinha, mas a mãe nos induzia em te desprezar. Hoje eu entendo o erro que cometemos.
O choque que me causou pela descoberta foi grande, já sabia que ela quis me matar, mas saber que eu era filha de um estupro foi demais. Não sei quem sofreu mais, se fui eu ou ela! Minha Irma pediu, por favor! perdoa a mãe, eu respondi: já perdoei!
Um dia quando voltava da escola vi muitas pessoas em frente de casa, comecei a chamar minha mãe, e descobri que meu pai, em mais um de seus ataques, caiu de uma escada, fraturou o crânio, o que lhe causou a morte. Pensei, não vou chorar! Se fosse eu que tivesse morrido ele nem ia ligar, ou então até ficaria aliviado. Agora nem que ele queira não vai mais poder olhar pra mim, não vou nem vê-lo no caixão. Mas fiquei curiosa, abri a cortina e espiei por uma fresta, minhas pernas ficaram bambas, ele ali imóvel as mãos entrelaçadas sobre o peito, rosto pálido. Fui sentindo algo esquisito, uma dor no peito, as lágrimas teimavam em rolar. Pensei: ele só está dormindo, mas a dor era muito forte, e mais uma vez fui chorar na minha cama. Pensei: coitado! Cada vez que sofria um ataque caía e se machucava, vivia todo cortado, se queimava na chapa do fogão a lenha, já nem dentes ele tinha por cair em cima de pedras, acho que sua vida foi só sofrimento. Quando descobriu que estava com esta doença, ouvi muitas vezes ele pedindo a morte em suas orações.
Chorei até adormecer e quando acordei, escutei um coro de vozes rezando, senti cheiro de vela misturado com cheiro de flores e alguns soluços. Cheguei até a sala, minha mãe me pegou pela orelha, me arrastou até a cozinha e falou: dormiu até agora, não vi você derramar nem uma lágrima, seus irmãos estão desconsolados, você é ruim mesmo. Parecia que eu ia explodir, abafei meus choros no travesseiro.
A vizinha nos fez roupas de luto. Ao acompanhar o enterro, quando a dor apertava, eu puxava o véu sob o rosto pra ninguém me ver chorar. De noite eu ficava pensando, porque eu senti tanto a morte dele, até sentia sua falta, em toda minha vida, ele poucas palavras trocou comigo, mas também nunca foi ruim, nunca me bateu, ficava olhando o seu violão na parede colocado ali por ele, talvez pensando que ainda ia cantar e tocar muito. Por muitas vezes escutava minha mãe chorando, queria abraçar e chorar com ela, mas acabava sempre chorando sozinha.
Algum tempo depois meus irmãos casaram eu tinha certeza que minha mãe ia me notar, pois ia ser só eu e ela. Mais um ano passou e eu já estava com15 anos, me sentia adulta. E nada mudou, notei que ela já não era mais a mesma, emagreceu muito e sua palidez era visível, só ficava feliz quando meus irmãos vinham nos visitar. Um dia eu voltei do trabalho, e minha irmã me falou: estou com exames da mãe, ela esta muito doente.
Eu não sabia, senti que realmente eu não fazia parte do mundo delas. Falou: ela esta com tuberculose, e senti um choque. Eu sabia que esta doença não tinha cura. Ela continuou: vou vir aqui sempre para vê-la e você tem que cuidar dela, dar os remédios na hora certa, que ela ficará boa. Para mim o mundo desabou, já tinha visto muita gente morrer com essa doença. Entrei no quarto e pela primeira vez não escondi o meu pranto, e perguntei: mãe se eu morrer a senhora vai chorar? Porque se a senhora morrer não quero mais viver. Eu já não tenho mais medo de ir para debaixo da terra. Quando me falavam em morte era o que eu mais temia ser enterrada. Vi que ela ficou com os olhos marejados e achei que ela iria me abraçar. Mas apenas falou, ninguém vai morrer aqui, mãe não morre. Dali pra frente ela só piorou, tinha acessos de tosse, muita febre, eu não saia de perto dela. Quando ela dormia, eu fazia a comida, deixava a casa limpa. Os vizinhos se afastaram com medo do contagio, quando meus irmãos iam pra suas casas, eu ficava sozinha com ela, que estava só pele e osso, chorava quando dava banho nela, a tratava com todo o carinho. Ela me pedia que não ficasse muito por perto, pois a doença era contagiosa, mas eu não arredava o pé. E ainda tinha esperança de a ver com saúde. Pedia sempre a Deus que mandasse a cura para ela. Agora meus irmãos ficavam sempre junto comigo, eu aproveitava para dar vazão ao meu desespero. E eu fui assistindo dia após dia minha mãe indo embora. E num dia 29 de setembro ela partiu para sempre, naquele momento tive a certeza que eu tinha morrido com ela. No caixão estava apenas um corpo, sua alma já tinha subido ao céu. Eu não tive coragem de julgá-la nem em pensamento.
Ficou uma pergunta: mãe porque você não me amou? Esta pergunta foi respondida umas semanas depois, por minha irmã, me falou que estava quebrando um juramento que fez a minha mãe alguns dias antes dela falecer, mas como se tratava da minha vida, eu tinha o direito de saber: sabe, a mãe me contou que todas as noites ela ia até as casas das vizinhas para fazer orações, e em uma noite ao voltar, foi atacada por um homem que a violentou e quase a matou, sofreu uma grande violência física, ficou em estado de choque e doente por muito tempo. O pai o procurou por muito queria a morte dele mas nunca soube quem foi. Ao descobrir que estava grávida de você, foi o pior que podia acontecer. Ela nem te amamentou tal a rejeição. Quem sempre cuidou de você fui eu. Você sempre foi muito boazinha, mas a mãe nos induzia em te desprezar. Hoje eu entendo o erro que cometemos.
O choque que me causou pela descoberta foi grande, já sabia que ela quis me matar, mas saber que eu era filha de um estupro foi demais. Não sei quem sofreu mais, se fui eu ou ela! Minha Irma pediu, por favor! perdoa a mãe, eu respondi: já perdoei!
Linda e triste história de vida. Identifiquei pessoas com nomes diferentes em épocas invertidas.
ResponderExcluirMinha tia, o sofrimento a fortaleceu.
Repassei para mais de 1500 pessoas.
Parabéns pela belíssima crônica da vida real!
Sua sobrinha que a ama.